O ar que você respira impacta diretamente na sua qualidade de vida e pode ter efeitos reais no seu bem-estar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a poluição atmosférica como o principal risco ambiental à saúde humana e aponta que quase toda a população do planeta, cerca de 99%, esteja exposta a níveis de poluentes que excedem os padrões recomendados.
A execução de estratégias integradas para a gestão da qualidade do ar é fundamental e o tema passa a pautar debates nas esferas municipal, estadual e federal. Um evento sobre inovação climática e políticas públicas, realizado na sede do Google, em São Paulo, reuniu gestores para expor iniciativas que visam garantir uma maior eficácia no monitoramento e cuidado com os parâmetros de qualidade atmosférica.
No encontro, que contou com a presença do vice-governador da Paraíba, Lucas Ribeiro, e da secretária de Estado do Meio Ambiente e Sustentabilidade, Rafaela Camaraense, foi lançado o plano de atuação da Rede Estadual de Monitoramento da Qualidade do Ar da Paraíba. A proposta é que o ar que os paraibanos respiram seja monitorado com mais rigor graças à ajuda de uma tecnologia chamada “Air View+”. Desenvolvido pelo Google, o sistema faz uso de sensores, instalados em pontos estratégicos, que avaliam a situação do ar em tempo real e processam esses dados com ajuda de inteligência artificial.

- Especialistas definirão nível de pureza atmosférica a partir de dados coletados por sensores instalados em João Pessoa, Cabedelo, Campina Grande, Patos e Cajazeiras | Fotos: Divulgação/Sudema
A Rede Estadual de Monitoramento da Qualidade do Ar vai orientar decisões nas áreas de saúde pública, planejamento urbano e controle de emissões de gases poluentes. Em São Paulo, o vice-governador declarou: “A Paraíba tem buscado utilizar tecnologia e dados para planejar suas políticas públicas e apoiar os municípios na construção de soluções mais eficientes. Participar deste diálogo com instituições como o Google mostra que o estado segue avançando nesse caminho”.
Na mesma ocasião, a secretária Rafaela Camaraense afirmou que a iniciativa “representa uma oportunidade importante para projetar a Paraíba como referência no uso de tecnologia aplicada à sustentabilidade e à gestão pública baseada em dados”.
De acordo com o Relatório Anual de Acompanhamento da Qualidade do Ar 2025, publicado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), com dados consolidados referentes ao ano de 2024, o Brasil contabilizou 570 estações de monitoramento da qualidade do ar. O documento destacou, ainda, o compromisso da Paraíba de expandir o monitoramento com estações de referência.
Estruturação da rede
O estado fará a implantação de novos sensores que serão utilizados para analisar minuciosamente as condições atmosféricas. Do Litoral ao Sertão, o nível de pureza do ar será estudado, a partir de estações de monitoramento instaladas nos municípios de João Pessoa, Cabedelo, Campina Grande, Patos e Cajazeiras. É de responsabilidade da Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) a estruturação e implantação da Rede Estadual de Monitoramento da Qualidade do Ar.
“Para isso, foram adquiridas oito estações certificadas pela agência ambiental norte-americana US EPA, equipadas com mastros meteorológicos e sensores para medição da direção e da velocidade dos ventos, além de 14 unidades indicativas voltadas ao acompanhamento preliminar das concentrações de material particulado”, informou o engenheiro químico Raphael Cainã Santos, chefe da Divisão de Controle da Poluição da Sudema.
As estações certificadas serão instaladas aos pares para o monitoramento específico de material particulado. Já as unidades indicativas têm a função de apoiar o mapeamento inicial da qualidade do ar em áreas de interesse ambiental. “O trabalho será iniciado na Região Metropolitana de João Pessoa, onde já foram posicionados seis equipamentos indicativos, que também poderão ser redistribuídos periodicamente para outras regiões do estado”, explicou Raphael.
Os quatro conjuntos de estações certificadas terão instalação prevista nos municípios de João Pessoa, Campina Grande, Patos e Sousa, considerando critérios como densidade populacional e dinâmica urbana. Atualmente, a Sudema está finalizando acordos de cooperação com instituições que receberão os equipamentos, garantindo a segurança das estruturas, além da contratação da empresa responsável pela construção das bases de instalação. “Após a conclusão dessas etapas e a consolidação da rede de monitoramento, os dados coletados serão analisados tecnicamente e disponibilizados ao público”, garantiu o engenheiro.
Monitoramento
O controle do ar, medido através de micrômetros, monitora a quantidade de material particulado presente na atmosfera. Essas partículas são classificadas como “finais”, quando possuem diâmetro inferior a 2,5 micrômetros (MP2.5), e “inaláveis”, com diâmetro inferior a 10 micrômetros (MP10). As partículas inaláveis, quando absorvidas no processo de respiração, podem penetrar nos pulmões. Já as finais, por serem menores, são consideradas mais perigosas, com potencial para atingir os alvéolos pulmonares e chegar à corrente sanguínea.
O Relatório Anual de Acompanhamento da Qualidade do Ar considera inaláveis as partículas sólidas ou líquidas suspensas no ar, como poeira, neblina, aerossol e fuligem. A emissão de MP10 são a suspensão da poeira do solo, o tráfego de veículos, obras, indústrias, queimadas e incêndios florestais. A exposição a essas partículas pode provocar o agravamento de doenças respiratórias como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (Dpoc), afetando principalmente grupos sensíveis, como crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias.
Já a MP2.5, partículas finas, são formadas principalmente pela queima de carvão e outros combustíveis fósseis, emissões veiculares, processos industriais e queima de resíduos e biomassa. A exposição contínua reduz o crescimento da função pulmonar em crianças e aumenta o risco de doenças crônicas, incluindo câncer de pulmão, infecções respiratórias, acidente vascular cerebral e demência.
O monitoramento do ar também leva em consideração a concentração de gases poluentes, como ozônio, dióxido de nitrogênio e dióxido de enxofre. A depender do índice de poluição, o ar é classificado em uma escala de qualidade. O ar considerado “bom” apresenta índice de poluição de zero a 40, sendo seguro para a população e meio ambiente. A concentração de resíduos de 41 a 80 é tida como “moderada” e não causa danos relevantes à saúde.
De 81 a 120, a classificação é “ruim” e pode acarretar sintomas como tosse seca, cansaço e ardor nos olhos, no nariz e na garganta. No índice de poluição de 121 a 200, a qualidade do ar aproxima-se do extremo, sendo considerada “muito ruim”, acarretando falta de ar e respiração ofegante, além do agravamento de outras doenças. O último estágio de classificação, avaliado como “péssimo”, aponta poluição atmosférica de 201 a 400, com risco elevado de eventos respiratórios e cardiovasculares.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de março de 2026.