Notícias

excesso de peso

Condição atinge 111 mil crianças

publicado: 08/06/2026 09h09, última modificação: 08/06/2026 09h09
Em números relativos, 36 a cada 100 pessoas de zero a nove anos têm sobrepeso, obesidade ou obesidade grave na PB
Obesidade Infantil - agencia brasil - Marcello Casal Jr..jpg

Consumo de ultraprocessados contribui para o avanço da obesidade; doença aumenta as chances do desenvolvimento de hipertensão e diabetes na infância | Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

por Priscila Perez*

Ainda hoje, existem muitas famílias que naturalizam a imagem da criança “fofinha”, como se o excesso de peso fosse apenas uma etapa do crescimento. Mas os dados mais recentes do Panorama de Obesidade Infantil e Adolescente, de 2025, com base no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), mostram que o problema é mais sério do que parece. Só na Paraíba, 36 em cada 100 crianças de zero a nove anos estão com excesso de peso, índice que inclui sobrepeso, obesidade e obesidade grave. Em números absolutos, são mais de 111 mil nessa condição, com maior risco de desenvolver problemas antes associados aos adultos, como diabetes e hipertensão.

É justamente isso que torna o Dia de Conscientização contra a Obesidade Infantil, celebrado na última quarta-feira (3), mais do que uma data no calendário. O alerta é para uma condição que, à primeira vista, pode ser encarada como uma fase passageira, mas que tem impacto direto sobre a saúde — presente e futura — do indivíduo. Para a endocrinologista Ana Luiza Rolim, por trás desses números, há uma combinação de fatores que ajuda a explicar o avanço da obesidade, como uma alimentação cada vez mais marcada por ultraprocessados e bebidas açucaradas, sedentarismo, excesso de telas e a dificuldade de acesso a alimentos mais saudáveis.

Epidemia global

Considerando apenas a Região Nordeste, a Paraíba aparece entre os estados que apresentam maior proporção de crianças de zero a nove anos com excesso de peso. O índice de 36% é o mesmo registrado em Pernambuco, onde mais de 224 mil crianças estão nessa condição. Já o Ceará apresenta um percentual ainda maior, com 40%, o equivalente a 295 mil. Embora o dado paraibano seja considerado alto, a médica chama atenção para o fato de que essa é uma tendência observada não só no Brasil, mas no mundo todo.

A obesidade, segundo ela, já é considerada uma pandemia e tem avançado de forma mais acelerada entre as crianças. O problema é que, quando aparece muito cedo, o excesso de peso tem mais chances de gerar alterações metabólicas e hormonais, interferindo, inclusive, no crescimento infantil. Para se ter ideia, essas crianças também têm maior risco de atingir a puberdade precocemente e desenvolver, ainda na infância, problemas como colesterol alto, diabetes e hipertensão. “A gente tem visto mais crianças obesas do que há alguns anos. É realmente um problema de saúde pública e precisa ser encarado assim”, reforça a especialista.

Se, há algum tempo, uma criança acima do peso era tratada como alguém que “emagreceria ao crescer”, hoje os especialistas mostram que esperar até a vida adulta pode custar caro. Ana Luiza explica que é necessário observar o desenvolvimento infantil com atenção, considerando idade, estatura, histórico familiar e ritmo de ganho de peso. Assim, quando ela começa a sair dessa faixa esperada, a intervenção precisa acontecer antes que o quadro evolua. Na Paraíba, esse cuidado torna-se ainda mais urgente quando o excesso de peso é observado por dentro dos seus diferentes graus: na faixa etária de zero a nove anos, 18,75% estão com sobrepeso, 10,17% com obesidade e 7,26% já chegaram à obesidade grave. Esse último grupo, aliás, reúne mais de 22 mil crianças e mostra que a questão se trata de um problema realmente crônico.

Coletividade

Por isso, quando o assunto é obesidade infantil, não dá para reduzir o tema a uma escolha meramente individual. Tem muito pai que reclama que o filho “só come porcaria”, mas ele mesmo não se alimenta de forma saudável nem o estimula a praticar algum esporte. Como a endocrinologista lembra, a criança nunca está sozinha nesse processo. “Se os adultos mantêm hábitos alimentares ruins, isso tende a se refletir na alimentação dos filhos”, observa. Dessa forma, não basta pedir que a criança mude sozinha, enquanto todo o entorno permanece igual. Isso, além de injusto, é ineficaz, segundo ela. “Seria até cruel a gente dizer que só a criança precisa comer certo. Não, os pais também têm que mudar seus hábitos”, afirma.

