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Na Paraíba

Áreas elevadas agora são consideradas montanhas

publicado: 27/04/2026 09h22, última modificação: 27/04/2026 09h22
Nova classificação inclui formações 300 metros acima de circunvizinhança
Pedra do Tendó Acervo Prof. Saulo Vital.jpeg

Os debates entre os pesquisadores aconteceram no próprio campo, em visitações a lugares como o Pico do Jabre e a Pedra do Tendó (acima) | Foto: Acervo Prof. Saulo Vital

por Emerson da Cunha*

A Paraíba agora tem montanhas. E elas são mais antigas do que as grandes e mais conhecidas cordilheiras, como Andes, o Himalaia e mesmo o Everest. É o que aponta o novo Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo (SBCR), a partir de um entendimento recente do que pode ser considerado montanha. Se antes considerava-se que montanhas eram formadas a partir de processos tectônicos de colisão recente, ou seja, quando placas tectônicas se chocam, a partir de agora são considerados espaços montanhosos montes que tem 300 m ou mais em relação à sua área de circunvizinhança, predominantemente com topos aguçados ou em cristas e vertentes declivosas. Na Paraíba, é agora uma montanha, por exemplo, o Pico do Jabre, que tem altura de mais de 1. 200 m, localizado na Serra de Teixeira, no município de Maturéia.

As montanhas paraibanas datam seu processo de formação em cerca de 600 milhões de anos, sendo que há cerca de 70 milhões de anos elas passaram por um processo de rejuvenescimento. Para se ter uma ideia, as formações montanhosas são mais antigas do que o Everest — a montanha mais alta do mundo, com mais de 8 mil metros e que ainda está em processo de crescimento, já que suas placas tectônicas estão em movimento de colisão. A idade das formações montanhosas da Paraíba pode revelar sobre o fato de não estarem entre as maiores do mundo ou mesmo do Brasil, uma vez que, durante todo esse tempo, sua superfície foi erodindo aos poucos.

“Essas cordilheiras, como o Everest, que é o monte mais alto do mundo, ele ainda está em processo de crescimento por conta desse contato das placas, desse choque da placa indiana com a placa asiática. E esse processo vem acontecendo nos últimos 50 milhões de anos. As nossas montanhas, a partir dessa nova classificação, as montanhas brasileiras e paraibanas, elas são muito mais antigas. A base delas data de 600 milhões de anos e, por conta disso, a erosão já rebaixou muito essas áreas”, explica o geógrafo, doutor em Geociências e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Saulo Roberto Vital, que tem acompanhado por meio de pesquisas e expedições a mudança na classificação.

As montanhas paraibanas têm idades similares a montanhas em outras regiões brasileiras, em especial no Sudeste, onde se concentra boa parte desse tipo de formação geológica. Por outro lado, nossas montanhas possuem altitudes similares, porém menores.

Pesquisa

O processo de mudança dos critérios do que pode ser ou não montanha no Brasil teve início em 2019, com o XVIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada, no qual se discutiu a necessidade de criação de uma classificação do relevo brasileiro.

“Foi feita uma revisão, porque muitos locais classificavam de uma forma, outros de outra, não existia uma padronização. Então, o IBGE junto com a União Brasileira de Geomorfologia, com o Serviço Geológico do Brasil também, e as universidades, inclusive a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), da qual eu faço parte também nesse sistema, se uniram para criar essa classificação, esse sistema unificado de classificação do relevo brasileiro, chamado Sistema Brasileiro de Classificação de Relevo”, explica Vital.

Como parte desse processo de pesquisa e mudança de termos, foi feita uma excursão ao longo do estado por estudiosos brasileiros e estrangeiros em 2024. Os debates aconteceram no próprio campo, em visitações a lugares como o Pico do Jabre e a Pedra do Tendó, ponto em que se pode observar o contato da depressão sertaneja com a Borborema, e uma série de inselbergs, ou seja, “ilhas de pedra”, formações geológicas compostas por rochas cristalinas que se destacam de superfícies aplainadas.

