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Mercado central

Reforma gera temor nos feirantes

publicado: 27/02/2026 08h40, última modificação: 27/02/2026 08h40
Vendedores cobram garantias sobre a realocação após receberem documento indicando 72 horas para a desocupação
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Na área mais distante da fachada, localizada em paralelo à Avenida Marechal Almeida, será iniciado o trabalho; lá está prevista a construção de um estacionamento | Fotos: Roberto Guedes

por Nalim Tavares*

O Mercado Central de João Pessoa, há anos espera por reformas: quem circula pelo local hoje, depara-se com problemas na infraestrutura, dificuldade para se locomover e áreas de sujeira, com pouco saneamento. Anunciada pela prefeitura da cidade, a aguardada revitalização da área é vista como necessária pelos comerciantes, que desejam um espaço condizente com a importância econômica e turística do equipamento. Deixar o local onde trabalham para que as reformas possam começar e sejam realizadas, no entanto, traz receio para alguns comerciantes que tem no local a sua fonte de renda.

As obras devem iniciar no ponto mais distante da fachada, em paralelo à Avenida Marechal Almeida. Os feirantes que ocupam o espaço relatam que já receberam uma notificação da Secretaria de Desenvolvimento e Controle Urbano (Sedurb), informando que a área deve ser desocupada em 72 horas. Conforme uma vendedora de milho, que preferiu não se identificar, a realocação desses comercinates acontecerá no domingo (1º). 

“Disseram que nesse local, onde estamos, será construído o estacionamento. Mas não recebemos nenhuma garantia de que, ao sair daqui, poderíamos ir para um box ou outro lugar onde poderemos continuar comercializando. É a falta de comunicação, de uma conversa clara conosco, que gera mais insegurança,” ela explica. “Mudanças assim, sem nada assegurado, mexem muito com a gente, tanto em relação à renda, quanto ao emocional. Tem pessoas que estão aqui há mais de 30 anos. E agora, onde a gente vai ficar? Para onde vão nos realocar? Ninguém falou sobre isso consoco”.

Segundo a vendedora, o receio vem, também, da experiência de reformas anteriores, realizadas há mais de 20 anos: “A gente sente que essa obra nunca foi concluída. Tem comerciantes que foram tirados dos seus pavilhões originais e colocados em vendas de madeira. Disseram que eles ficariam lá por uns seis meses, mas permanecem até hoje”.

Embora a maioria dos vendedores que trabalham no local tenham preferido não dar entrevistas, a equipe do jornal A União conseguiu o depoimento de alguns comerciantes que, apesar de reconhecer a incerteza do futuro, mostraram-se bem mais otimistas em relação às reformas que serão executadas.

Há 35 anos no Mercado Central, Leandro Duarte diz que, apesar da apreensão, os mercadores receberam a notícia com alegria. “A gente fica preocupado sobre como vai ser feita a transição, a organização para essa reforma, o planejamento da prefeitura para a realocação dos trabalhadores. Mas, de forma geral, a reforma é bastante positiva, porque nós precisamos muito do estacionamento, de banheiros com saneamento e de alguns recursos de mobilidade e acessibilidade. O plano que foi divulgado é muito bonito, então a gente está animado para ver ser efetivado”.

Outro comerciante, Jair Honório, que trabalha há mais de 30 anos vendendo oleaginosas e doces artesanais, acredita que as reformas virão para melhorar não só a estrutura, como também a circulação de pessoas no local. “Os comerciantes estão muito felizes com a decisão de investir no Mercado Central. 80% dos meus fregueses são turistas, que vêm para conhecer a cidade. Eles chegam falando ‘rapaz, como pode? uma cidade bonita dessas, com um mercado acabado como esse?’, e ficam confusos, porque de certa forma esse é um ponto turístico”, alega. “Uma reforma valorizaria muito. É uma obra que esperamos há bastante tempo”.

O mercador Edson do Nascimento, que trabalha com pimentas variadas há mais de 20 anos, reforça o grupo dos entusiastas: “Verdadeiramente, nos sentimos desprezados por bastante tempo. A infraestrutura daqui está muito precária e uma reforma seria bem-vinda. Quando vi a estrutura nova e tudo o que planejam fazer, fiquei contente. Acho que receber essa atenção será muito bom para nós”.

Novo prédio será todo monitorado por câmeras

O plano de reforma descreve cinco blocos padronizados por categoria de alimentos, além de um bloco administrativo e um edifício-garagem com capacidade para 100 veículos. Todo o prédio será monitorado por câmeras, e o espaço contará com uma base de monitoramento policial, que será administrada pela Secretaria de Segurança Urbana e Cidadania (Semusb). O projeto de ampliação envolve, também, uma área para os profissionais de limpeza, que terão um espaço para descanso, cozinha, banheiros e depósito para materiais. Uma zona para manobra dos caminhões de lixo e de entulhos também está prevista, para facilitar a higienização do mercado.

Orçadas em R$31 milhões, as obras devem começar em breve. Conforme o secretário-executivo de Infraestrutura, Luciano Pereira, após a reunião da prefeitura com diversas secretarias, realizada na última quarta-feira (25), todos estão prontos para agir, dentro de suas competências, para acelerar o processo de execução da obra, embora o detalhamento do projeto e sua execução sejam de responsabilidade da empresa que ganhou a contratação. “A partir da ordem de serviço, eles já entraram no mercado, e já estão fazendo todos os levantamentos e cadastros para poder avançar com os projetos. Dentro dos próximos 90 dias, vamos ter todos os projetos executivos prontos”, conta Luciano.

De acordo com o secretário-executivo, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra) iniciará, amanhã, o processo de demolição de uma das caixas d’água do Mercado Central, que estaria comprometida. Junto deste serviço, a limpeza da área para a instalação do canteiro de obras começará a ser feita. “Também vamos dar início ao primeiro prédio, que é um pavilhão de roupas e confecções”.

O representante do Poder Público municipal afirmou que busca tranquilizar os receios manifestados pelos comerciantes ao anunciar que será erguido um galpão para abrigar os mercadores conforme cada etapa da obra. Ele destacou que todos os pavilhões passarão por revitalização e recuperação, com a estrutura totalmente renovada, e garantiu que os feirantes que estiverem nos espaços onde houver intervenção serão realocados provisoriamente para o galpão, retornando aos seus locais de trabalho assim que a reforma for concluída.

Entretanto, fez uma ressalva ao informar que há uma área ocupada de forma irregular. Segundo ele, foram acionadas a Sedurb, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (Sedest) e a Guarda Civil para que as pessoas que se encontram nessa situação sejam remanejadas e realocadas, de modo a evitar problemas ou prejuízos para qualquer das partes envolvidas.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de fevereiro de 2026.