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Estudo constata ofensas ao Nordeste

publicado: 13/10/2026 08h36, última modificação: 13/10/2026 08h36
Mais de 27 milhões de interações registradas após o 1º turno continham críticas à escolha de eleitores da região
2026.08.26 Eleitores negros © Leonardo Ariel (7).jpg

Intitulado “O Nordeste no banco dos réus”, o levantamento avaliou conteúdos compartilhados por usuários do Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e YouTube | Foto: Leonardo Ariel

por Paulo Correia*

Levantamento realizado pela Ativaweb DataLab mostrou que, nos três dias seguintes à votação de primeiro turno das Eleições 2026, mais de 27 milhões de menções, links e compartilhamentos na internet continham críticas às escolhas dos cidadãos do Nordeste. Disfarçadas de divergência ou análise política, as interações indicam, na realidade, a prática de xenofobia.

O Nordeste foi a única das cinco regiões do país onde o candidato à reeleição para presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), registrou vitória no primeiro turno. Lula somou 21.494.584 votos nos nove estados, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) contabilizou 10.398.973 votos. No acumulado nacional, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro totalizou 56.104.503 votos (47,03%), enquanto Lula obteve 53.879.538 (45,16%). Os dois disputam o segundo turno, marcado para o próximo dia 25 de outubro.

Intitulado “O Nordeste no banco dos réus”, o estudo avaliou o comportamento de internautas nas principais redes sociais — Facebook, Instagram, TikTok, X, Kwai e comentários do YouTube. Em todo o território nacional, foram capturados 32.878.211 menções, links e compartilhamentos associando o Nordeste ao resultado eleitoral. As interações atingiram uma média superior a 7,6 mil manifestações por minuto. Cerca de 27 milhões das menções (82,2%) carregavam um tom crítico ao eleitorado nordestino e apenas 17,8% delas buscaram defender a região ou se mantiveram neutras.

De acordo com o cientista de dados e CEO da Ativaweb DataLab, Alek Maracajá, tal volume de críticas concentradas em apenas três dias não reflete uma mera opinião espontânea, mas sim a construção de um “clima digital” orquestrado. Embora o estudo não tenha como objetivo detectar robôs, Maracajá explica que o comportamento dos dados aponta para uma mobilização deliberada.

“O primeiro [indício] é a intensidade: foram milhares de menções por hora durante três dias seguidos, uma conversa quase toda numa só direção. O segundo é a repetição: na amostra, encontramos o mesmo comentário colado várias vezes, palavra por palavra, na mesma publicação. O terceiro é o papel do aplauso: 68,2% dos comentários da amostra eram apenas concordância, elogios e números de candidato. Eles não argumentam nada, mas validam o conteúdo agressivo e o empurram nos algoritmos de recomendação”, explica.

Discurso de ódio

A análise revelou que a maior parte do vocabulário ofensivo foca em associar o povo nordestino à inferioridade intelectual (18,3% das ocorrências) e ao estigma da miséria e dependência (22,1%), tratando o eleitor da região como alguém incapaz de decidir por conta própria.

Além disso, os dados também apontam para discursos que desumanizam a população nordestina e incitam à segregação da região com o restante do país. Expressões comparando nordestinos a “jumentos”, “câncer” e “doenças”, além de comentários relacionados à divisão do país por meio de um muro, representaram 1/4 do volume total de ofensas mapeadas.

Eco interno

Os ataques identificados pelo estudo foram oriundos, majoritariamente, das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Apesar disso, foram reproduzidos também por pessoas do próprio Nordeste, denominando esse efeito de “eco interno”. As publicações, realizadas em vídeos curtos e texto, pedem desculpas ou declaram “vergonha” da origem nordestina.

Conforme o estudo, essa autodepreciação funciona como um salvo-conduto: ao ver um nordestino criticar a própria região, usuários de outros estados sentem-se legitimados para amplificar esse ódio. “O preconceito atinge seu estágio mais perigoso quando a vítima passa a repeti-lo como se fosse opinião própria”, alerta Alek Maracajá.

Risco jurídico

O documento destaca, ainda, que as postagens ultrapassam os limites da liberdade de expressão, invadindo a esfera criminal. A legislação brasileira, na Lei no 7.716/1989, tipifica a discriminação de procedência nacional como crime, com penas agravadas quando o ato ocorre na internet.

Implicações eleitorais

Além da dimensão judicial, o clima de hostilidade tem implicações diretas para a disputa do segundo turno das eleições presidenciais. O levantamento registrou uma reação em que eleitores convocam a população nordestina a responder às ofensas diretamente no dia da votação, transformando o sentimento de indignação em comparecimento e voto defensivo.

Outro efeito constatado foi a criação de barreiras para o diálogo com eleitores nordestinos abertos a mudar de voto ou a apoiar a oposição tendendo a recuar diante de ofensas à sua origem.

Por fim, o relatório adverte para o perigo da banalização do discurso segregacionista. Quando a ideia de separação territorial ou ofensas xenofóbicas são toleradas sem repúdio institucional, o patamar de aceitação social diminui, fazendo com que a agressão reapareça com intensidade ainda maior em períodos eleitorais futuros.

Metodologia

Utilizando um modelo de análise de sentimento desenvolvido internamente e calibrado especificamente para as nuances, gírias e regionalismos do país, o levantamento expõe como a xenofobia digital se disfarça frequentemente de “análise política”.

Para identificar essas nuances, o DataLab utiliza um dicionário estruturado em seis categorias temáticas: vergonha e autodepreciação, estigma da pobreza e dependência, inferioridade intelectual, desumanização, segregação territorial e insulto.

“O passo decisivo, porém, é observar o alvo da frase. Criticar um candidato, um partido ou uma política pública é debate. Porém, quando o sujeito da frase passa a ser ‘o nordestino’ ou ‘essa região’, quando o voto é atribuído a uma suposta incapacidade intelectual ou à dependência de programas sociais e quando a solução proposta é excluir, separar ou erguer um muro, a crítica deixou de ser política e passou a atingir pessoas por sua origem”, aponta Alek Maracajá.

Diante da complexidade do cenário, o especialista reforça que a tecnologia de dados em grande escala precisa caminhar lado a lado com a interpretação de analistas humanos. “A tecnologia mapeia esses padrões em escala, e a leitura humana dos nossos analistas valida o contexto. Sem esse olhar, a máquina confunde ironia com ataque e ataque com análise”, frisa.

Através deste link, acesse a íntegra do estudo O Nordeste no banco dos réus

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de outubro de 2026.