De segunda-feira a sábado, o vai e vem começa cedo no Mercado Central, localizado na Av. Dom Pedro II — uma das vias mais movimentadas de João Pessoa. Entre os vendedores que acordam antes do nascer do sol para arrumar os quiosques e a constante carga e descarga de mercadorias, a circulação é intensa nas redondezas do espaço. Essa demanda de veículos, superior ao número de vagas de estacionamento na região, requer paciência e planejamento prévio, tanto dos comerciantes quanto dos consumidores na hora de ir às compras.
Esquematizar o trajeto e se programar com antecedência é uma das estratégias do condutor Roberto Brito para economizar tempo e dinheiro, quando ele precisa passar pelos comércios do local. No entanto, nem sempre essa medida funciona, como ocorreu ontem, diante da equipe de reportagem do jornal A União: com a ausência de vagas adequadas, a solução de Roberto consistiu em estacionar seu carro em um trecho de permanência limitada, sujeito a multa.
“Eu tenho o aplicativo da Zona Azul. Pago, faço o que tenho que fazer e volto. Mas é difícil encontrar vaga. Tem que rodar muito, gastar muito combustível. O que eu estou fazendo agora é ‘na ilegalidade’. A placa permite 30 minutos de estacionamento. Então torço para ir e voltar com sorte, porque sei que, às vezes, os agentes de trânsito passam e acabam multando”, contou. “O Centro de João Pessoa já deveria ter algum recurso, como um prédio para estacionamento. Já fizeram esse projeto e o divulgaram, mas não concluíram a ideia. Não saiu do papel”, complementou.
A dificuldade em encontrar vagas e o risco de sofrer multas afastam a clientela e comprometem a receita dos comerciantes, conforme avalia Eduardo Neves, que trabalha em um dos espaços alternativos de estacionamento, na localidade, há 32 anos. “A movimentação caiu 70%. A questão é que aqui precisa de um estacionamento. Se não tiver, não dá jeito. Fica a mesma coisa. Na sexta-feira e no sábado, pela manhã, os agentes multam todo mundo. Se um carro parar por um minutinho para pegar um negócio, vai ser multado”, revelou.
Antevendo o problema, outro comerciante da região, José Andrezo, prefere pagar uma taxa diária de R$ 8 para deixar o automóvel em uma garagem privada, próxima ao seu estabelecimento. Ele relata que, ao longo das duas décadas de funcionamento do Mercado Central, essa situação agravou-se nos últimos anos, devido ao crescimento do número de veículos em circulação no município. Seja de carro, seja de moto, a incerteza de avistar uma vaga de estacionamento disponível é a mesma, de acordo com o vendedor.
“Não é nada fácil, principalmente, pelo medo que você tem de ser multado. Você fica preocupado toda hora. Aqui já tem algumas áreas da Zona Azul, mas não sei mexer com isso. Antigamente, até se facilitava, mas você paga tanto imposto e não tem nem o direito de deixar seu carro na rua?”, opinou José Andrezo. “Nada melhorou. Só fez piorar. A gente já está tão acostumado com isso que é como se fosse normal. Se deixar ali, dá multa; se deixar aqui, paga do mesmo jeito. Prefiro deixar lá”, desabafou.
A vendedora Verônica de Brito também observa uma redução nas visitas ao quiosque que administra com a irmã. Cada vez mais consumidores, segundo ela, têm reclamado das poucas vagas de estacionamento ao comprar algum produto no mercado. “Não tem vaga. Muita gente não quer vir mais, porque não tem mais estacionamento. Agora, tem que botar o carro nos cantos pagos, se quiser vir à feira. Mas dizem que vai melhorar, então vamos ver como vai ficar”, salientou.
Reforma
Em dezembro de 2025, a Prefeitura de João Pessoa anunciou um projeto de requalificação do Mercado Central, que soma quase R$ 32 milhões em investimentos. A proposta inclui a construção de um edifício-garagem, um pavilhão destinado à venda de roupas e uma oficina gastronômica, além de unidades da Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (Emlur) e da Guarda Civil Metropolitana — todos monitorados por câmeras. O edifício-garagem terá capacidade para comportar 100 veículos, por meio do sistema de estacionamento rotativo Zona Azul.
O jornal A União entrou em contato com a Secretaria Municipal de Infraestrutura de João Pessoa (Seinfra-JP) acerca do andamento da reforma, mas, até o fechamento desta edição, não obteve retorno.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de junho de 2026.