A Vila Olímpica Parahyba recebe, até sábado (28), o primeiro Camping Escolar Paralímpico para atletas de classes baixas (deficiências severas). O evento, realizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), conta com 30 jovens de cinco estados (Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Maranhão), com idades de 11 a 23 anos, nas modalidades atletismo e natação.
O Camping Escolar tem o objetivo de levar os participantes a experimentarem a rotina de atletas de alto rendimento durante uma semana. Os alunos passam por duas sessões de treinamento por dia (das 8h às 10h e das 15h às 17h), realizam testes físicos e assistem a palestras de outros atletas e especialistas ligados ao paradesporto. Hugo Suzuki, coordenador do evento, falou, com olhar técnico e humano, da importância do projeto para os jovens.
“Não só o Brasil, mas também o mundo inteiro está carente de atletas de classes mais baixas. O pessoal não dá valor também porque se é uma classe baixa, então precisa levar um acompanhante junto. A deficiência deles é muito severa; às vezes, tem gente que não consegue se alimentar direito, e tem que ajudar com passagens. Com isso, quando tem um campeonato ou Paralímpiadas Escolares, os estados não gostam de levar tantos representantes de classes baixas pelos gastos que têm, não é apenas uma pessoa, são duas”, disse.
“A gente está fazendo um caça-talento. Em vez de mandar esses alunos para a nossa sede em São Paulo, o CPB faz o contrário. Estamos saindo de São Paulo e indo para os estados, tentando garimpar talentos. Aqui, esses jovens fazem um treinamento, não é uma competição. O principal objetivo é conseguir captar atletas que não teriam condições de chegar até as grandes competições para serem vistos”, explica Hugo.
O CPB buscou compor a lista de selecionados para o Camping em João Pessoa com atletas da natação classificados como S1, S2, S3 e S4, entre aquelas paraesportistas com limitações físico-motoras, e como S11, para atletas com deficiência visual. No atletismo, foram considerados esportistas da classe T11, para cegos, e das classes T31 e T32 (lesões encefálicas), T51, T52 e T53 (competem em cadeira de rodas) e T71 e T72 (com comprometimentos graves de coordenação motora e que competem na petra).
Os 30 jovens atletas envolvidos no Camping Escolar de João Pessoa foram selecionados a partir das Paralimpíadas Escolares. O evento conta com outras sete edições ao longo de 2026. São duas nacionais, a primeira realizada em janeiro e a segunda prevista para 12 a 17 de julho. Ainda serão realizadas outras cinco edições regionais, tal como em 2025. Haverá ainda uma segunda edição do Camping para classes baixas em agosto deste ano, em Goiânia (GO).
Olhar do aluno
Ana Cecília Pereira, de 17 anos, natural de Campina Grande, ressaltou os sonhos e oportunidades que o esporte tem proporcionado à sua vida. Para ela, que compete no para-atletismo, o camping é uma grande oportunidade que o CPB concede a pessoas que têm deficiências mais severas e precisam praticar esportes.
“O esporte é muito importante para a nossa saúde, como vocês sabem. E, por incrível que pareça, eu já fiz dois esportes, e eles fizeram muito bem para a minha saúde. Continuo praticando esportes para que, pessoalmente, eu consiga melhorar cada dia mais. O esporte pode me levar a qualquer lugar, inclusive às Paralimpíadas. O projeto é muito importante porque daqui posso ir para Tóquio, Los Angeles, Flórida e para qualquer lugar do Brasil”, comentou Ana Cecília, que já participou de um camping em São Paulo.
Ramon Pereira, diretor de Desenvolvimento Esportivo do CPB, destacou a relevância da parceria com o Governo do Estado da Paraíba. “Nós estamos com uma vacância muito grande de atletas dessas classes [baixas] na Seleção Brasileira. Então, construir esse trabalho, a partir de agora, certamente fará com tenhamos representantes nos Jogos Paralímpicos de 2032”, afirmou.
“A escolha de João Pessoa [como sede] é pelo apoio que o estado dá ao CPB, em nossos eventos. Já realizamos outros campings aqui, mas com a faixa etária superior; inclusive a cidade já recebeu também um regional da Paralimpíadas Escolares. Então, a Paraíba é um parceiro que nós agradecemos muito por todo apoio”, concluiu.
Cuidado do professor
Diego Wittner de Oliveira, professor do CPB, trabalha com atletas de classes baixas, tendo resultados expressivos em competições nacionais e internacionais. O profissional contou sobre a satisfação de poder ajudar crianças e jovens a superarem seus limites por meio do esporte. No projeto, o professor destaca que é possível disseminar conhecimento, mostrar o quanto o esporte pode ser importante e, até, mudar a vida das crianças que têm uma deficiência mais severa.
“A parte principal de trabalhar com crianças e jovens das classes baixas é, literalmente, ver o desenvolvimento interno, e ver o quanto elas podem progredir, tanto pessoalmente quanto para o mundo. Então, a ideia é trazer também o desenvolvimento pessoal e para o esporte, os dois andam juntos. Trabalhar esses aspectos traz uma evolução gigante”, falou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de março de 2026.

