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com 18 metros

Árvore secular é referência na Penha

publicado: 05/01/2026 10h04, última modificação: 05/01/2026 10h04
Tronco e folhagem estão inseridos em um sítio ou área tombada pelo Iphaep, o que torna a planta protegida
2025.11.24 árvore centenária na Penha © Carlos Rodrigo (11).JPG

Fotos: Carlos Rodrigo

por Emerson da Cunha*

Quem chega pelo mar ou pela terra à Praia da Penha, o tem como referência. Com cerca de 18 m de altura e mais de cinco metros de diâmetro, um oiti ou oitizeiro secular tem visto as transformações da comunidade desde quando ali viviam apenas tantas outras árvores de sua estatura. Mas a atenção desse oitizeiro não veio só dos nossos tempos. Em 1979, o pesquisador Lauro Pires Xavier publicou, na revista Nordeste Biológico, o artigo “Levantamento Fitoterápico do Altiplano no Cabo Branco”, em que defendia o reflorestamento e recuperação de porções de Floresta Tropical na falésia estendida do Cabo Branco. No texto, fazia-se referência a áreas remanescentes da floresta, como a Mata da Penha e a Mata de Mangabeira, à época. 

A árvore encontra-se em uma área residencial, numa casa onde uma família vive há 30 anos

Entre plantas representantes da flora da Mata Atlântica, ele cita “um forte e eminente testemunho [...] o grande oitizeiro da Penha, Moquilea tomentosa”, espécime que, a seu ver, “deve ser [...] protegido pelo Iphaep com urgência e cuidado de seu tronco por meio de obturação de cimento”. O oitizeiro é citado em meio a outras espécies da Mata Atlântica, como jatobás, cajueiros, mangabeiras e muricis. A publicação de 1979 traz, ainda, uma imagem em preto e branco na qual o oitizeiro se apresenta imponente, sendo chamado de “centenário”, já naquela época.

Um ano depois, a área elevada da Praia da Penha seria tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (Iphaep), a partir do Decreto  no 8.654, assinado pelo então governador Tarcísio de Miranda Burity, no dia 26 de agosto de 1980. “Fica considerada tombada a área de 7,56 ha, existente na parte superior da Praia da Penha, nesta Capital, constituída da Igreja de Nossa Senhora da Penha, o casario com 24 unidades, o Cemitério, o Posto de Saúde, a Escola e a Árvore Oiti (Noquilea Tomentosa-Chrysobalanaceae), remanescente da Mata Atlântica”. Assim, embora não seja tombada per si, a planta faz parte de uma região tombada, o que demanda determinados cuidados. Segundo o decreto, o Iphaep não deverá permitir a adulteração da área, observando características populares, pertencentes à formação histórico-social.

Oitizeiro é tema de vídeos e fotos nas redes sociais

Quarenta e cinco anos depois do tombamento da área elevada da Penha, o oitizeiro centenário passou dos papéis de uma revista às telas de smartphones. Foi tema de vídeo nas redes sociais produzido pelos biólogos e influenciadores digitais Ricardo Pontes e Bruno Xavier. “Ela tinha uns 10 m a mais, imagina isso sobre a falésia, você vendo do mar, é um verdadeiro farol no sentido de direcionar quem vinha do mar”, reflete Ricardo, no sentido de sua imponência histórica. “É de suma importância a proteção dela. Acho que é uma das maiores árvores que a gente tem ali, na falésia do Cabo Branco como um todo”, atesta.

O oitizeiro da Penha é uma planta remanescente dos tempos das grandes florestas, por isso a importância da sua preservação. Além disso, carrega memórias afetivas. “Se a gente pensar que a Praia da Penha é um local de uma comunidade tradicional centenária de pescadores, quantas famílias estiveram sob a sombra daquela grande árvore, coletaram seus frutos, utilizaram aquela árvore como ponto de referência vindo do mar?”, questiona Ricardo. “Esta árvore constitui um testemunho vivo do que foi outrora a nossa Mata Atlântica. Além disso, este indivíduo pode servir de matriz para formação de mudas, com uma espécie de certificado de origem genética, para possíveis plantios urbanos, ou mesmo restaurações florestais”, destaca Bruno.

