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Alta na temperatura global é ameaça

publicado: 13/04/2026 09h13, última modificação: 13/04/2026 09h13
Efeito estufa tem provocado a intensificação de eventos extremos, com consequências sobre todos os biomas
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Avanço do mar em áreas residenciais em cidades do Litoral Norte paraibano é um dos fenômenos ocasionados pelas mudanças climáticas | Foto: Saulo Vital/Arquivo pessoal

por Carolina Oliveira*

As mudanças climáticas sempre ocorreram na história geológica do planeta Terra. Fatores astronômicos e a movimentação dos continentes, entre outros fenômenos, contribuem para essas mudanças ao longo de milhões de anos. Entretanto, conforme explica o geógrafo e professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Saulo Vital, desde a Revolução Industrial, enfrentamos um contínuo processo de aceleração dessas mudanças, em função da intensificação do efeito estufa. “Temos um aumento da temperatura média global. Atualmente, a meta é não ultrapassar 1,5 °C, o que já está se repetindo há cerca de três anos. Se essa tendência continuar, será permanente e fará parte do padrão médio de temperatura do planeta, trazendo consequências drásticas para o clima mundial”, alerta.

Apesar de também ser um processo natural responsável pelo equilíbrio climático do planeta, o efeito estufa tem se intensificado como resultado de décadas de emissões excessivas de dióxido de carbono e metano, acelerando as mudanças climáticas. Embora estejamos falando em aumento da temperatura, isso não significa dizer que a consequência seja apenas o calor. “É preciso entender que o aumento da temperatura média global acelera as mudanças climáticas, e a aceleração das mudanças climáticas implica na intensificação dos eventos extremos”, alerta o professor, ao descrever que tais eventos são fenômenos naturais episódicos, que só aconteciam em determinados momentos, com uma escala de recorrência muito ampla.

Se, antes, tais fenômenos aconteciam de 10 em 10 anos, por exemplo, agora já estão acontecendo a cada cinco anos, ou até mesmo numa amplitude temporal menor. “Basta olhar para a questão do Rio Grande do Sul, as chuvas intensas lá tem se repetido todos os anos, praticamente”, exemplifica.

Quando esses eventos passam a ocorrer numa amplitude temporal cada vez menor, começam a se tornar comuns e recorrentes e, portanto, passam a fazer parte do padrão climático de uma determinada região, o que configura aquilo que se entende como mudança climática. O aumento na temperatura média global vem desencadeando reações ambientais adversas, como a elevação do nível dos mares, derretimento de geleiras e períodos prolongados de seca e chuva.

Impacto no país

No caso do Brasil, o professor destaca que estudos já mostram que, para o Cone Sul, abaixo do trópico de Capricórnio, a tendência é que a região passe a se tornar mais úmida. Enquanto no restante do Brasil, do trópico de Capricórnio para o Norte, a tendência é que o clima se torne mais seco, em grande parte. “Já no Litoral Leste do Nordeste, sobretudo na região que vai de Maceió a Natal, estamos observando chuvas mais recorrentes no decorrer do ano, o que não fazia parte do padrão climático anterior. Enquanto nosso semiárido está tendo uma tendência a se tornar mais seco”, comenta o geógrafo sobre as consequências regionais.

A Amazônia, por sua vez, corre o risco de passar por um processo de savanização, e os biomas tendem a entrar em colapso. “A situação é muito séria. Na esfera global, um dos maiores poluidores mundiais, os Estados Unidos, já quebrou todos os acordos possíveis de redução das emissões”, aponta Saulo Vital. Na esfera local, há um crescente desmatamento na cidade de João Pessoa.

Expansão urbana tende a acelerar problemas ambientais nas cidades

Nas últimas três décadas, a capital paraibana vem passando por mudanças na distribuição, uso e ocupação do seu espaço geográfico. A partir da expansão imobiliária, mercantilização do solo e verticalização acelerada — sobretudo em bairros como Miramar, Manaíra, Cabo Branco e Tambaú —, bem como a expansão urbana em direção à Zona Sul, este processo transformou-a na capital com a maior taxa de verticalização urbana da Região Nordeste, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2024.

O gerente-executivo de Mudanças Climáticas da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), Jancerlan Rocha, explica que essa expansão urbana acelerada teve como “motor impulsionador” o desmatamento de vegetação nativa, principalmente em Áreas de Preservação Permanente (APP), às margens de cursos d’água. “Os desmatamentos propiciam o surgimento de graves problemas ambientais, conflitos legais e de gestão”, afirma.