“Uma área muito bonita de contemplação e tudo mais que precisa ser melhor divulgada. Acho que foram cerca de 20 pesquisadores e lá debatemos no próprio campo, observando as feições, cada um apresentou a sua visão. E essa visão de montanhas, ela foi praticamente unânime, até pelos próprios pesquisadores internacionais. Eles foram questionados, realmente confirmaram, pelas feições observadas, que, sim, podem ser consideradas montanhas. Essa discussão foi basicamente exploratória, digamos assim, de observação, descrição, mapeamento, e debate”, esclarece o professor. As visitações deram origem à publicação Excursões Técnicas Montanhas e Planaltos da Borborema, Superfície Sertaneja e Inselbergs da Paraíba.

Também fazem parte da mudança, novos entendimentos internacionais. “Essa atualização foi feita com base na questão internacional que, inclusive, já considera montanhas como áreas que não precisam necessariamente ser de cordilheiras recentes. Não é só uma simples mudança de definição, mas uma espécie de melhoria conceitual, de avanço científico conceitual, que também vai ter um impacto na questão ambiental e no ensino”.

Mudanças

Nos aspectos educacionais, as principais mudanças devem ocorrer na Educação Básica. “Porque vai, a partir de agora, ser ensinado nas escolas que no Brasil, na Paraíba, existem montanhas. Isso tem uma questão didática, dos livros didáticos, da forma como era ensinado isso anteriormente com a Geografia”, discorre Vital. Ele cita que há três classificações do relevo brasileiro, de acordo com três autores: a de Aroldo de Azevedo, mais antiga, a de Aziz Ab’Sáber, e a mais recente de Jurandyr Ross. “E agora vai ser ensinada essa nova classificação, como uma classificação unificada, inclusive com a participação do próprio professor Jurandyr Ross também, que é o dono da terceira classificação”.

Há também o fomento à valorização do nosso patrimônio natural. “Compreender que a região de Teixeira é uma região classificada como uma região montanhosa, isso vai de certa forma fomentar o turismo, o turismo ecológico, sustentável”, reforça o pesquisador. Esse movimento pode ser efetivado, por exemplo, no estabelecimento de geoparques, que são áreas de interesse geoturístico, de patrimônio natural, geológico, geomorfológico, de rochas, relevos, fósseis, que apresentam alguma característica importante e que podem ser utilizados e revertidos para fim de turismo sustentável. “Um turismo planejado, um turismo equilibrado. Não é esse turismo desordenado que normalmente se pratica. Porque essas áreas, elas vão ter geossítios, que são pontos de interesse, de visitação, que tem toda uma gestão, todo um equilíbrio ambiental que deve se buscar”. O geógrafo cita como exemplo o Geoparque do Araripe, no Rio Grande do Norte, que tem reconhecimento internacional da Unesco.

Fauna e floras próprios

Um dos focos que podem ser colocados em relação a essas “novas” montanhas é a necessidade de preservação por meio de um turismo sustentável, protegendo-se o meio ambiente dessas regiões. Isso porque suas características permitem a existência de fauna e flora próprias. “Essas regiões mais elevadas, elas têm microclimas, que são áreas de temperatura mais amena e de condições climatobotânicas mais específicas, ou seja, como se fossem refúgios biológicos. Onde você tem espécies vegetais arbóreas de maior porte, solos mais desenvolvidos e uma biota mais específica daquela área. Com áreas de extrema necessidade de preservação”, explica.

Como forma de unificar e registrar a nova classificação, será publicada até o fim deste ano o Mapa do Relevo Brasileiro na Revista Brasileira de Geografia, trazendo os critérios e as metodologias utilizadas. “Esse sistema está em elaboração há vários anos, neste ano, agora de 2026, vai ser publicado o mapa do primeiro nível taxonômico, porque existem níveis de acordo com a quantidade e o tamanho do relevo, então vai ser mais de um nível, mas o primeiro nível ele vai ser aplicado agora no mapa do relevo brasileiro”, finaliza o docente.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de abril de 2026.