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Operação afasta prefeito recém-eleito

publicado: 15/04/2026 08h45, última modificação: 15/04/2026 08h45
Autoridades investigam esquema de fraude em licitações, desvio de recursos públicos e financiamento de facção
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Defesa nega vínculos de gestor com o crime organizado | Foto: Divulgação/Câmara Municipal de Cabedelo

por Samantha Pimentel*

Recém-eleito em pleito suplementar realizado no último domingo (12), o prefeito de Cabedelo, Edvaldo Manoel de Lima Neto, foi afastado do cargo na manhã de ontem (14). O afastamento decorreu da Operação Cítrico, realizada de forma conjunta pela Polícia Federal (PF), pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) — por meio do Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco) — e pela Controladoria-Geral da União (CGU). A secretária de Administração de Cabedelo, Josenilda Batista dos Santos, e outros servidores considerados estratégicos da gestão municipal, também foram afastados.

A força-tarefa buscou cumprir 21 mandados de busca e apreensão nas cidades de Cabedelo, João Pessoa, Lucena e Olinda (PE). O objetivo é aprofundar a investigação sobre a suposta atuação de uma organização criminosa voltada à fraude em licitações, ao desvio de recursos públicos, à lavagem de dinheiro e ao possível financiamento de uma facção com atuação em Cabedelo. 

Conforme as autoridades, o esquema teria se valido da contratação fraudulenta de empresas fornecedoras de mão de obra vinculadas ao grupo criminoso Tropa do Amigão — braço local do Comando Vermelho —, com a infiltração de integrantes da facção em estruturas da Prefeitura e da Câmara Municipal de Cabedelo; a circulação de valores de origem pública em favor do crime organizado; e a utilização de contratos administrativos como instrumento de manutenção de poder, influência territorial e blindagem institucional.

Contratos milionários

Ação recolheu valores em espécie | Foto: Divulgação/MPPB

Segundo a PF, a investigação revelou um consórcio entre agentes políticos da alta cúpula do município, empresários e integrantes da organização criminosa, voltado à perpetuação de contratos milionários e à distribuição de vantagens ilícitas, cujo valor total pode chegar a R$ 270 milhões.

A PF acrescentou que o inquérito segue em andamento e os fatos apurados poderão ensejar responsabilização pelos crimes de frustração do caráter competitivo de licitação, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e financiamento de organização criminosa, sem prejuízo de outros ilícitos eventualmente identificados no curso da apuração.

Além do afastamento de cargos públicos, também estão proibidos de acessar as dependências da Prefeitura de Cabedelo: o prefeito recém-eleito, Edvaldo Neto; o ex-prefeito Vitor Hugo Peixoto Castelliano; o chefe de gabinete da Prefeitura de João Pessoa, Rougger Xavier Guerra Júnior; o ex-procurador-geral de Cabedelo e do Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) na cidade, Diego Martins; a ex-secretária Municipal de Políticas Públicas para Mulheres, Cynthia Denize Silva Cordeiro; o ex-assessor da Secretaria Municipal de Cultura, Tanison da Silva Santos; e Cláudio Fernandes de Lima Monteiro.

De acordo com a PF, a finalidade é aprofundar a colheita probatória, preservar a investigação e impedir a continuidade das condutas investigadas. As medidas cautelares, autorizadas pelo Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), foram assinadas pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida, atendendo a pedido da PF e do MPPB, e incluem, ainda, a restrição de contato entre os citados no processo.

Pregões na mira

O foco da apuração recai sobre possíveis fraudes sucessivas em procedimentos licitatórios, especialmente os Pregões Eletrônicos no 112/2024 e no 97/2025, bem como na execução do Contrato no 02/2020 e seus aditivos. Segundo os requerentes, a burla à legislação de licitações objetivava eternizar a contratação do grupo econômico liderado pela empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda. e outras pessoas jurídicas associadas (como a Avlis Mão de Obra Especializada Ltda.).

Por meio dessas empresas, como informou o TJPB, os suspeitos teriam contratado pessoas indicadas por líderes da facção criminosa. Dessa forma, os recursos destinados ao pagamento desses postos de trabalho terceirizados retornariam, em tese, aos líderes da organização e aos agentes políticos na forma de propina, configurando desvio de rendas públicas, fraude à licitação, lavagem de dinheiro e integração em organização criminosa.

Pronunciamento

Embora recém-eleito, Edvaldo Neto já ocupava o cargo de prefeito de Cabedelo, de forma interina, desde o fim de 2025, quando o então ocupante do posto, André Coutinho, foi cassado — também por suspeita de relação com o crime organizado. Em nota, a defesa do atual gestor afirma que seu afastamento ocorre de forma cautelar, sendo uma medida de natureza provisória e que não implica em juízo definitivo de culpa.

“Reafirma-se a absoluta tranquilidade quanto à apuração dos fatos, certo de que, no curso regular do processo e sob o crivo do contraditório e da ampla defesa, todas as circunstâncias serão devidamente esclarecidas. O prefeito jamais manteve qualquer vínculo ou relação com facção criminosa, sendo tal imputação absolutamente inverídica e incompatível com sua trajetória pública”, pontua o texto. O pronunciamento da defesa ainda reforça a confiança plena nas instituições e no restabelecimento da verdade, afirmando que está convicta de que a inocência do gestor será reconhecida, ao fim das investigações.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de abril de 2026.