A árvore, atualmente, encontra-se em uma área residencial. Lá, mora o comerciante José Cícero Neto, que já tinha comércio na Penha há cerca de 30 anos, e também a família, em especial sua filha, Maybeane Soares Neto, que mora no local há aproximadamente 15 anos. Enquanto o pai mora embaixo, ela construiu um conjugado na parte de cima. José Cícero chegou a morar em outra casa antes de comprar o terreno com o oitizeiro. “A gente foi se adaptando a ela [a árvore]. Porque a gente não pode mexer, não pode cortar. Ele [o pai] fez um canteiro ao redor dela. Quando as galhas estão muito grandes, tem que ligar para o órgão que eles vêm podar. É todo um processo de cuidado”, explica Maybeane. “Ela virou um ponto de referência. Porque muita gente diz: ‘Ah, eu tô na praça’, ‘eu estou aqui debaixo do pé de árvore’, ‘eu estou aqui perto da árvore’”.

Botânicos observam fragilidades

Um dos principais objetivos do vídeo foi dar visibilidade à situação em que se encontra a árvore hoje. “Falta orientação aos moradores, que desconhecem o valor que esse ser biológico possui. Foram feitas várias podas, no meu entendimento, desastrosas. Uma delas, amputou a copa da árvore, que somaria à sua altura total, aproximadamente, mais uns seis ou 10 m. O tronco da árvore está cercado de entulhos, maior parte de madeira de construção, que são inflamáveis. Parte da árvore está apodrecendo e requer manutenção adequada para se evitar infestação de cupins e fungos”, aponta Xavier.

Foto: Lauro Xavier/Arquivo pessoal

Pontes, por sua vez, indica que se trata de uma planta saudável e resistente, mas parte do tronco está comprometida. Segundo ele, seria necessária uma análise mais detalhada por um especialista em fitossanidade, ou seja, uma espécie de “médico das árvores”. “Utilizando não só a parte visual, mas a parte de exames laboratoriais para detectar possíveis fungos patogênicos. Também a utilização de ultrassons para árvores, para o tronco, para ver o comprometimento dessa árvore, um tratamento mais profundo”, observa.

Fiscalização

Como explica o Iphaep, a árvore em si não é tombada, mas está inserida em um sítio ou área tombada. Isso quer dizer que a planta é protegida por pertencer ao ambiente cultural, mesmo sem ser objeto direto do tombamento, contribuindo para o ambiente histórico. Nesse cenário, são proibidos cortes, podas drásticas ou supressão sem autorização do Iphaep. As raízes precisam ser protegidas, evitando revolvimento do solo, compactação, cimentação total, instalação de estruturas.

É responsabilidade do órgão analisar impactos paisagísticos e ambientais de intervenções, zelar pela manutenção da vegetação associada ao patrimônio, analisar projetos de urbanização e arquitetura, e fiscalizar e emitir pareceres técnicos. “Este oitizeiro, em particular, que pode ser encontrado no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Penha — ela própria um patrimônio tombado —, transcende sua função biológica. Ele faz parte da paisagem afetiva e histórica que emoldura um dos eventos religiosos mais importantes da Paraíba: a secular Procissão da Penha”, coloca a coordenadora do setor de Arquitetura do instituto.

Segundo o órgão, vistorias no oitizeiro foram feitas em 2023 e 2024, e uma visita técnica foi realizada recentemente no local da árvore, na penúltima semana de novembro. Questões referentes ao caráter público do terreno devem ser levadas em consideração, já que atualmente se encontra em espaço “privado”. Por outro lado, tudo indica que a árvore esteja saudável. A ideia é que, a partir da visita, estruture-se um manejo mais adequado do oitizeiro e do espaço que o acolhe. Aconteça o que acontecer, é de se esperar que ele permaneça por mais uns 100 anos olhando para o mar.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.