Campina Grande é reconhecida, no Nordeste e em todo o Brasil, como um importante centro de inovação e tecnologia. Tida como o “Vale do Silício do Nordeste”, a cidade possui uma sólida tradição na produção científica e na formação de pesquisadores — e celebra, hoje, 162 anos de emancipação política. Esse destaque reflete-se em cursos da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), como Engenharia Elétrica e Ciência da Computação, que alcançaram a nota máxima na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), concedida a programas que demonstram excelência acadêmica em nível internacional.
Além de consolidar-se como um dos principais polos industriais e tecnológicos do interior do país, Campina, também chamada de “Rainha da Borborema”, abriga mais de 1.500 indústrias e concentra cerca de 22% de todo o parque industrial da Paraíba, segundo dados do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (Fiepb). Ao mesmo tempo, o município destaca-se pela riqueza de suas manifestações culturais e artísticas, pela qualidade de vida e pela valorização das tradições e da história popular, características que reforçam sua identidade e relevância no cenário regional e nacional. 
Um exemplo dessa preservação histórica está nos edifícios e estabelecimentos comerciais localizados, sobretudo, no Centro de Campina. No local, é possível encontrar um dos maiores conjuntos arquitetônicos de art déco do país. Edifícios como o Anézio Leão, que hoje abriga a Biblioteca Municipal Félix Araújo, além das ruas Maciel Pinheiro, Venâncio Neiva e a Monsenhor Sales são artigos físicos da história campinense.
Segundo o historiador Jefter Porto, nas décadas de 1930 e 1940, o então prefeito da cidade, Vergniaud Wanderley, demoliu centenas de casarões e prédios históricos, visando trazer uma estética “moderna” — ideias respaldadas fortemente pelas elites algodoeiras da época. “Hoje, o Centro Histórico é tombado e considerado um dos maiores acervos em art déco do mundo, mas isso não impediu perdas. O próprio Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba [Iphaep] já denunciou demolições clandestinas feitas de madrugada e em fins de semana. Por outro lado, temos a Estação Velha, que virou o Museu do Algodão e o art déco do Centro ainda está de pé. Ou seja, Campina preserva hoje o que sobrou do que ela mesma decidiu derrubar”, afirma.
Os moradores e a história
Mestre em História pela UFCG, Jefter começou a produzir conteúdo nas redes sociais sobre a história de Campina após perceber que muitos alunos desconheciam pontos importantes da formação da cidade. “As pessoas conhecem algumas partes, como a história do São João, do trem e até de alguns políticos e personagens marcantes, como João Carga D’água, Cristiano Lauritzen ou Ronaldo Cunha Lima. Mas muitos estudantes sabem mais sobre Revolução Francesa do que sobre o lugar em que moram”, lamenta.
O desejo de compartilhar com mais pessoas os conhecimentos adquiridos na universidade veio depois da conclusão do mestrado. “A recepção me surpreendeu. Os posts sobre Campina, a Paraíba e o Nordeste são justamente os que mais engajam, e o comentário que eu mais leio é: ‘Eu morava aqui e nunca soube disso’”, conta o historiador, que hoje soma cerca de 200 mil seguidores em suas redes sociais.
Um desses pontos pouco conhecidos pelos campinenses é a representatividade por trás da sua emancipação, ocorrida em 11 de outubro de 1864, data em que Campina Grande foi elevada à condição de município. No entanto, desde 1790, a cidade já possuía uma forte autonomia política, jurídica e legislativa.
“A autonomia de Campina veio ainda no século 18. Em 1790, Campina foi elevada à categoria de vila, processo que teve a atuação de Paulo de Araújo Soares. Ele argumentava que a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição, status que Campina Grande tinha na época, deveria ser elevada a vila, pois era próxima do Brejo, tinha farinha em abundância e estava na estrada que ligava ao Sertão. No dia 20 de abril de 1790, o pelourinho, símbolo da autonomia jurídica e legislativa, foi erguido na praça central. O nome oficial da nova vila era ‘Vila Nova da Rainha’, em homenagem a Dona Maria I. Tornando-se vila, o local ganhou Câmara de Vereadores, o direito de cobrar impostos, fazer leis, de ter juiz, pelourinho e cadeia. O título de cidade era, praticamente, honorífico”, explicou Jefter.
