É na casa da pescadora Maria da Penha da Conceição que a imagem de São Pedro aguardará o cortejo de fiéis do Santuário de Nossa Senhora da Penha, em João Pessoa, antes de embarcar até a Praia de Tambaú, na manhã de amanhã — dia dedicado ao santo. Tradição de mais de 100 anos, a procissão em homenagem ao guardião das chaves do céu tem início neste fim de semana. Hoje, a programação inclui um convite à comunidade religiosa para proclamar a fé pelas ruas da Praia da Penha e prestigiar quadrilhas juninas e bandas locais.
Todos os moradores se envolvem na organização do evento, como explica Maria da Penha. Doente, ainda sem forças para sair da cama por conta de uma gripe, ela conta os dias para recuperar as energias e iniciar os preparativos da festa. “Preparo a caldeirada, mungunzá, arroz-doce, frutas, bolo e refrigerante. Tudo isso a gente faz. A caldeirada é para a sopa de peixe, que a gente sempre distribui. É uma tradição de pai para filho”, destaca a pescadora, complementando: “Não podemos fechar a porta para São Pedro. A gente tem que deixar tudo aberto, tudo livre, a noite toda”.
Esta não é a primeira vez que o lar de Maria da Penha recebe o retrato do padroeiro. No ano passado, assim como em outras edições do cortejo, a imagem de 35 kg de São Pedro permaneceu sob os cuidados dela e dos familiares, administradores da Peixaria da Penha. A pescadora — que também é filha, esposa e mãe de homens do mar — carrega consigo uma fé herdada de gerações, uma crença capaz de afugentar as incertezas da arriscada travessia entre as ondas.
“São Pedro representa tudo. A gente só se apega a ele. Quando nós, nossos maridos e nossos filhos vão ao mar, a gente se apega a Nossa Senhora e a São Pedro Pescador, porque você sabe que vai, mas não sabe se volta. Venta muito, chove, e você sabe que água não tem cabelo”, relata Maria da Penha, descrevendo a prática da pesca como “muito boa, mas muito perigosa”. Ela lembra que alguns familiares, como seu irmão, já ficaram à deriva, por vários dias, em alto-mar. “Uma vez, meu sobrinho ‘caiu’ no mar e a gente só veio encontrá-lo às 11h do outro dia, no Seixas, boiando”, revela.
Assim como ela, o pescador Francisco Assis de Melo participa anualmente das celebrações em homenagem a São Pedro. Quando começou a desbravar os perigos mar adentro, ainda criança, ele já acompanhava os pais na expedição em louvor ao santo. Hoje, após mais de cinco décadas de pesca, os olhos de Francisco continuam a se encher de alegria ao falar do protetor e de sua expectativa para a agenda comemorativa que começa nesta noite. “São Pedro vai vir de Tambaú para cá. Logo depois, vai ocorrer um festejozinho para comemorar seu dia, aqui, na comunidade”, reforça.
Paróquias realizam homenagens especiais ao padroeiro
Conforme divulgado pela Arquidiocese da Paraíba, a festa no Santuário da Penha tem início às 19h, quando uma missa de acolhida da imagem do santo, vinda da Praia de Tambaú, abrirá as celebrações. Em seguida, haverá uma procissão, com a imagem, pelas ruas da Praia da Penha, em direção à Vila dos Pescadores, onde a comunidade promoverá um festejo com quadrilhas e grupos musicais locais. Amanhã, a partir das 9h, serão realizados um momento de oração e uma procissão até a beira-mar, de onde partirá, às 11h, a tradicional barqueata de São Pedro, carregando a imagem do padroeiro rumo a Tambaú.
Entre outras comunidades locais que louvarão o dia do santo, na Região Metropolitana de João Pessoa, está a Paróquia São Pedro Pescador, no bairro de Manaíra, onde os festejos se somam ao jubileu de 25 anos do templo. O ápice da agenda comemorativa ocorre hoje, com quatro missas na Igreja Matriz, ao longo do dia — incluindo uma ministrada por dom Alcivan Tadeus, bispo auxiliar da Paraíba, às 8h —, e a procissão de São Pedro, que sairá da Capela Santo André, às 16h.
Programações especiais em louvor a São Pedro e São Paulo — outro apóstolo homenageado em 29 de junho — também acontecem em outras seis paróquias da Arquidiocese da Paraíba: a Paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Cabedelo; a Paróquia São Pedro Apóstolo, em Bayeux; a Paróquia São Pedro, em Serra Redonda; e as paróquias São Pedro e São Paulo do bairro Brisamar, na capital; em Santa Rita; e em Mamanguape.
Autoridade pastoral
De acordo com a Arquidiocese da Paraíba, São Pedro foi um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo e é considerado uma das figuras mais importantes do cristianismo. Originalmente chamado de “Simão”, o santo era um pescador na região da Galileia. Segundo os Evangelhos, Jesus lhe teria dado o nome de “Pedro” (do grego petros, que significa “pedra”) e dito: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Para os católicos, essa passagem fundamenta o papel especial do padroeiro como líder dos apóstolos e primeiro bispo de Roma, sendo considerado o primeiro papa.
Também reconhecido como um dos discípulos mais próximos de Jesus — que lhe teria concedido, ainda, “as chaves do reino dos céus”, um símbolo de sua atribuição para governar a Igreja e abrir as portas da salvação —, Pedro teria negado Cristo por três vezes, antes da crucificação de seu mestre, mas se arrependido profundamente mais tarde. A tradição cristã registra que ele pregou o Evangelho em várias regiões do Império Romano, até ser martirizado em Roma, por volta dos anos de 64 e 65 d.C., durante as perseguições do imperador Nero. Seu túmulo está localizado na Basílica de São Pedro, na Cidade do Vaticano.
A devoção ao santo é especialmente forte no Nordeste brasileiro. Padroeiro dos pescadores, o apóstolo é venerado por comunidades litorâneas e ribeirinhas, que encontram em seu testemunho um exemplo de confiança em Deus, serviço e fidelidade ao Evangelho.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de junho de 2026.
