Uma cidade situada no Vale do Piancó virou referência em um relatório de segurança elaborado pelo Governo dos Estados Unidos (EUA). O município de Aguiar, distante 420 km de João Pessoa, tem pouco mais de 5.500 habitantes e está recebendo investimentos do Governo do Estado e de instituições de incentivo à pesquisa, para o desenvolvimento do projeto acerca do Radiotelescópio Bingo. O relatório, elaborado por um comitê especial norte-americano, que analisa as relações internacionais da China, cita o local da pesquisa como sendo uma base militar chinesa.
As obras para instalação do Radiotelescópio Bingo iniciaram em 2019. O projeto faz parte de um estudo da Universidade de São Paulo (USP), que busca aprofundar pesquisas sobre a chamada “matéria escura do universo”. No Brasil, a iniciativa é coordenada pelo físico, pesquisador e professor, Elcio Abdalla. A ligação entre o experimento realizado na Paraíba e a China, nasceu a partir do contato de Elcio com pesquisadores chineses, que desenvolviam o pós-doutorado. “Nosso interesse sempre foi puramente científico. O principal deles é a estrutura da cosmologia, a estrutura do setor escuro do universo”, explicou.
A proposta do radiotelescópio é captar sinais sonoros vindos do espaço. Os dados obtidos pelo Bingo servirão de base para que os cientistas estudem questões que definem o processo de expansão do universo. Segundo o físico, o universo é formado por 5% de matéria, e os outros 95% são completamente desconhecidos. “A gente não sabe o que é [a matéria escura]. Não só eu, mas os pesquisadores não sabem o que é”, ressaltou Abdalla sobre a complexidade do estudo.
Quando ainda estava sendo planejado, o projeto do Bingo foi apresentado ao Governo da Paraíba, que se interessou pela ideia e passou a atuar como investidor, destinando cerca de R$ 20 milhões para aquisição de peças e execução do projeto. O estado foi escolhido para receber o radiotelescópio após uma análise minuciosa do ambiente.
A região de Aguiar foi considerada com a mais propícia, por apresentar menor índice de interferência de radiofrequência. “Nós visitamos o Uruguai, mas o local apontado era um sítio militar. Por isso eu vetei. Viemos para o Brasil, procuramos vários lugares, como Brasília, uma cidade em São Paulo e municípios do Norte do país, até nos instalarmos na Paraíba”, afirmou o coordenador da pesquisa.
O Radiotelescópio Bingo foi projetado no Brasil. Porém, a fabricação da maioria das peças usadas para erguer o equipamento foi feita na China, a exemplo dos espelhos e das torres das cornetas. Posteriormente, as estruturas foram enviadas de navio para o Brasil. Segundo Abdalla, a parceria é totalmente científica. Sobre o relatório divulgado pelo governo dos EUA, o cientista garantiu. “Nós não vamos fazer guerra com ninguém, nem vamos fazer aplicações militares. São questões tecnológicas legítimas do país, para a tecnologia nacional. O meu intuito é fazer ciência e descobrir alguma coisa sobre a energia e a matéria escura do universo”.
Desenvolvimento econômico
A construção do radiotelescópio tem repercutido não só no âmbito da ciência. O setor econômico também sente o impacto positivo do projeto, com a geração de emprego e renda. A cidade também tem sido constantemente procurada por pesquisadores que querem conhecer a iniciativa de perto, impulsionando o turismo local. Para Abdalla, esse fluxo será ainda maior quando o Bingo estiver em funcionamento. “O impacto econômico certamente é muito grande. Haverá pessoas indo para a região não só para ver o telescópio, mas para buscar dados. O movimento regional vai ser muito grande. Com certeza a cidade vai ser beneficiada, com o fortalecimento da hotelaria, novos restaurantes e o aquecimento dos setores de comércio e serviço”, afirmou.
Outra aposta para o setor turístico na região é a construção da Cidade da Astronomia, no município de Carrapateira. Há apenas 10 km do local onde o radiotelescópio está sendo instalado, a cidade foi escolhida para receber um complexo tecnológico que unirá pesquisa e turismo. O projeto foi lançado pelo Governo da Paraíba em 2025 e tem o objetivo de fortalecer a ciência e o desenvolvimento regional, com investimento de R$ 24 milhões.
A Cidade da Astronomia ocupará uma área de dois hectares, e contará com equipamentos que irão complementar os estudos feitos por meio do Bingo. A estrutura contemplará um museu astronômico, planetário, auditório e espaços de aprendizado. A ideia é integrar um roteiro turístico pelo Complexo Científico do Sertão, que inclui ainda o Parque Vale dos Dinossauros, em Sousa, e o Museu de Arqueologia, em Cajazeiras.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de março de 2026.