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Caminhada resgata memória de vítimas da ditadura na capital

publicado: 30/03/2026 08h37, última modificação: 30/03/2026 08h37
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Lúcia Guerra: crimes do regime não podem ser esquecidos | Foto: Roberto Guedes

por Íris Machado*

Na próxima quarta-feira (1º), data que marca 62 anos do golpe de Estado responsável pela implantação da ditadura no Brasil, a população de João Pessoa vai às ruas para a 3ª Caminhada do Silêncio, em memória às vítimas do Regime Militar. Na manifestação, o objetivo é continuar a luta dos mortos e desaparecidos durante as duas décadas de violência institucional no país. A concentração será em frente à sede da Ordem dos Advogados do Brasil na Paraíba (OAB-PB), às 15h.

“As famílias que foram atingidas, até hoje, têm traumas; são pessoas que não conseguiram enterrar seus entes queridos. Isso é para o resto da vida de toda a família; está presente na vida de filhos, de netos, que continuam com a pressão psicológica do que aconteceu, especialmente com os desaparecidos. A Caminhada do Silêncio traz a memória de todas as vítimas da Ditadura Militar, que foram perseguidas, que foram assassinadas, e dos familiares, que ainda sofrem com isso”, aponta a historiadora Lúcia Guerra, integrante do Comitê Paraibano Memória, Verdade e Justiça (CPMVJ) e coordenadora do projeto Preservação da Memória e Difusão Educativa, Cultural e Científica do Acervo da Fundação Casa de José Américo (FCJA).

Organizada pelo Memorial da Democracia da FCJA e o CPMVJ, a mobilização congrega um coletivo de movimentos da sociedade civil em torno da preservação da história e da reivindicação por justiça. Na capital, o ato ocorre, anualmente, desde 2024, quando o Golpe Militar completou 60 anos. “Essa caminhada reúne grupos sociais que atuam em diversas frentes, mas que se unem para reforçar a importância da temática para todos os segmentos, não só familiares de quem sofreu com a ditadura. É algo mais abrangente, que serve para toda sociedade”, destaca Lúcia.

Segundo o relatório final da Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba (CEVPM-PB), da qual a pesquisadora participou, 125 paraibanos foram torturados durante a Ditadura Militar e nove constam na lista oficial de mortos e desaparecidos. Os números, no entanto, podem ser muito maiores: as informações dão a entender que pelo menos 14 pessoas foram executadas e tiveram a causa da morte propositalmente adulterada.

“Se toda a sociedade não conhece o que realmente foi a história do Brasil, o que efetivamente significa uma Ditadura Militar, com repressão, com cerceamento da liberdade, com sequestro, assassinato, tudo que envolve um regime ditatorial, ela vai estar pedindo a volta da intervenção dos militares. Essa questão educativa é fundamental, porque, se as pessoas não sabem o que aconteceu, não têm essa dimensão, elas não entendem o que isso representa. A gente vai à rua com essa intenção pedagógica, para chamar a atenção da população. É urgente conhecermos a nossa história e a dor que ainda hoje persiste”, enfatiza.

A 3ª Caminhada do Silêncio da Paraíba parte da Rua Rodrigues de Aquino, nº 37, no Centro da capital. O percurso abrange símbolos do período ditatorial na cidade, como o prédio da Faculdade de Direito — invadido por militares em março de 1964 — e a Associação Paraibana de Imprensa (API), com destino ao Parque Solon de Lucena. O ato recebe, ainda, o apoio da Secretaria de Estado da Mulher e da Diversidade Humana (Semdh), da Fundação Margarida Maria Alves, do Memorial das Ligas e Lutas Camponesas, de sindicatos e outras entidades de defesa social.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de março de 2026.