Considerado o alimento mais completo nos primeiros meses de vida de um bebê, o leite materno tem tudo o que uma criança precisa para se desenvolver com segurança. Por isso, o funcionamento dos bancos de leite humano é fundamental para os cuidados de recém-nascidos prematuros ou de baixo peso, criando uma rede de suporte para mães e seus filhos e sendo a ponte entre doadoras e os bebês que necessitam. Com a proximidade da Semana Estadual de Doação de Leite Materno — celebrada em todo mês de maio, na Paraíba, em alusão ao Dia Mundial da Doação de Leite Humano —, esse gesto ganha força. Assim, o convite é para que novas mães, dentro de suas capacidades, contribuam com o bem-estar da próxima geração.
Na Paraíba, a Rede de Bancos de Leite Humano precisa coletar, pelo menos, 700 l por mês para manter o estoque abastecido. Atualmente, a média mensal de doações é de 650 l — volume que consegue prover para as diferentes unidades de saúde do estado, mas que não deixa espaço para uma margem de segurança, tendo em vista que as coletas não atingem sempre o mesmo volume.
Entretanto, a diretora do Banco de Leite Anita Cabral, Thaíse Ribeiro, compartilha uma boa notícia. “Na nossa unidade, conseguimos aumentar a coleta de leite em torno de 200 l por mês, com a ajuda do projeto Bombeiro Amigo do Peito. Eles nos auxiliam com duas viaturas, duas vezes na semana e, com essa maior capilaridade, conseguimos fazer com que a coleta de leite crescesse 35% nos últimos seis meses de 2025”, revela.
O projeto é resultado de uma parceria entre o Corpo de Bombeiros Militar da Paraíba (CBMPB) e a Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB), voltado para ampliar a coleta domiciliar de leite materno. As viaturas da corporação fazem o transporte do leite, da casa das doadoras até os bancos credenciados, e ajudam a garantir que o alimento chegue com segurança aos bebês que necessitam.
Com isso, no Anita Cabral, cerca de 400 l de leite são coletados por mês. Esse volume atende, aproximadamente, 250 crianças, inscritas junto ao Hospital da Mulher Dona Creuza Pires e a outras unidades de saúde da capital paraibana, como o Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), o Hospital Nossa Senhora das Neves (HNSN), o Hospital Edson Ramalho, o Hospital Flávio Ribeiro e a Unimed. A rede, na Paraíba, é composta por seis bancos de leite — dois localizados em João Pessoa, e um em cada uma das cidades de Guarabira, Campina Grande, Patos e Cajazeiras —, além de 20 pontos de coleta, distribuídos para contemplar todas as regiões do estado.
“Gratificante”
Há dois meses, a paraibana Isabella Deodato deu à luz o pequeno Ravi. Enquanto amamentava o filho, ela percebeu que produzia mais leite do que a criança demandava e, para não descartar, ouviu o conselho de uma amiga, que sugeriu a doação. “Pensei que poderia ajudar outros bebês e é muito gratificante, para mim, saber que estou contribuindo para nutrir outras crianças. Eu me sinto muito sortuda, por conseguir prover para o meu bebê e, ainda, ajudar o filho de outras pessoas”, conta.

- Ciente dessa importância, Isabella decidiu contribuir, em solidariedade a outras mães | Foto: Leonardo Ariel
O gesto solidário de Isabella também garantiu, para ela, a conexão com uma rede de apoio. Além da assistência presencial que recebe no Banco de Leite mais próximo de casa — que, no caso dela, é o Anita Cabral, localizado no Instituto Cândida Vargas, em João Pessoa —, ela encontra apoio emocional e suporte quando surgem dúvidas, por meio de um grupo de WhatsApp que a mantém conectada com outras mães doadoras e profissionais multidisciplinares da organização. “Todas se apoiam muito. Ter esse contato é interessante e permite que a gente se tranquilize e troque experiências”, diz Isabella.
Como proceder para aderir à campanha
O processo de doação é simples. Mulheres saudáveis, que estão amamentando e possuem excesso de leite, podem procurar o Anita Cabral, por meio do número (83) 99103-0059, que conta com atendimento via WhatsApp, ou pelo perfil no Instagram @bancodeleite.anitacabral. Nesse contato, a mãe é encaminhada para o ponto de coleta mais próximo do seu local de residência ou, se preferir, pode se inscrever para realizar a coleta domiciliar.
“Nesse caso, deixamos os potinhos esterilizados na casa da mãe, e uma equipe do banco de leite vai até ela semanalmente, ou de acordo com a necessidade específica dessa mulher, para pegar esse frasco com o leite armazenado,” esclarece Thaíse Ribeiro. Além disso, ela informa que a unidade conta com um grupo multiprofissional, composto por enfermeiros, nutricionistas, pediatras, técnicos de enfermagem e fonoaudiólogos, que dão todas as orientações para coletar e conservar o leite, e prestam apoio às doadoras e aos bebês cadastrados na rede.
A importância desse trabalho ganha ainda mais visibilidade em datas como o Dia Mundial da Doação de Leite Humano, celebrado em 19 de maio. A mobilização, liderada pela Rede Global de Bancos de Leite Humano (rBLH), chega aos 15 anos com o objetivo de conscientizar a população sobre o impacto direto da doação na sobrevivência dos bebês que estão internados em unidades neonatais. Anualmente, a campanha adota um slogan e, para o deste ano, aceitou mais de 750 sugestões, vindas de diferentes países. A frase vencedora — “Doação de leite humano: Solidariedade que nutre, vida que cresce” — é de autoria da peruana Rebeca Cadmelema, e já está sendo utilizada nas redes sociais.
Para Thaíse, a frase resume bem o significado por trás da doação e ajuda a descrever o que ela sente, atuando diariamente em prol da Rede de Bancos de Leite Humano da Paraíba. “No nosso cotidiano, a gente vê a diferença que o leite materno faz no desenvolvimento dos bebês. Somos muito gratos às mulheres doadoras, que também estão em um período que demanda bastante atenção, cuidando de um novo bebê e, ainda assim, reservam um tempo para doar e cuidar de pessoas que sequer conhecem”, comenta. “É um momento de muita vulnerabilidade para todos, e isso mostra o quão solidário é o caráter dessa doação”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de abril de 2026.