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Eleições Gerais movimentam o ano

publicado: 05/01/2026 09h56, última modificação: 05/01/2026 09h56
Logística complexa e gama ampla de prazos legais mobilizam eleitores, organizadores do pleito e partidos políticos
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Milhões de cidadãos vão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

por Eliz Santos*

Em 4 de outubro de 2026, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. Até lá, uma extensa agenda de prazos legais marcará o caminho até o dia da votação — e a Paraíba já se mobiliza para cumprir cada etapa desse processo.

O calendário das Eleições Gerais estabelece datas cruciais que influenciam tanto os eleitores quanto os futuros candidatos. A mais importante delas, antes da campanha propriamente dita, é 4 de abril de 2026. Nesse dia, encerram-se três prazos decisivos: filiação partidária, etapa obrigatória para todos que desejam disputar o pleito; desincompatibilização, quando ocupantes de cargos executivos — como presidente, governadores e prefeitos — devem se afastar de suas funções caso queiram disputar outros postos; e regularização ou mudança do domicílio eleitoral.

Na sequência, o foco volta-se para o eleitor. O dia 6 de maio de 2026 marca o fechamento do cadastro eleitoral — prazo final para solicitar o primeiro título (alistamento), fazer transferência, regularizar pendências ou concluir o cadastramento biométrico. A partir dessa data, o cadastro permanece fechado até o fim do pleito.

De 20 de julho a 5 de agosto, partidos e federações realizarão convenções para definir oficialmente seus candidatos. Logo depois, de 20 de julho a 15 de agosto, ocorre o período de registro das candidaturas junto à Justiça Eleitoral. A partir de 16 de agosto de 2026, começa a propaganda eleitoral, dando início à disputa direta pelos votos. O primeiro turno acontece em 4 de outubro e, se necessário, o segundo turno será realizado em 25 de outubro de 2026.

Preparação

O Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) já trabalha na organização do que promete ser uma das maiores operações eleitorais do estado. Para 2026, a Paraíba conta com mais de 3,2 milhões de eleitores aptos a votar, distribuídos nos 223 municípios.

A estrutura em eleições anteriores incluiu: cerca de 1.847 locais de votação, aproximadamente 10.733 seções eleitorais e mais de 41 mil mesários, entre voluntários e convocados, que atuaram diretamente no funcionamento das urnas e no atendimento aos eleitores.

A logística envolve transporte das urnas, treinamento de mesários, acessibilidade, segurança dos locais de votação e suporte tecnológico — uma operação que exige meses de planejamento integrado.

O juiz do TRE-PB Rodrigo Clemente ressalta que o trabalho começa muito antes do período eleitoral. “Estamos nos aproximando de 2026, ano eleitoral, e a prioridade do TRE neste momento é o cadastro de eleitores. Nosso compromisso é fazer com que nenhum eleitor fique de fora por falta de informação ou dificuldade de acesso”, afirmou.

Ele destacou que ações de engajamento, especialmente entre jovens, foram intensificadas. “Recentemente, estivemos em um evento em Patos, dialogando com jovens de 15 a 17 anos para estimular o primeiro título. A Justiça Eleitoral trabalha para garantir a participação de todos, especialmente dos jovens que estão entrando agora na vida democrática”, completou.

Biometria

A modernização é uma das prioridades do processo eleitoral para 2026. O Tribunal Superior Eleitoral definiu como meta atingir 100% de eleitores biometrizados no país.

Na Paraíba, o avanço é expressivo. Segundo o presidente do TRE-PB, Oswaldo Trigueiro, o estado já ocupa posição de destaque nacional. “Apresentei à presidente do TSE nosso plano de ação, mas o fato é que o Tribunal deseja que a biometria continue sendo ampliada. A Paraíba está entre os estados com maior percentual de eleitores biometrizados”, destacou.

Além da identificação biométrica, o planejamento envolve melhorias na acessibilidade, testes de sistemas, atualização das urnas e ações de combate à desinformação.

Articulações políticas

Enquanto isso, partidos e federações já se movimentam para construir chapas proporcionais, organizar recursos e planejar estratégias regionais. Entre as prioridades, estão:

  • fortalecimento das chapas majoritárias;
  • políticas de combate à fome, emprego e sustentabilidade;
  • ampliação da participação feminina e jovem;
  • formação de pré-candidatos e planejamento de comunicação.

Jovens e idosos não descartam voto e dão exemplo de cidadania

A dimensão humana das eleições também ganha protagonismo. Em 2026, a Paraíba terá 33.909 jovens com até 17 anos aptos a votar — muitos deles engajados em projetos de educação cidadã promovidos pelo TRE-PB.