Polo científico demonstra vocação vanguardista campinense
Há quem diga que a Rainha da Borborema é uma cidade enxerida, tornando-
-se município antes de ser de fato um e sendo polo tecnológico muito antes de a tecnologia ser um ativo financeiro, inovador e desenvolvimentista como é atualmente.
A ousadia de Campina Grande pode ser exemplificada pela trajetória perseverante do engenheiro Linaldo Cavalcanti, que sonhava em criar uma instituição de Ensino Superior na cidade. Esse objetivo concretizou-se em 1954, com a inauguração da Escola Politécnica da Paraíba. Anos depois, Linaldo estabeleceu uma nova meta: adquirir um computador para a instituição. Para isso, mobilizou a sociedade campinense e promoveu a venda de rifas, conseguindo viabilizar a iniciativa. Em 1968, a Escola Politécnica de Campina Grande recebeu o primeiro computador das regiões Norte e Nordeste do Brasil, marcando um momento importante para o desenvolvimento científico e tecnológico da região.
Ao destacar a importância desse legado, Nadja Oliveira, diretora adjunta da Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB) e pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), ressaltou a visão dos pioneiros para o desenvolvimento da cidade. “Se hoje conseguimos gerar desenvolvimento tecnológico, é porque teve pessoas que nos antecederam e que foram muito visionárias e vanguardistas”, celebra.
Nadja também ressalta que os avanços atuais, como a chegada de um computador quântico, são resultado dos sonhos e iniciativas de quem abriu caminhos no passado. Segundo ela, Linaldo buscou conhecimento internacional e trouxe para Campina professores de diferentes países, como Índia e Holanda, há cerca de 50 anos. Atualmente, esse movimento é fortalecido pelo apoio de agências de fomento, leis de incentivo e pelo Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI). “Não é à toa que atraímos estudantes de todo o Brasil para nossas universidades. Somos, de fato, um celeiro e uma referência nacional e internacional na formação em ciência e tecnologia”, concluiu.
O PaqTcPB, fundado em 1984, é uma importante ponte para aliar a produção científica e acadêmica de Campina ao empreendedorismo e industrialização regional. É no local que estão algumas das principais incubadoras do estado, responsáveis por fortalecer e acelerar o desenvolvimento de novas empresas, oferecendo consultorias técnicas na área.
“É muito importante que a educação e a inovação caminhem juntas. Queremos continuar desenvolvendo uma formação de qualidade, mas que os resultados disso não fiquem apenas dentro das universidades. Vimos a importância disso durante a pandemia, vimos o protagonismo recente das pesquisas de detecção de metanol em bebidas. O que almejamos é tirar essas pesquisas da universidade e gerar nota fiscal, empreendedorismo e mercado de trabalho para pessoas com alta qualificação”, detalhou a diretora do Parque Tecnológico.
Para ela, Campina Grande vive um momento de boas perspectivas para o setor. “Estamos com um ecossistema mais maduro, conseguindo trabalhar de forma mais integrada. As pós-graduações estão mais consolidadas e diversas. É um período promissor, principalmente, porque temos investimentos públicos. Quem investe e arrisca na inovação é o setor público”, declarou Nadja.
Já para o historiador Jefter Porto, a Rainha da Borborema continuará a fazer o que sabe melhor: se reinventar. “Essa é a marca dela. Campina nasceu como pouso de tropeiros e feira de gado, virou empório do algodão, depois polo industrial e hoje é referência em universidade e tecnologia. Em nenhum desses momentos, ela dependeu de ser capital. Sempre cresceu pela posição, pelo comércio e pela teimosia do nosso povo”, finalizou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de outubro de 2026.
