João Pessoa deve ganhar, em breve, o Museu da Diáspora Africana e Memorial das Etnias Paraibanas. O equipamento funcionará em um prédio secular, localizado na Praça Rio Branco, nº 232, no Centro Histórico, nas proximidades do Largo da antiga Cadeia Pública, onde, no período colonial, ficava a residência do capitão-mor da província da Paraíba. Agora, ressignificado, o espaço será transformado em um ambiente de fortalecimento da memória e valorização de ancestralidades, fruto do diálogo com movimentos e comunidades. As obras de reforma foram iniciadas em março e a previsão é que sejam concluídas no primeiro semestre de 2027. O projeto, realizado pelo Governo do Estado da Paraíba, conta com um investimento de R$ 5.486.693,01.
A reforma do espaço é executada pela Superintendência de Obras do Plano de Desenvolvimento do Estado (Suplan). O projeto do museu conta, ainda, com o trabalho da Secretaria das Mulheres e da Diversidade Humana (Semdh), da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties) e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq). O local contará com salas de exposição, loja, quintal, espaço para café, edícula, salas multiuso e de apoio, bibliotecas para leitura e acervo, terraço e depósito, além de banheiros acessíveis e elevador.
Segundo informações da Suplan, os serviços executados inicialmente incluem a limpeza no espaço, demolições e retiradas do material demolido — como telhado e alvenarias em ruínas —, além da retirada de materiais cerâmicos, como louças e luminárias danificadas. Também vem sendo feito o escoramento do piso do pavimento superior e a retirada das camadas de reboco inseridas ao longo do tempo nas alvenarias. Com isso, ocorre a averiguação e a distinção do que é original do imóvel e do que foi acrescentado posteriormente, para que essas partes autênticas voltem a ficar expostas.
Igualdade racial
A gerente-executiva de Equidade Racial na Semdh, Jadiele Berto, aponta que o museu integra o Plano Estadual de Promoção da Igualdade Racial da Paraíba, no âmbito da secretaria. “[Ele] está previsto no eixo 2, que versa sobre políticas e ações afirmativas e de equidade racial, focadas no reconhecimento da desigualdade como um passo capaz de estimular a reparação, por meio de inserção e inclusão de grupos raciais e etnicamente vulneráveis. E, dentro da historiografia nacional e da Paraíba, as memórias, trajetórias e oralidade dessas comunidades foram negligenciadas”, aponta.
“O museu será um espaço para disseminar as diversas línguas que compõem e estruturam a cultura dos povos e comunidades tradicionais”, acrescenta. A gerente de Equidade Racial também destaca que um dos objetivos da iniciativa é que o local se torne referência em pesquisa, participação ativa e intervenção cultural.
Ainda segundo Jadiele, o museu começará a assumir, com suas atividades, algumas missões de conscientização. Entre elas, estão pontuar o extermínio dos povos indígenas e debater como a colonização foi cruel com a população negra aqui presente, a qual veio de forma compulsória e teve que criar diversos tipos de tecnologias para sobreviver e fugir da condição de escravização. “É importante ressaltar que o direito à memória, à manifestação coletiva e ao reconhecimento da comunidade negra, dos povos e comunidades tradicionais, como patrimônio histórico e cultural, compõe os direitos humanos e é fundamental para a constituição de um povo”, asseverou.
Outros pontos de destaque, conforme Jadiele, deverão ser as religiões de matriz africana, como a Jurema, o Candomblé e a Umbanda, que se tornaram centros de socialização e de acesso à cultura. “Também [queremos] resgatar como até o próprio direito à família foi negado em processo de escravização. São diversos elementos a serem debatidos e apresentados dentro desse espaço, esse equipamento que será o museu”, resume. Além disso, a gerente-executiva de Equidade Racial detalha que será priorizado o trabalho de reverenciar pessoas negras e de comunidades tradicionais que tiveram papel ativo para a construção da identidade estadual, como o artista, professor e crítico de arte Tomás Santa Rosa.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de maio de 2026.