João Pedro Barros, de 16 anos, votará pela primeira vez em 2026 e traduz o sentimento da sua geração ao encarar o voto como um passo para a vida adulta e um compromisso cívico: “É um momento em que percebo meu encaminhamento para a fase adulta, com a responsabilidade de participar de uma decisão importante em nosso país”, afirma, ciente da obrigação de ir além da escolha mais simples. “Sinto que tenho a obrigação de não só escolher um candidato, mas também conhecer o candidato e suas propostas para a população. É importante sabermos a história do candidato e quais decisões ele já tomou no cenário político”, aponta.

Além de expressar sua própria responsabilidade, João Pedro convoca os seus pares a fazer o mesmo, destacando a importância da educação cívica e da participação dos jovens: “Acho extremamente importante que outros jovens votem, pois é bom que nós — como adolescentes se encaminhando para essa vida cheia de responsabilidades — nos preocupemos com o nosso próprio futuro. Também acho que deveria haver programas incentivando e tentando educar a como votar de uma forma consciente, entendendo que é importante saber defender sua escolha”.

A consciência política e o peso da decisão se estendem aos jovens que já estão aptos. Raissa Almeida, de 19 anos, reforça a dimensão transformadora do ato de votar, destacando o impacto do processo para além da política. “O voto é crucial para o desenvolvimento do Brasil, seja social, econômico, dentre outros, e ele muda a história do país”, pontua.

No outro extremo, a Paraíba possui 220.805 eleitores na faixa etária de 70 anos ou mais. Para eles, o voto é facultativo, mas a alta adesão demonstra que muitos mantêm o hábito cívico. Ivonete Franco, aposentada de 76 anos, exemplifica essa persistência. “Acredito que o voto pode mudar uma nação, somos nós que escolhemos nossos representantes, que irão trabalhar por nossos direitos”, argumenta.

Apesar da forte participação dos idosos, há também quem tenha se afastado das urnas — seja por desilusão política ou pelo fato de o voto se tornar facultativo a partir dos 70 anos. Maria de Fátima Barachuí, de 73 anos, conta que chegou a interromper o hábito de votar por frustração com os rumos da política. No entanto, decidiu retomar o exercício do voto em 2026. “Eu deixei de votar porque a lei não obriga mais depois dos 70 anos e eu me decepcionei com os políticos. Mas agora eu vou votar novamente”, assegura.

Assim, entre prazos legais, logística complexa e as histórias de quem vai votar pela primeira vez — ou pela quinquagésima — a construção do processo eleitoral revela a dinâmica viva da cidadania. A contagem regressiva começou.

Inteligência artificial desafia Justiça Eleitoral

A complexidade das eleições também envolve ameaças mais amplas ao regime democrático, que dialogam diretamente com o processo eleitoral. Segundo o juiz Rodrigo Clemente, os desafios atuais vão muito além da logística. “Esses desafios não só colocam em risco, mas também enfraquecem a democracia”, diz, ao citar a baixa participação feminina e da população negra nos cargos de poder— problemas combatidos com a garantia de recursos específicos para candidaturas desses grupos.

Rodrigo Clemente cita preocupações relacionadas ao pleito | Foto: Divulgação/TRE-PB

Rodrigo Clemente alerta, também, para o impacto da tecnologia: “A desinformação e o uso de inteligência artificial serão grandes desafios, tanto para os candidatos quanto para a própria Justiça Eleitoral. O eleitor precisa buscar fontes confiáveis para fazer boas escolhas”, aconselha.

Segundo ele, a Justiça Eleitoral prepara-se para atuar com rapidez no controle da propaganda irregular e na repressão à desinformação, principalmente diante do uso crescente de ferramentas de inteligência artificial.

“Hoje, essa é uma preocupação muito grande. Buscamos controlar para que a propaganda seja verdadeira, sem qualquer tipo de censura prévia, mas garantindo uma resposta rápida ao eleitor. Em casos de fake news, o prazo de decisão é de 24 horas, o que exige dedicação intensa dos servidores e juízes”, explica, ao reforçar que o sistema eletrônico brasileiro é referência mundial e que a agilidade será fundamental para impedir que informações falsas desvirtuem o processo eleitoral.

Para o juiz, a interferência de facções criminosas na escolha de governantes é outro ponto sensível. “A influência do crime organizado em algumas regiões do país repercute nas eleições. Será um desafio garantir que todos os candidatos possam circular livremente nas comunidades, apresentar suas ideias e pedir voto sem serem impedidos”, observa.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.