Era só mais um dia normal de atividade de campo, junto a estudantes, na região da Serra do Teixeira, até que algo chamou a atenção do professor e pesquisador Marcelo Kokubum, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG): uma jararaca posicionada sobre uma árvore, há cerca de um metro de altura — um comportamento atípico para esse tipo de animal. Ao observar melhor, Marcelo percebeu que não havia apenas uma, mas duas cobras na árvore. O ano era 2016 e o professor não sabia, mas estava diante de uma grande descoberta.
A Jararaca-do-Jabre (Bothrops jabrensis) é uma espécie de serpente que existe apenas na Paraíba, mais precisamente no Parque Nacional da Serra do Teixeira. Não há registro do animal em nenhuma outra parte do planeta. Imagens fotográficas da cobra foram enviadas para um especialista em jararacas, que atua no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), e o pesquisador da UFCG foi, então, autorizado a capturar um indivíduo da espécie para estudo.
“A gente achou estranho, porque jararaca subindo em árvore é algo diferente. A gente começou a fazer a análise das escamas, que também tinham uma coloração diferenciada. [Em] cobras e lagartos, é preciso ver os tipos e a quantidade de escamas. Começamos a perceber que [as características dos espécimes] realmente não estavam batendo com o que conhecíamos. Era uma coisa nova”, lembrou Marcelo. No Instituto Butantan, em São Paulo (SP), foi feito um estudo genético, com base em análise molecular, que comprovou que a espécie era totalmente diferente da jararaca da Caatinga, comum no Sertão.
“Há mais ou menos oito milhões de anos, tudo era alto, tudo era serra. E, com o tempo, [o relevo da região] foi se desgastando e as áreas em volta ficaram mais baixas. Mas o Pico do Jabre e alguns pontos da Serra da Borborema continuaram altos. Foi nesses locais mais altos onde ficaram as populações [das jararacas]. A partir daí, elas foram se diferenciando. As jararacas que estavam embaixo, em uma área contínua e plana, ficaram isoladas da população da parte mais alta. Então, essas cobras começaram a usar a vegetação das árvores, porque o clima lá em cima é diferente, mais ameno”, explicou o pesquisador.
Riscos
Em 2022, a Jararaca-do-Jabre foi oficialmente catalogada e, simultaneamente, incluída na lista de animais criticamente ameaçados pelo risco de extinção. Por ser uma descoberta recente, os estudiosos ainda buscam entender mais sobre o comportamento, os hábitos alimentares e a reprodução da serpente. De acordo com Marcelo, também não é possível, por ora, mensurar quantos indivíduos dessa espécie existem atualmente.
“Como esse animal tem uma população pequena, a gente não sabe realmente quantos bichos estão na natureza. A área [de ocorrência] dele é muito pequena, porque se trata do que a gente chama de ‘espécie endêmica’”, pontuou o professor da UFCG, reforçando que a Jararaca-do-Jabre enfrenta um alto grau de ameaça. “Queimadas, desmatamento, caça, qualquer coisinha que acontece ali é um risco muito grande. O animal está muito isolado”, acrescentou Marcelo, que revelou que já foram observados, na região, casos de pessoas interessadas na caça da serpente, com interesse em vendê-la como espécie rara.
Entidades desenvolvem projeto de preservação na região
O Parque Nacional da Serra do Teixeira tem uma área total de 61.095 hectares e abrange 12 municípios. Criada em 2023, a área de conservação ainda sofre os impactos da ação humana, causada, principalmente, pela falta de informação sobre a importância da reserva para manutenção do clima e do ecossistema local.

- Iniciativa realiza ações educativas, junto a escolas de 12 cidades, para conscientizar estudantes e professores em prol da proteção do réptil | Foto: Adão Batista/Arquivo pessoal
Visando sensibilizar a população para a necessidade de preservação do parque e da Jararaca-do-Jabre, o ICMBio e a UFCG uniram-se em um projeto para aprofundar os estudos sobre a serpente e trabalhar junto às comunidades escolares da região. Agentes ambientais e pesquisadores estão percorrendo as cidades e firmando parcerias com as secretarias de Educação para oferecer uma formação aos alunos e professores. A ideia é formar agentes multiplicadores que propaguem a mensagem de conservação aos demais moradores locais.
“Nosso objetivo é pesquisar o próprio animal, como também levar o conhecimento à população sobre esses indivíduos. Em um primeiro momento, tivemos expedições realizadas pela UFCG e pelo Instituto Butantan dentro do parque, para tentar observar as cobras. Depois, em um segundo momento, iniciou-se a ação do projeto de educação ambiental”, explicou Adão Batista, agente ambiental responsável pela pesquisa no ICMBio.
Na palestra multidisciplinar, são abordados temas que vão desde o cuidado com o meio ambiente até as medidas a serem tomadas em caso de uma picada de cobra. Ainda não há um soro antiofídico específico para a Jararaca-do-Jabre; a pesquisa voltada a isso está em desenvolvimento no Butantan. Além disso, os estudantes participantes da iniciativa também são apresentados a outras espécies de cobras comuns na região.
Marcos Guedes, também servidor do ICMBio, atua no apoio à gestão do parque, integrando a equipe comandada pelo analista ambiental Damião Dantas. De acordo com Marcos, o trabalho de preservação da reserva ecológica impacta não somente o meio ambiente. “O parque preservado atrai pessoas que movimentam a economia, o ecoturismo, os hotéis. Mas, para isso acontecer, nós precisamos manter o ambiente cuidado. É um local único, com espécies raras — como a Jararaca-do-Jabre —, que influencia também o clima da região. Nós precisamos do apoio de todos nesse trabalho”, concluiu.
A serpente exclusivamente paraibana segue sendo estudada pelo pelo professor Marcelo Kokubum. Um dos próximos passos do trabalho é obter autorização para realizar a reprodução da espécie em laboratório — experimento que aconteceu apenas uma vez, resultando no nascimento de oito filhotes. Com a iniciativa, o pesquisador pretende contribuir para o aumento da população da Jararaca-do-Jabre, minimizando o risco de extinção.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de outubro de 2026.