A primeira ideia que vem à mente quando se pensa na vida nos centros urbanos é a correria, a agitação e o cinza das vias e construções. Contudo, uma alternativa para amenizar esses efeitos é a manutenção de espaços verdes nas cidades. Ter uma casa com jardim ou áreas arborícolas em condomínios é um respiro no meio do caos da urbanização. A regulação da temperatura, diminuição do ruído, melhora na saúde física, mental e até na qualidade do ar são alguns dos benefícios que essa prática proporciona.
Contudo, não basta ter vontade; escolher a espécie que será plantada requer uma prévia pesquisa, pois elementos como profundidade e extensão da raiz, bem como a altura alcançada, devem ser levados em consideração para não gerar problemas futuros. O Jardim Botânico de João Pessoa é um local que, além de ofertar mudas para a população, oferece orientações sobre as diversas espécies encontradas em seu viveiro.
Para a ecóloga e doutora em Desenvolvimento e Meio Ambiente Anne Falcão, ter árvores e outras plantas, principalmente as nativas, em ambientes urbanos, como casas, condomínios e avenidas, é importante para manter a biodiversidade e o equilíbrio genético das espécies da flora e fauna. Além disso, outras vantagens são percebidas. “O fornecimento de frutas; a manutenção da saúde física e mental da população; o conforto térmico, com a diminuição das ilhas de calor; a melhoria da qualidade de ar; a formação de reservatório de água e a manutenção da fauna, com o fornecimento de recursos alimentares e hábitat, são alguns desses ganhos”.
A paisagista Roberta Lima tem, na sua profissão, a incumbência de criar espaços arborizados que atendam às demandas dos clientes. Mas, para além de tornar o espaço agradável aos olhos, ela compartilha da ideia de que os benefícios são variados. “De início, podemos pensar logo na estética, porque, sem dúvidas, o verde transforma qualquer ambiente, mas as vantagens são diversas. Preservar áreas verdes em qualquer espaço é fundamental para garantir o equilíbrio ambiental”.
Com as altas temperaturas enfrentadas pelos brasileiros no período de verão, que vai de dezembro a fevereiro, o alívio do clima é um fator para ser levado em consideração na implantação de espaços verdes na cidade. O aumento da umidade relativa do ar, aliado à sombra que as árvores geram, reduz a temperatura do ambiente. “Normalmente, pavimentações e a maior parte dos tipos de solo absorvem muito o calor e o transmitem no ambiente”, explicou o biólogo Getúlio Freitas. Já em um terreno coberto por grama, por exemplo, a flora absorve o calor e não o reflete. Conforme destacou o biólogo, basta comparar a temperatura em um parque, um bosque, um espaço com plantas arborícolas, com o clima próximo ao asfalto. Uma das explicações para isso é que as plantas utilizam grande parte da energia solar na fotossíntese, para produzir seu próprio alimento, reduzindo a quantidade de energia convertida em calor no ambiente.
A aposentada Rosário Bezerril, desde pequena, reconhece as vantagens de viver rodeada de plantas. “Manter espaço verde em casa é imprescindível para meu bem--estar. Ajudar as plantas a viverem e sentir o feedback não tem palavras! Chegar em casa depois de uma saída e ir para junto delas é indescritível”. Moradora do bairro de Miramar, ela mantém em seu quintal, além das demais plantas menores, um cajueiro de cerca de 20 anos e várias pitangueiras. O vínculo com a natureza, segundo ela, vem desde cedo. “Perdi de vista meu interesse por plantas. Acho que nasci dentro de um jarro! Dei meus primeiros passos numa casa com um quintal grande, com árvores frutíferas e criação de galinha”, explicou.

- “Dei meus primeiros passos numa casa com um quintal grande, com árvores frutíferas”, disse Rosário | Foto: Arquivo pessoal
Apesar de todas essas benesses, o plantio de espécies da flora precisa ser acompanhado de algumas instruções. Avaliar o tempo de crescimento, o porte e o tipo de raiz são medidas fundamentais para evitar transtornos no ambiente urbano. Anne Falcão destaca que, caso essas questões não sejam consideradas, há o risco de transtornos no ambiente urbano. “Sem orientações técnicas, plantar uma espécie vegetal de grande porte pode ocasionar a destruição de ruas, comprometimento de tubulações de água e esgoto, obstrução de iluminação pública e risco de curto--circuito”.
