O escritor Augusto dos Anjos, que foi eleito o paraibano do século 20 e é o patrono da cadeira de número 1 da Academia Paraibana de Letras (APL), terá seu legado honrado em um memorial no Centro de João Pessoa. O prédio histórico onde a estrutura será instalada, localizado ao lado da sede da APL, na Rua Vigário Sarlen, passa por reforma desde o início de fevereiro. A previsão é que a obra seja concluída em dezembro deste ano.
Atualmente, estão sendo executadas demolições, escoramentos, o bota-fora (retirada do material demolido), além de escavações e execução dos pilares, conforme explicou a arquiteta Gabriella Oliveira Lima, da Superintendência de Obras da Paraíba (Suplan), responsável pela fiscalização da obra.
Gabriella esclarece que o prédio se encontra situado na área de preservação rigorosa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), por isso serão preservadas as alvenarias originais da fachada. “Foram demolidas alvenarias modificadas que foram inseridas posteriormente e não faziam parte da composição original do imóvel”, apontou.
O prédio terá salão de exposições, auditório, cafeteria e espaço de mesas para o café, além de banheiros e áreas administrativas. O investimento supera R$ 2,3 milhões. A obra foi autorizada por João Azevêdo, que governava o estado no início do ano.
Para o presidente da APL, Severino Ramalho Leite, o memorial representa um pedido de perdão ao poeta. “Augusto dos Anjos saiu da Paraíba desiludido e humilhado por falta de apoio oficial. O governador de então negou-lhe um benefício e, por conta disso, ele migrou para o Rio e depois para Minas, tendo falecido em Leopoldina. A APL instalou um Memorial de Augusto dos Anjos, mas muito raquítico para a grandeza do poeta. A iniciativa do [então] governador João Azevêdo, atendendo pleito da academia, restaura a memória de Augusto e recupera a veneração que a Paraíba deveria sempre ter pelos seus maiores”, afirmou.
O secretário de Estado da Cultura, Pedro Santos, defende que a construção do memorial é atravessada por três dimensões. Duas delas são a promoção da educação e a valorização da APL. “Não se trata de uma mera homenagem, mas de uma infraestrutura robusta que vai contribuir com a divulgação e popularização da obra de um dos maiores poetas do Brasil. Será um ambiente educativo, sobretudo. Também é um gesto de reconhecimento ao trabalho, à história e a importância da Academia Paraibana de Letras, no sentido de agregar à sede da APL um novo equipamento público de cultura”, afirma.
Outro aspecto ressaltado pelo gestor é o impacto com a revitalização do Centro Histórico de João Pessoa, uma vez que o memorial está incluído no rol de mais de 60 estruturas em processos de reforma e restauro por parte do Governo do Estado. De forma semelhante, a superintendente da Suplan, Simone Guimarães, também reforça a importância de Augusto dos Anjos para a literatura paraibana e destaca outras obras promovidas na capital pelo órgão.
“É muito importante quando você vê o poder público revitalizando, restaurando a nossa história, a nossa memória, e não é só esse prédio. Fizemos também a reforma da Biblioteca Augusto dos Anjos, o Palácio dos Despachos e o Museu da História da Paraíba. Na outra esquina ao memorial Augusto dos Anjos, está o Museu da Justiça Eleitoral da Paraíba [Memorial da Democracia], fruto de uma parceria com o Tribunal de Justiça, na qual eles pediram a expertise da Suplan para fazer a reforma e restauração daquele prédio antigo, que data de 1800 [Casarão dos Azulejos]”, detalhou.
Outras obras executadas pela Suplan incluem o Theatro Santa Roza e a delegacia da Polícia Civil, no Centro, onde funcionou a antiga sede da Companhia de Processamento de Dados da Paraíba (Codata). “Estamos também trabalhando no prédio da antiga Academia de Comércio, onde vai funcionar a Secretaria de Estado de Cultura. São investimentos de mais de R$ 80 milhões. Isso traz vida e movimento para o Centro”, completou Simone.
Quem foi
Nascido no município de Sapé, em 1884, Augusto dos Anjos foi poeta e professor antes de falecer em 1914, com apenas 30 anos de idade. Em vida, publicou apenas um livro, Eu, o qual, após sua morte, foi reeditado com o título Eu e outras poesias. Apesar de não ter uma obra tão extensa, ele é considerado um dos principais nomes do Pré-Modernismo, tendo sido eleito o paraibano do século 20, em votação popular promovida em 2001.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de junho de 2026.