O servidor público Eduardo Rafael mal pôs os pés na biblioteca estadual Juarez da Gama Batista, no Espaço Cultural, e já correu para junto dos assentos da entrada, em busca da edição, do dia, de A União, colocado em cima de uma pequena aparadeira. Com o periódico em mãos sentou-se, instalando o jornal em uma mesa para apreciar atentamente as notícias, caderno após caderno. Essa é sua rotina às terças e quintas, em companhia do sogro, após deixar a mulher e a filha na fisioterapia, perto dali, no bairro de Tambauzinho. “É muito boa a biblioteca, uma referência no estado, com livros para quem quiser estudar, até para concurso, e também a leitura do jornal”, relata Rafael.
O espaço também agrega pessoas mais jovens, como o feirante Levi Andrade, que frequenta o espaço com o objetivo de estudar para concurso. Ele, inclusive, consulta as publicações do acervo no local. “Sem dúvida, a biblioteca tem muita importância, porque amplia esse contato com conhecimento, com livros que eu não conseguiria ter. Já indiquei para muitos amigos, que começaram a ler, com mais frequência, por causa disso”. Ele está lá de domingo a domingo, esforçando-se para conquistar uma vaga de trabalho no setor público. Além do espaço e do silêncio, aproveita o acesso gratuito à internet, tanto nos computadores quanto via wi-fi, a climatização e a privacidade.
Sobre outra mesa, perto dali, uma Bíblia ganhava novos tons enquanto Amanda Melo colore cada linha e cada versículo da página aberta, com lápis de cor. Ela também aproveita a biblioteca para se concentrar nos estudos e consultar o acervo. “Normalmente, eu tiro um tempo sem celular, nem trago para cá. Eu tenho um momento fixo de leitura, de estudo e os livros ajudam muito a pesquisar. Normalmente, os livros que eu pego são teológicos, sempre algo relacionado à Bíblia”.
Maior do estado
Os três fazem parte da média de 130 pessoas que frequantam, diariamente, a biblioteca Juarez da Gama Batista, também conhecida como “Biblioteca do Espaço Cultural”, a maior da Paraíba. Ela guarda um acervo de mais de 200 mil volumes, entre livros, jornais e outros periódicos, cordeis, fitas cassete e VHSs, parte deles acessíveis para empréstimos quinzenais, renováveis por mais 15 dias. São cerca de 2.400 m², com mais de 50 mesas e 18 baias individuais para estudo, além de 36 cabines. O complexo todo pode comportar até 600 pessoas por turno.
A biblioteca Juarez da Gama Batista foi criada em 1859, sediada no antigo Lyceu Paraibano, sede também da antiga Faculdade de Direito, no Centro de João Pessoa. Depois, ocupou o local onde atualmente está localizada a biblioteca estadual Augusto dos Anjos, na General Osório. Há 45 anos a instituição passou a ocupar a atual sede, no Espaço Cultural. É a mais antiga biblioteca estadual do estado.
“A biblioteca, hoje, não é apenas um espaço de guarda. É um espaço que pode abrir possibilidades não só de estudo, mas também de lazer”, ressalta a bibliotecária, gerente-executiva de Educação Cultural e coordenadora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, Tatiana Cavalcante, que coordena o espaço ao lado do bibliotecário e gerente operacional Saliere Coelho.
Ela destaca, ainda, a mudança na forma como esses ambientes são percebidos: “Eu vejo mais, hoje, como um instrumento cultural de formação. Já tive a prática de utilizar a biblioteca como espaço para estudar para concurso, mas hoje a adoto como um espaço de lazer, onde busco uma espécie de terapia mental por meio de uma boa leitura. E também procuro conduzir outras pessoas para esse fim, não só emprestando livros, mas trazendo a literatura de forma mais dinâmica, para que possa ser realmente apreciada, e não encarada como obrigação”, explica.
Nesse novo contexto, a biblioteca deixa de ser apenas um espaço receptivo de leitura e estudo e passa a assumir um papel mais propositivo. Esses locais tornam-se palco para diversas atividades, como clubes de leitura, oficinas e lançamentos de livros. No âmbito do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas e Comunitárias, que conta com cerca de 120 bibliotecas cadastradas, esses espaços são fomentados, justamente, como centros de produção cultural, especialmente em cidades menores.