Outro aspecto importante é a priorização de espécies nativas, isto é, aquelas originárias do Brasil. Plantas exóticas tendem a competir por recursos e, em muitos casos, acabam eliminando espécies locais, causando desequilíbrios ecológicos. Roberta Lima reforça a necessidade de valorizar a flora brasileira nos projetos paisagísticos. “Temos um privilégio muito grande porque nós temos a maior diversidade de espécies. Então devemos usar e abusar, porque opções não faltam”. Segundo ela, plantas invasoras são capazes de comprometer jardins já consolidados quando espécies exóticas são introduzidas sem controle.
Jardim Botânico: respiro em meio ao concreto urbano da cidade
Vinculado à Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema), o Jardim Botânico Benjamin Maranhão está localizado na Avenida Dom Pedro II, no bairro da Torre, em João Pessoa. O espaço desenvolve um projeto de distribuição de mudas à população, aliado a ações educativas e orientações sobre o plantio adequado das espécies.
Ao chegar ao viveiro do jardim, a equipe de reportagem do jornal A União presenciou a atividade de separação das sementes de uma espécie ameaçada para, posteriormente, serem germinadas. Ao mesmo tempo, um técnico organizava os saquinhos das mudas com a terra da composteira do próprio local. Todos esses processos têm a finalidade de preservar espécies nativas da flora, por meio de coleções vivas.

- O visitante que for ao Jardim Botânico tem direito a levar uma muda de pequeno porte | Foto: Roberto Guedes
Além disso, há a entrega de mudas para quem chegar ao local também como atividade que propicia a disseminação do verde e que abre espaço para o diálogo com a população sobre os benefícios do plantio. A distribuição, que chega a 600 mudas por mês, acontece de terça-feira a sábado, no horário das 8h às 16h. “As doações são feitas de maneira contínua. O visitante que vier ao Jardim Botânico tem direito a levar uma muda de pequeno porte, seja ela alimentícia, medicinal ou ornamental”, explicou a bióloga Pietra Marques, responsável pelo viveiro.
Para visitantes que desejam adquirir sua muda, basta, portanto, chegar ao Jardim Botânico. Contudo, o espaço atende também a demandas maiores. Solicitações de mais de cinco mudas devem ser feitas pelo e-mail jardimbotanico.jp@gmail.com. “Quando a solicitação não vem específica sobre qual planta se quer, sempre perguntamos qual o objetivo a ser alcançado para selecionar as melhores espécies indicadas para cada processo de plantio. Nós priorizamos as espécies nativas e algumas frutíferas, como de pitanga, maracujá”, esclareceu Pietra.
As demandas atendidas pelo Jardim são bem diversas e, segundo o diretor Bruno Assis, entender as diferentes solicitações é um processo importante. “Quem não tem esse conhecimento, às vezes quer pegar um pau-brasil, mas mora em apartamento, ou reside no térreo e acha que tem um espaço apropriado. Então, primeiro fazemos esse diagnóstico, perguntamos qual o local em que a pessoa mora, qual o objetivo pretendido”. Ele ainda explica que esses questionamentos são necessários para que o trabalho realizado no local não seja em vão, e, que, posteriormente, seja necessário retirar a planta do local por ela estar causando alguns transtornos.
Um outro fator que precisa ser mencionado é o descarte de plantas exóticas. Conforme explicou Bruno, as pessoas, muitas vezes, querem se livrar de algumas espécies e as jogam em área de mata, o que gera um risco para as plantas que já vivem na localidade. “Quando o visitante vem e recebe todas as recomendações técnicas, conseguimos minimizar os erros e mitigar essas ações que podem colocar em risco as nossas espécies nativas”.
Portanto, fica a recomendação de Bruno: “Caso não tenham conhecimento sobre o plantio, venham até o Jardim para ajudarmos nesse planejamento. Quanto mais visitantes recebermos, mais pessoas sairão daqui instruídas e vão poder pulverizar essas informações e, assim, vamos conseguir alcançar os resultados de preservação e de conservação desse território”.
Para Rosário Bezerril, cada nova folha que brota no jardim representa um presente. Os benefícios do contato com a natureza são inúmeros, mas, como alertam os especialistas, o sucesso dessa relação depende de planejamento e informação, para que o verde seja sinônimo de qualidade de vida e não de transtornos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de janeiro de 2026.