No Sertão do estado, um projeto tem contribuído para aproximar pacientes e animais por meio de práticas terapêuticas. Criada há 10 anos, a EquoPatos é uma organização não governamental (ONG) dedicada à promoção de terapias assistidas com cavalos. A iniciativa surgiu após Rivanio Sousa, porteiro de uma escola, ouvir o relato do pai de um aluno com paralisia cerebral. Ele contou que o cavalo no qual o filho costumava montar havia sido recolhido e destacou o quanto a cavalgada e o contato com o animal contribuiam para o bem-estar da criança. A história despertou em Rivânio lembranças da infância e juventude, quando morava em uma granja e mantinha uma relação próxima com os cavalos. O convívio com crianças atípicas no ambiente escolar e a falta de espaços acessíveis para terapias motivaram a criação do projeto, voltado a famílias sem condições de custear o acompanhamento dos filhos. “Cheguei em casa e fui pesquisar sobre terapia com cavalos. Conheci a Associação Nacional de Equoterapia (Ande), passei a noite idealizando o projeto e comecei a buscar formas de concretizá-lo”, contou.
No início, os cavalos eram emprestados e o espaço cedido pela escola onde Rivânio trabalha. Com a expansão do projeto e o aumento da procura, o local tornou-se pequeno, surgindo a necessidade de mudança para atender mais famílias. Paralelamente, ele passou a estudar terapias assistidas, acolhimento infantil e manejo dos animais.
A EquoPatos atende crianças a partir dos dois anos, além de adolescentes e alguns adultos, incluindo pessoas neurodivergentes, com deficiência física, limitações visuais, entre outras condições.
Entre os atendidos estão os trigêmeos Mariana, Manuela e Miguel, de seis anos. Mariana, diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA), integra o projeto há um ano. Segundo o pai, Mikael Tolentino, a terapia foi indicada pelo neuropediatra. “Ela tinha dificuldade de socialização e sempre quisemos estimular esse contato com animais”, relatou. Desde então, Mariana passou a criar vínculos. Para Mikael, o ambiente é acolhedor e a equipe comprometida, trazendo avanços para a criança e para a família.
Davi Leite, de oito anos, também neurodivergente, participa do projeto há cinco anos. O pai, Zinho Leite, afirma que o acompanhamento contribuiu para que o filho se tornasse mais calmo e interativo. “No início, ele nem aceitava subir no cavalo. Hoje, o vínculo com os animais e voluntários é muito bonito”, disse, destacando ainda a redução de estereotipias.
Segundo o pai, a evolução é gradual e perceptível no dia a dia, motivo pelo qual Davi segue no projeto. Além da EquoPatos, ele conta com acompanhamento multiprofissional. Para famílias sem essa rede de apoio, a ONG busca garantir os atendimentos por meio de profissionais voluntários.
A Terapia Assistida por Animais (TAA) é uma abordagem que aposta na interação entre animais e pacientes, como alternativa para o tratamento de questões físicas e mentais. O procedimento terapêutico, associado a outras intervenções, auxilia no fortalecimento do sistema motor e no desenvolvimento cognitivo. Os animais, portanto, assumem um papel de destaque na promoção à saúde.
Trabalho voluntário
De acordo com a Associação Nacional de Equoterapia, as atividades equoterápicas devem ser desenvolvidas por uma equipe multidisciplinar, envolvendo profissionais das áreas da Saúde, Educação e equitação. Por ser uma iniciativa filantrópica, a ONG EquoPatos conta com voluntários para suprir a demanda de pessoal. Como o fluxo de voluntários é variável, isso impacta a regularidade dos atendimentos, que priorizam famílias sem condições de arcar com terapias particulares.
Atualmente, a maior parte dos voluntários vêm de uma parceria com uma universidade particular de Patos. Alunos de diversos cursos participam do projeto, colocando em prática os conhecimentos adquiridos em sala de aula e contribuindo para o desenvolvimento de crianças e adolescentes atendidos pela equoterapia. Para Rivanio, a dedicação dos estudantes é motivo de emoção, pelo cuidado e carinho demonstrados com os usuários.
Entre eles está Guilherme Medeiros, estudante de Medicina e integrante de um projeto de extensão que estuda os benefícios da equoterapia. Ele acompanha as crianças, coleta dados para a pesquisa e também colabora em atividades gerais do projeto, como a organização do espaço e o acolhimento das famílias, experiência que considera gratificante.
Interessados em integrar a equipe podem inscrever-se pelo Instagram @equopatospb. Antes de iniciar as atividades, os voluntários passam por uma formação e, após o treinamento, começam a colaborar, semanalmente.
Custeio
Ao longo desses 10 anos, o projeto passou por um processo gradual de estruturação. O que começou com apenas um cavalo emprestado, hoje conta com nove animais, todos sob a tutoria de Rivanio. As despesas com a manutenção do espaço físico, a alimentação dos cavalos e os cuidados veterinários são cuidadosamente planejadas e colocadas na ponta do lápis.
Para garantir o custeio financeiro, a EquoPatos recebe uma subvenção mensal de um mil reais do município de Patos, além de recursos destinados por alguns vereadores por meio de emendas impositivas. Algumas famílias que dispõem de melhores condições financeiras também contribuem com o projeto, como forma de reconhecimento pelo trabalho desenvolvido.
Para Rivanio, acompanhar os frutos gerados pela iniciativa e perceber quantas pessoas já foram beneficiadas é algo difícil de explicar. “É uma coisa mágica. Eu fico olhando e pensando: ‘fui eu mesmo quem criou isso?’. Parecia tão distante, e já faz uma década que as pessoas acreditam nisso junto comigo. É ser feliz no que a gente faz: ajudar ao próximo. Eu não tenho palavras para agradecer”, afirma.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de fevereiro de 2026.