“Alguns gestores municipais estão percebendo a importância desse equipamento dentro do município. Muitas vezes não há teatro, cinema ou palco para shows, mas há uma biblioteca que pode abarcar tudo isso. Dentro dela, é possível realizar sarau musical, sarau literário, contação de histórias, formações, apresentações teatrais e até sessões de cinema, como muitos já fazem”, conclui Cavalcante.
Localização central
No Centro de João Pessoa, alunos dos ensinos Fundamental e Médio de diversas escolas públicas da região costumam reunir-se, após as aulas da manhã, para fazer um lanche rápido e aproveitar a tarde de estudos na Biblioteca Augusto dos Anjos, localizada na Avenida General Osório, que fica nas proximidades do shopping popular conhecido como “Terceirão”. De acordo com a coordenadora da biblioteca, Kátia Silva, essa é uma das rotinas observadas entre os frequentadores.
O espaço conta, atualmente, com mais de 30 mil volumes disponíveis para empréstimo quinzenal, com possibilidade de renovação pelo mesmo período. O prédio que abriga a biblioteca possui características neoclássicas e tem sua pedra fundamental datada de 1874. Ao longo da história, já sediou a Escola Normal, o Tribunal de Justiça, o jornal A União e também a biblioteca Juarez da Gama Batista, atualmente localizada no Espaço Cultural José Lins do Rêgo.
Apesar da presença de alguns estudantes, Kátia relata que um dos principais desafios é atrair ainda mais jovens da rede pública, não apenas em função dos recursos tecnológicos disponíveis, mas para estimular a leitura, a pesquisa por meio dos livros disponíveis no local. “Geralmente, quando chegam à biblioteca, querem ir direto para o computador ou saber a senha do wi-fi. Precisamos mostrar a eles a história, os livros e a literatura”.
A biblioteca funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. O espaço dispõe de um salão de estudos com 10 mesas e diversas cadeiras, além de uma área voltada ao público infantil, com um acervo específico de cerca de 10 mil livros.
Apesar dos desafios, a coordenadora acredita que a busca por preparação para provas ainda impulsiona a presença dos estudantes. “Diante de exames como o Enem e concursos, o estudante ainda procura muito a biblioteca”, afirma. Ela também ressalta a importância da leitura tradicional: “Se você não lê e não pesquisa, acaba ficando para trás, inclusive nas provas. Mesmo com iPads e livros digitais, não é a mesma coisa que ler um livro físico, segurando-o nas mãos”.
Acervo específico
Outra importante biblioteca estadual é a Durmeval Trigueiro Mendes, que se destaca pela característica do seu acervo. Trata-se de um espaço de porte médio, localizado na Fundação Casa de José Américo, formado, inicialmente, a partir da biblioteca pessoal do próprio José Américo de Almeida.
Por essa origem, grande parte das obras data da primeira metade do século passado, reunindo exemplares raros e edições esgotadas, indisponíveis no mercado editorial. O acervo inclui uma coleção expressiva de biografias, folhetos de literatura de cordel e histórias em quadrinhos, com foco especial em José Américo, autores paraibanos, cultura regional e a história da Paraíba.
Ao todo, são cerca de 50 mil títulos, entre enciclopédias, dicionários, periódicos, folhetos, plaquetas, coleções especiais e obras raras. Segundo a gerente do espaço, a bibliotecária Nadígila Camilo, a biblioteca é classificada como de categoria especial, o que implica em consulta exclusivamente no local, sem possibilidade de empréstimo.
“As bibliotecas são espaços democráticos de livre acesso à informação. A utilização desses espaços possibilita a ampliação do conhecimento e coloca o indivíduo em uma posição mais crítica, tanto do ponto de vista pessoal quanto social. Apesar de ser um ambiente de organização permanente do saber, a biblioteca também atua como meio no processo de ensino e aprendizagem para o desenvolvimento do indivíduo”, destaca Camilo.
No campo das pesquisas, a biblioteca conta com uma equipe multidisciplinar preparada para atender tanto às demandas das equipes de estudos da Fundação quanto da sociedade em geral. Entre os temas mais procurados estão José Américo de Almeida, cultura regional e história da Paraíba.
A Biblioteca Durmeval Trigueiro Mendes funciona de segunda a sexta-feira, das 9h às 16h. Também são oferecidas visitas guiadas aos sábados, domingos e feriados.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de março de 2026.
