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Ventos que semeiam

Projeto muda a agricultura familiar

publicado: 24/04/2026 15h04, última modificação: 24/04/2026 15h08
Iniciativa do Parque Eólico Serra do Seridó faz cultivo de subsistência transformar-se em produto de qualidade
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O maquinário chega com o objetivo de facilitar o manejo na época do plantio de produções como o milho, feijão, hortaliças e espécies frutíferas | Fotos: Divulgação/Associação Comunitária da Serra de Santana

por Joel Cavalcanti*

O balanço hídrico negativo é uma constante histórica em Junco do Seridó, encravado no Semiárido paraibano. Sobre o relevo acidentado do Planalto da Borborema, a população moldou uma resiliência difícil, extraindo das poucas chuvas o cultivo exclusivamente de subsistência, principalmente do milho e do feijão. Mas a mesma geografia que impõe a escassez de água oferece a abundância dos ventos, hoje convertidos em matriz energética valiosa.

Atualmente, a mudança na trajetória da economia local tem gerado um retorno concreto: parte do investimento para a exploração eólica tem voltado ao chão através de projetos que buscam garantir segurança alimentar e autonomia financeira para quem lida com a terra seca. O Parque Eólico Serra do Seridó, empreendimento da EDF Power Solutions, opera hoje com 85 aerogeradores e capacidade instalada de 480 MW. Esse é o maior complexo da companhia na América do Sul.

Com investimento de R$ 2,8 bilhões, o projeto abastece, anualmente, 1,5 milhão de lares. O parque eólico passou a funcionar com toda a sua capacidade em julho de 2024, e agora conclui a entrega dos projetos de agricultura selecionados em seu edital público de agricultura sustentável. A iniciativa contemplou oito projetos nas cidades de Santa Luzia, Junco do Seridó, Assunção e Salgadinho, atingindo diretamente 280 beneficiários.

Entre eles está Gilvanete Virgínia Pereira, de 36 anos. Agricultora e presidente da associação comunitária da Serra de Santana, em Junco do Seridó, ela vive com o marido e dois filhos em uma rotina pautada pelo trabalho na terra, que até recentemente oferecia apenas aquilo que só eles mesmos consumiam. Com a aprovação de seu projeto, a partir do edital, a associação adquiriu um tratorito, bomba de pulverizar, roçadeira elétrica e plantadeira. Os equipamentos chegam juntos com treinamentos técnicos e com a promessa de alterar o perfil socioeconômico dos 19 sócios que integram a cooperativa e os demais moradores das cerca de 80 famílias da localidade.

“Aí, a gente vai utilizar as máquinas mais para quando já a lavoura já tiver nascida, para fazer uma primeira limpa no meio, sabe? Já fizemos testes e tudo. Com a época de chuva agora, então, vai aumentar cada vez mais a produção, assim a gente espera”, conta a agricultora.

O maquinário chega com o objetivo de facilitar o manejo na época do plantio de produções como o milho, feijão, hortaliças e espécies frutíferas, reduzindo o esforço físico braçal que historicamente limita a expansão das roças no Semiárido. O planejamento agrícola, agora, está apenas aguardando as janelas climáticas certas. Com as ferramentas guardadas desde dezembro, a comunidade prepara-se para o momento exato para a “segunda limpa” da lavoura. Gilvanete já vislumbra usar o tratorito para otimizar o cultivo de um hectare e meio de sua terra. Dessa vez, a produção já tem destino certo e vai além de sua própria mesa.

“Inicialmente, essa produção da gente, a gente não vendia. Ou era pra consumo próprio ou então dar aos vizinhos, os amigos quando vinha aqui, na comunidade”, relata Gilvanete. “Aí, com o projeto a gente viu que a gente poderia vender. E foi mesmo nessa época que a feira municipal da cidade voltou, que tava parada desde a pandemia. A gente deu uma parada [com as vendas na feira] porque faltou produto, também não tinha chovido ainda e, agora, a gente voltou, semana passada, de novo a vender na feira”.

As ações dividiram-se em três frentes: criação de animais, infraestrutura hídrica e mecanização agrícola

Para chegar até a comunidade de Gilvanete, a estrutura do programa do parque eólico foi desenhada para que as soluções partissem das necessidades reais de cada localidade. Segundo a empresa, o processo de capacitação incluiu módulos de agricultura orgânica familiar, produção rural, manejo de água e elaboração de projetos. Na prática, as ações dividiram-se em três frentes: criação de animais (suinocultura, avicultura e caprinocultura, com entrega de matrizes), infraestrutura hídrica (implantação de barreiros para conservação de água) e a mecanização agrícola.

“Além de contribuir com a segurança alimentar e a melhoria da qualidade de vida, a iniciativa demonstra como a geração de energia limpa pode caminhar lado a lado com o fortalecimento socioeconômico regional”, afirma Fernando Medina, diretor de socioambiental da EDF Power Solutions no Brasil. O executivo pontua que o encerramento do ciclo de capacitação marca uma fase de “usufruto autônomo”, em que as comunidades detêm o conhecimento para seguir sem dependência externa.

Apesar desses benefícios, e de ser uma fonte de energia renovável limpa, os parques eólicos causam impactos consideráveis para quem mora próximo aos aerogeradores. Um desses impactos que tira o sono dos vizinhos dos aerogeradores é o ruído constante que eles provocam. A empresa afirma que respeita os limites estabelecidos por normas técnicas e reforça que os editais de agricultura sustentável não constituem uma compensação ambiental. Trata-se de uma iniciativa voluntária de investimento social. No cotidiano de quem convive com as torres e seus barulhos, a percepção é de difícil adaptação. “Antes a gente tinha muitos questionamentos. Aqui na minha casa tem um [aerogerador] perto e, às vezes, as noites fazem barulho, mas a gente já está acostumado”, resigna-se Gilvanete.

Convivendo de perto com as contradições do desenvolvimento, agora, a expectativa de Gilvanete é que o novo maquinário estabilize a produção mesmo em anos de chuvas irregulares. A meta é garantir que o sucesso do trabalho no campo resulte em algo além da sobrevivência imediata. “E que as nossas famílias aqui, da comunidade, possam ter uma renda extra para trazer o sustento para suas casas, para suas famílias”, conclui a agricultora.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 19 de abril de 2026.