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Plástico feito de caroços decompõe-se em até 24 meses

publicado: 04/05/2026 09h51, última modificação: 04/05/2026 09h51
Professora acredita que tecnologia pode tornar plásticos biodegradáveis mais acessíveis
2026.04.01_bioplastico Labcom UFPB © Roberto Guedes (42).JPG

Usando corantes obtidos de flores, cultivadas na própria universidade, além da versão transparente, pesquisa também produz o plástico roxo ou vermelho | Fotos: Roberto Guedes

por Bárbara Wanderley*

Ele está presente nas embalagens de comida que pedimos para entrega, nos utensílios descartáveis de festas de aniversário, nas sacolas de compras. É praticamente impossível imaginar a vida sem o uso de plástico. O problema é que, nos exemplos citados, os itens plásticos são usados apenas por alguns minutos ou horas antes de irem parar no lixo, onde demoram cerca de 100 anos para se decompor. Pensando nisso, pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) trabalham no desenvolvimento de plásticos biodegradáveis que levam apenas de 18 a 24 meses para se desintegrarem na natureza.

Além de menos poluente, o material também tem a vantagem de ser oriundo de reaproveitamento, já que os plásticos em questão são feitos a partir do amido extraído dos caroços de manga, abacate e jaca. A matéria-prima vem de resíduos de fábricas com as quais o laboratório firmou parceria.

A professora e pesquisadora Antônia Lucia de Souza contou que a ideia do projeto surgiu principalmente da preocupação com o meio ambiente. “Nós iniciamos essa pesquisa faz aproximadamente dois anos, e a gente foi motivado, porque tem uma colega nossa, aqui da UFPB, que lidera o projeto chamado ‘Mares sem plástico’. Esse projeto é internacional, é muito importante e vê a situação do descarte de plásticos, principalmente nos meios aquáticos e marinhos, e nós somos o mesmo grupo de pesquisa”, explicou. 

Ela detalhou que o grupo de pesquisa em questão integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Ciências Moleculares (INCT-CiMol), um projeto muito grande do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). “Mas faltava essa parte do desenvolvimento de plásticos biodegradáveis. Então, como o meu grupo sempre trabalhou com produtos naturais e com aproveitamento de resíduos, nasceu essa pesquisa de aproveitar resíduos para obtenção de plástico”, contou.

“Mas nós não descobrimos a roda. Já existem, inclusive, empresas que produzem plásticos a partir de amido, usando principalmente o amido de milho. Porque, quando se usa o aproveitamento de resíduo para obtenção de amido, você passa por uma etapa a mais, que é pegar a matéria-prima, tratar até chegar a esse formato de amido, para poder ser utilizado na obtenção dos plásticos. No México, por exemplo, há uma produção bem significativa de plástico a partir do caroço do abacate, porque eles consomem muito abacate”, completou.

A grande questão, conforme explicou a professora, é que a produção desse bioplástico sai mais cara do que a dos plásticos convencionais, derivados de petróleo. “Mas, em compensação, a gente tem uma propriedade muito importante para o meio ambiente, que é a biodegradabilidade. Esse plástico leva em média de 18 a 24 meses para se degradar completamente no meio ambiente. E o mais importante: o carbono que está envolvido neste plástico já existe, que ele vem de um resíduo. Então o que a gente está fazendo com isso é uma economia circular”, afirmou.

A professora acredita que, assim como os carros elétricos têm ganhado competitividade em relação aos veículos movidos por combustíveis fósseis, a tecnologia pode evoluir para que os plásticos biodegradáveis também se tornem mais acessíveis.

Ela esclareceu que o objetivo principal no desenvolvimento desse produto é evitar o acúmulo de plástico no meio ambiente. Para isso, o plástico biodegradável seria utilizado para substituir produtos de uso corriqueiro, como sacolas, utensílios e embalagens descartáveis e até mesmo hastes flexíveis, como cotonetes. É o tipo de plástico que rapidamente é descartado e que, por isso mesmo, não precisa durar tanto.

Manga é a fruta mais promissora

Para fazer o plástico biodegradável, primeiro a equipe extrai o amido do caroço da fruta, seja manga, abacate ou jaca. Esse amido é misturado com água e um plastificante, que, no caso, é o glicerol, um subproduto do biodiesel. Na tentativa de usar a maior parte de ingredientes naturais possível, são usados corantes obtidos de flores, cultivadas na própria universidade, para tornar o plástico colorido. Além da versão transparente, há também o plástico roxo ou vermelho. Após isso, o material é posto para secar em placas de Petri.

Para fazer o produto, primeiro a equipe extrai o amido do caroço das frutas, que depois é misturado com água e um plastificante, um subproduto do biodiesel

Embora todos os resíduos testados tenham funcionado, é o caroço de manga que se torna mais promissor, segundo a pesquisadora. “O abacate tem um problema, porque ele oxida e a gente tem que fazer um branqueamento e não consome tanto. Jaca é uma fruta subvalorizada, é sazonal. Nós temos manga o ano todo, e o caroço é uma parte substancial da fruta. Petrolina produz manga, na Paraíba se produz manga. A gente produz e utiliza muito na indústria para obtenção de polpa e gera aquele resíduo”, disse. Ela lembrou que, dentro do grupo, também existe uma pesquisa que utiliza fibra de coco.

“Queremos produzir plásticos com propriedades e aplicações diversas. Então, a gente trabalha essas propriedades mecânicas do plástico, se ele vai rasgar, se vai ser mais flexível, para que ele vai ser útil? Ele vai na sacola, na embalagem de alimento ou na embalagem que não é de alimento. A gente faz esses testes”, contou Antônia Lucia.

O próximo passo seria usar uma extrusora, que é uma máquina industrial que permite produzir peças grandes de plástico, como rolos. “Quando for na extrusora, a gente vai ter que testar as condições. Isso leva um tempo de pesquisa para tirar esse formato que tem aqui e colocar o formato lá, porque aí a temperatura vai mudar, a pressão vai mudar, todas as outras condições vão mudar”, afirmou Antônia Lucia.

Ela destacou que, para isso, a pesquisa precisa de incentivos financeiros. “Quem investe em pesquisa no Brasil são os governos Federal e estaduais. Mas precisamos que o setor privado também invista em pesquisa. A gente não pode deixar só para os governos, porque nós temos muitas necessidades com a nossa população. Só que é bem difícil, ainda temos muita dificuldade de aproximar a universidade do setor privado. Mas precisamos encontrar esse caminho para que tenhamos esse investimento privado e não fiquemos só à espera do investimento do dinheiro público”, opinou a pesquisadora, lembrando que os frutos da pesquisa têm potencial para beneficiar também a iniciativa privada.

Entre as pesquisas desenvolvidas pelo grupo, duas já têm depósitos de patente. “Nós fizemos uma patente em que aproveitamos a celulose extraída da casca do feijão e da casca do milho, e nós obtivemos filmes, não a partir do amido, mas a partir da celulose. Nós temos essa patente e temos também uma patente com a obtenção de plástico funcionalizado, usando a pectina do maracujá funcionalizado com suco de caju em pó. Porque a gente queria um plástico que tivesse atividade antimicrobiana. Nós fizemos um teste com embalagem de pão de forma e ele aumenta a vida do alimento. Nós temos essas duas patentes e estamos aguardando a manifestação de empresas”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.