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Câmeras revelam riqueza da Caatinga

publicado: 23/02/2026 09h27, última modificação: 23/02/2026 09h27
Objetivo é saber se existem espécies ameaçadas e animais exóticos nas unidades de conservação do estado
Macaco Prego - arquivo Sudema.jpeg

Equipamentos sob responsabilidade da Sudema já flagraram diversos animais, como o macaco-prego e espécies menos comuns | Foto: Divulgação/Sudema

por Bárbara Wanderley*

As câmeras estão ligadas 24 horas por dia e não se trata de mais um programa de televisão. As câmeras em questão são armadilhas fotográficas instaladas em Áreas de Preservação Ambiental (APAs) da região da Caatinga, na Paraíba. Os equipamentos estão sob responsabilidade da Divisão de Fauna (Difau) da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) e já flagraram diversos tipos de animais, incluindo espécies que não são comuns no estado, como o veado-catingueiro.

O monitoramento foi iniciado em 2024, conforme explicou o chefe da Difau, Leandro Silvestre. “Através de uma compensação ambiental, a Sudema recebeu câmeras que a gente chama de ‘câmera trap’. É uma armadilha fotográfica em que os animais, quando passam na frente, tem um sensor de infravermelho que faz a captura [da imagem]”.

Para contexto, a compensação ambiental diz respeito a valores que precisam ser pagos como compensação à sociedade e ao meio ambiente pelo uso de recursos naturais quando ocorre a instalação, embora autorizada, de um empreendimento de significativo impacto ambiental.

Leandro Silvestre esclareceu que as câmeras foram instaladas na área da Caatinga porque foram adquiridas como compensação por um empreendimento que se instalou naquela região. Dessa forma, há armadilhas fotográficas na APA das Onças, em São João do Tigre; na APA do Cariri, que passa nos municípios de Cabaceiras, Boa Vista e São João do Cariri; além do Parque Estadual da Pedra da Boca, em Araruna.

O objetivo, segundo Leandro, é inventariar a fauna, saber se existem espécies exóticas nas localidades das unidades de conservação, se existem as espécies ameaçadas e até mesmo saber se o parque está cumprindo a sua função. “Existem parques que têm função de manter os recursos naturais, a beleza cênica, mas todos eles, de alguma forma, têm a função de preservar a biodiversidade. E, através das câmeras, a gente consegue ver isso na prática. A gente às vezes não tem um estudo próprio para aquela área. Uma universidade não foi, um pesquisador ainda não fez o levantamento, mas, com as câmeras, a gente acabou encontrando espécies que estão na lista de ameaçados e que foram fotografadas várias vezes”, afirmou.

Ele contou que, na APA das Onças, por exemplo, foram vistos veados-cantigueiros com filhotes e, embora a espécie não esteja ameaçada de extinção, não é comumente vista no estado. “É um ponto positivo para um dado de conservação, porque mostra que o local tem condições de manter esses animais e que eles estão se reproduzindo, um fator extremamente positivo”, comentou.

Segundo ele, existe a perspectiva de expandir o monitoramento, a partir de outras compensações ambientais. O próximo local a ganhar câmeras já foi definido e dessa vez será no Brejo paraibano, no Parque Estadual Mata do Pau-Ferro, que fica na região do município de Areia.

“A gente vai começar com essa unidade ali do Parque Estadual do Pau Ferro que é restrito o acesso ao local, é mais conservada, então a gente espera encontrar alguns animais diferentes. E também lá é muito importante porque é um dos remanescentes que existem de Mata Atlântica”, disse Leandro.

O servidor afirmou ainda que o monitoramento é um primeiro passo para saber quais animais estão presentes em cada localidade e, posteriormente, é possível traçar estratégias para cada grupo. “Com a câmera, a gente geralmente atende o grupo que seria considerado de mamíferos de médio a grande porte. Porque existe uma gama de mamíferos que não aparecem nas câmeras porque o padrão de vida dele é diferente. Ele não vai ficar sempre no sol, ele já vai estar na copa de árvore. Então aí já é outra metodologia que a gente já pretende fazer com armadilhas”, contou. É o caso de diversos tipos de roedores, por exemplo.