Na prática, isso significa que o cuidado não deve começar pela palavra “dieta”, nem por cortes bruscos que transformam a comida em ameaça ou punição. A endocrinologista defende que a rotina seja reorganizada com “mais comida ‘de verdade’, menos ultraprocessados e mais movimento”, sem impedir que ela participe de atividades mais sociais, como aniversários. Restrições muito excessivas, alerta Ana Luiza, podem prejudicar a relação dela com a comida e gerar algum transtorno alimentar no futuro.

Comida “de verdade” precisa caber no bolso e na rotina

Se há mais crianças obesas hoje do que no passado, onde está o erro? Para a nutricionista infantil Thamires Mirella de Araújo Nascimento Sales, os dados do Sisvan sinalizam que os hábitos alimentares estão sendo formados de maneira inadequada desde muito cedo. Tomando a Paraíba como exemplo, o consumo de ultraprocessados aparece em 30% das crianças de seis meses a dois anos, sobe para 75% na faixa etária de dois a quatro anos e chega a 84% nas crianças de cinco a nove anos. “Os hábitos alimentares são errados desde o início”, resume a nutricionista. Segundo ela, quanto mais cedo a criança é exposta a açúcar, salgadinhos, biscoitos recheados e bebidas artificiais, maior será a dificuldade para aceitar alimentos in natura depois.

Introdução alimentar adequada é estratégia de prevenção | Foto: Karolina Grabowska/Pexels

A formação do paladar, explica Thamires, começa antes mesmo da introdução alimentar e vai sendo moldada pelas experiências repetidas ao longo da infância. Quando a criança passa a ter contato com produtos muito doces, salgados ou gordurosos, o alimento mais simples tende a ser menos atrativo. Daí em diante, essa preferência acaba interferindo na aceitação de frutas, verduras e legumes, além de favorecer o que ela chama de “seletividade alimentar”.

E o problema, aqui, não é apenas calórico. Como explica a nutricionista, embora os ultraprocessados sejam, em geral, mais palatáveis, eles oferecem pouco valor nutricional e, por consequência, menor saciedade, o que pode estimular o consumo em excesso. Por outro lado, alimentos como ovos, carnes, frango, peixes, legumes e verduras ajudam a sustentar melhor o organismo. “Eles dão mais saciedade e têm um efeito metabólico melhor no nosso organismo”, observa.

Mas, se a orientação parece simples no papel, a vida real costuma ser mais complicada. O que faz, então, uma família escolher um biscoito recheado em vez de uma fruta ou uma comida caseira? A resposta passa por tempo, dinheiro, acesso e praticidade. Ultraprocessados são baratos, fáceis de armazenar e não exigem qualquer preparo prévio — basta abrir o pacote e consumir.

Ainda assim, Thamires defende que é possível fazer trocas mais saudáveis sem transformar a alimentação equilibrada em algo distante da realidade. Ovos, frango, soja, frutas, polpas naturais e preparações caseiras podem substituir, aos poucos, salsichas, empanados, sucos artificiais e salgadinhos. A lógica não é montar um cardápio perfeito, mas encontrar alternativas que caibam no orçamento e na rotina.

Por isso, as especialistas reforçam que a mudança precisa ser sempre gradual e acolhedora. No consultório, Thamires afirma que a conversa deve respeitar a idade da criança, sem julgamento ou cobrança excessiva. Em vez de cortar tudo de uma vez, a proposta é criar pequenas metas, testar alimentos, adaptar preparações e permitir que a criança participe do processo. Se ela gosta de hambúrguer ou batata frita, por exemplo, a família pode preparar versões caseiras para melhorar a qualidade do alimento que é levado à mesa. “Não adianta eu criar um cardápio perfeito que ela não vai querer seguir”, aponta. O mais importante é garantir que ela cresça com saúde, sem carregar problemas que poderiam ser prevenidos.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de maio de 2026.