É dessa lógica que despontam os processos erosivos, que surgem após a exposição do solo a partir do desmatamento. “A ação de impacto das gotas de chuvas desagrega o solo e, por causa da declividade do terreno e da sua tipologia arenosa, [os sedimentos] são transportados, por meio do escoamento superficial, para os vales e leitos dos cursos d’água”, descreve Rocha. A consequência é o assoreamento, principalmente dos rios mais urbanizados da cidade,— como o Cabelo, Cuiá, Jaguaribe, Timbó e Sanhauá —, que deságuam no mar, alterando o fluxo de sedimentos e aumentando a erosão costeira.

Além da erosão e do avanço do mar, João Pessoa e o resto do estado sentem efeitos claros das mudanças climáticas. Jancerlan enumera, entre esses efeitos, o aumento da frequência de chuvas fortes em curtos períodos, a elevação das temperaturas do ar e da superfície, além do aumento ou prolongamento de períodos de estiagem e secas. “Mudanças climáticas intensificam chuvas, secas, calor e frio, ou seja, nós somos os responsáveis pelo clima que nossos filhos e netos sentirão”, adverte. 

Corrente oceânica

Um dos fatores que agravam de forma sistêmica os processos do clima é a recente e gradual perda de força da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, em inglês Atlantic Meridional Overturning Circulation (Amoc). A corrente oceânica que transporta calor das latitudes tropicais para a zona temperada está perdendo força pelo derretimento das geleiras e o lançamento de água doce no mar.

 O sistema de correntes atua levando água quente dos trópicos para o Atlântico Norte e retornando água fria para o Atlântico Sul. O efeito é a regulação do clima global, amenizando o inverno europeu e influenciando as chuvas nas Américas e África, mas o processo está enfraquecendo e perdendo intensidade devido às mudanças climáticas.

População de áreas pobres é mais vulnerável às alterações do clima

No cenário global, ações para reduzir impactos, por meio de alternativas em energia e transporte, por exemplo, são buscadas, e um destes casos é o da China — o país tem investido na produção de carros elétricos, impulsionando a redução do uso de combustíveis fósseis. “Mas ainda são medidas paliativas, porque, para fabricar uma bateria de carro elétrico, é necessário desmatar muitos hectares de floresta”, pondera Vital. De acordo com o professor, as iniciativas pontuais, apesar de exitosas, ainda não trazem soluções significativas para mitigação. “A matriz energética, hoje, é ainda muito poluidora, baseada no petróleo, nas termelétricas, nas hidrelétricas e, sobretudo, na energia baseada em hidrocarboneto”, ressalta.

Aspectos socioeconômicos são cruciais para entender e tratar o contexto do clima de maneira isonômica. Os países do norte industrializaram-se primeiro e possuem parques industriais mais tecnológicos, desenvolvidos e dinâmicos. Por isso e pelo maior consumo médio das suas populações, são países que já poluíram e ainda poluem muito. “Os Estados Unidos têm desconsiderado todos os possíveis acordos, como o Acordo de Paris, por exemplo, e isso traz um prejuízo enorme para o mundo”, comenta. Atualmente, a corrida geopolítica e econômica pelo controle das terras raras deve agravar esse cenário. “Essas disputas e a exploração destes metais podem gerar muita degradação ambiental, muito desmatamento e uma série de danos”, completa.

As mudanças climáticas e os eventos extremos acabam afetando mais as áreas e os países pobres ou empobrecidos. “Seguindo uma lógica capitalista, e de exclusão, sempre os menos favorecidos economicamente são mais afetados, inclusive estudos já mostram isso”, diz Vital. Ele exemplifica que pessoas que moram em regiões de periferia têm pouquíssimo acesso a condições adequadas de saneamento básico e, geralmente, moram em áreas de risco ou de vulnerabilidade a enchentes. Também são mais afetadas por situações como as ondas de calor, além do pouco acesso à água de qualidade, a áreas com infraestrutura adequada e arborizadas.

Ações na Paraíba

Para mitigar esses efeitos, no Governo Estadual, despontam ferramentas de gestão: a Política Estadual de Mudanças Climáticas (Pemc); a criação do Comitê Paraibano de Pesquisas sobre Biodiversidade, Adaptação e Mitigação às Mudanças Climáticas (Comitê BioClima PB); o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o Laboratório do Observatório do Clima — que possui o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg); e o Programa Paraíba Mais Verde.

Iniciativas como o Comitê BioClima PB têm o objetivo de promover o compartilhamento de informações técnicas e científicas com tomadores de decisão e com a sociedade, bem como desenvolver estudos, pesquisa e desenvolvimento (P&D) sobre os temas ambientais/climáticos e aspectos correlacionados.

O Programa Paraíba Mais Verde pretende implementar políticas públicas nacionais e subnacionais de cunho socioambiental, voltadas ao estímulo e à promoção de benefícios econômicos, sociais e ambientais.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de abril de 2026.