SisPass, resgate e soltura são outros braços da Sudema

Além do monitoramento da fauna, a Difau atua na regularização de criadores amadores de pássaros, autorização para empreendimentos e apoio a ações de soltura de animais silvestres. A instituição tem um acordo de cooperação com o Ibama e, por isso, parte da equipe trabalha diretamente no Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), auxiliando na triagem e cuidados médicos veterinários de animais resgatados.

“A Sudema também passou a gerir o Sisfauna, que é o Sistema Nacional de Manejo de Fauna, que é justamente o que faz as autorizações, o licenciamento de zoológico, por exemplo da Bica, do Museu Vivo de Répteis da Caatinga, de criatórios comerciais que estão começando a solicitar essas autorizações aqui no estado”, detalhou Leandro Silvestre. Além disso, o órgão também recebe denúncias sobre a criação ou transporte irregular de animais silvestres ou exóticos. 

No Parque Estadual Pedra da Boca, um dos animais flagrados foi uma Jaguatirica | Foto: Divulgação/Sudema

O Sistema de Cadastro de Passeriformes (SisPass), porém, é atividade que corresponde a uma das maiores demandas do setor. O SisPass é um sistema para a pessoa física que deseja manter em  cativeiro, sem finalidade comercial, indivíduos das espécies de aves nativas da ordem passeriformes, objetivando a contemplação, estudo e conservação de espécies de pássaros ou para desenvolvimento de tecnologia reprodutiva das espécies.

Os pássaros dentro dessa normativa são basicamente os que cantam, como canários, pintassilgos e galos-de-campina, conforme explicou Leandro. No entanto, eles precisam ser adquiridos de criadores cadastrados, além de possuir anilha de identificação e nota fiscal correspondente. “Não é pegar pássaros da natureza”, destacou o chefe da Difau.

Atualmente, cerca de 13 mil criadores estão cadastrados na Paraíba, mas Leandro ressaltou que todos estão com seus cadastros regulares, já que é preciso realizar a renovação anualmente. “O SisPass acaba sendo muito visado para as pessoas que têm a boa intenção de criar, reproduzir, manter os animais, mas também ele sofre muita ação das pessoas que tentam fraudar”, comentou ele, acrescentando que criadores que “desaparecem” são alvo de fiscalização. “As equipes fiscalizam não só a parte administrativa, de documentação, como também a parte do bem-estar do animal, condições de saúde, alimentação, etc.”.

Resgate e soltura

Os animais resgatados de maus-tratos, acidentes ou outras situações são encaminhados ao Cetas quando apresentam alguma condição adversa. “Às vezes são espécies nativas aqui do estado e que o agente pode verificar se não tem nenhuma lesão. Se o animal apresentar um comportamento bravio, que não indica que ele está em cativeiro há muito tempo, pode ser considerada a soltura em alguma área compatível com a sobrevivência e importância dele. Se ele não consegue verificar isso, o animal é encaminhado para o Cetas. Aí é inicialmente triagem, para verificar o estado do animal, se tem alguma parasitologia e a aclimatação. Se tudo for propício para a soltura, ele vai para a soltura”, explicou Leandro.

Se for uma espécie ameaçada, é necessário haver um estudo para o local mais adequado para a soltura. Nesse caso, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é que fica responsável pelo levantamento. “Não adianta fazer a soltura em um lugar onde a espécie não tem pareamento, estou pegando um animal que já está em extinção e estou colocando ele no lugar que não tem nenhuma parceira para ele”, comentou Leandro.

Apenas em casos em que o animal já passou tanto tempo em cativeiro que não tem mais o padrão, o comportamento de sobrevivência, ele vai ser indicado para a destinação, prioritariamente em zoológicos e, por vezes, em criatórios licenciados.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de fevereiro de 2026.