O mês de junho na Câmara Municipal de João Pessoa (CMJP) é marcado por discussões acerca da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) do exercício seguinte. Neste ano, já foram realizadas audiências públicas, com a presença de autoridades políticas da cidade, e a entrega de emendas parlamentares. Na próxima terça-feira (16), está prevista a apresentação do relatório e votação do parecer da Comissão de Finanças, Orçamento, Obras e Administração Pública (CFO) e, na quinta-feira (18), a matéria segue para votação em plenário.
O projeto da LDO 2027 (PLO nº 1.038/2026) orienta a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA), além de revisar o Plano Plurianual (PPA). Os três documentos são a base orçamentária que sustenta o planejamento, as ações e as contas de qualquer governo.
Em audiência pública no dia 2 de junho, o secretário municipal de Planejamento, Ayrton Falcão, destacou que todas as ações estão sob o pilar da austeridade fiscal e que o equilíbrio nas contas é indispensável para que João Pessoa mantenha sua capacidade de investimentos em infraestrutura, saúde, educação e proteção social.
“São esses pilares que fazem com que a gestão busque, incessantemente, levar o nosso município para patamares que estabelecem boas condições de vida aos seus habitantes e a quem o visita”, frisou o secretário.
Educação
No setor educacional, o plano prevê o oferecimento de 10 mil novas vagas, impulsionadas pela construção de 13 novos Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) e 12 escolas em diversos bairros da capital.
Além do aumento quantitativo, a pasta também investirá na ampliação da climatização nas unidades de ensino e na continuidade da entrega de ferramentas tecnológicas, como chromebooks para alunos e professores e o uso das chamadas “Salas Google”.
A secretária Municipal de Educação e Cultura, América Castro, pontuou que a pasta planeja uma estrutura padrão para toda a rede pública de ensino. “Mais do que números e metas, a educação representa sonhos, oportunidades e a construção de uma pessoa mais justa e desenvolvida”, afirmou a secretária.
Saúde
Com relação à saúde, o objetivo principal, na atenção primária, é elevar a cobertura de saúde da família dos atuais 87% para 95%, impulsionada pela entrega de novas unidades básicas e pela consolidação das chamadas “Salas do Coração”, que garantem eletrocardiograma em 100% dos postos de saúde.
A proposta também prevê a construção da nova Maternidade de João Pessoa no bairro dos Bancários — cuja licitação já foi homologada e o contrato, assinado; a criação de um centro de referência em saúde LGBTIA+; a construção de um segundo centro de nefrologia; e a implantação de um ambulatório de cuidados paliativos.
O secretário Municipal de Saúde, Luís Ferreira Filho, ressaltou que o planejamento está alinhado com o Plano Municipal de Saúde para 2026–2029, “garantindo continuidade e coerência nas políticas públicas de saúde do município, investimentos para expansão do acesso, modernização da gestão e eficiência no uso dos recursos públicos de uma rede que seja integrada, humanizada e preparada para as demandas futuras”.
Direito à cidade
Para entender a efetividade das metas orçamentárias previstas, é preciso, inicialmente, compreender a relação dessas diretrizes com o conceito de direito à cidade como referência para balizar objetivos.
O direito à cidade é um conceito fundamentado pelo filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre, que o define como o direito do coletivo de participar do planejamento, gestão e transformação da infraestrutura e serviços básicos, indo além do simples direito de ir e vir.
A geógrafa Andrea Porto, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), explica que “o espaço urbano é o lugar onde a gente consegue organizar a vida política, econômica e social de uma maneira mais fácil para todos”.
Além disso, o direito à cidade também é previsto na Constituição Federal de 1988 e foi sendo regulado por diferentes instrumentos normativos, como o Estatuto da Cidade.
Para o urbanista e analista de Dados e Políticas Públicas, Filipe Luna, a questão orçamentária tem evoluído para que o entendimento das cidades como um todo seja mais abrangente e consiga abarcar as necessidades dos cidadãos.
“A partir desse entendimento, você avalia as principais demandas, principalmente pensando nesse desenvolvimento que vai atender à maior parte das demandas da população”, pontua.
Contradições
Mesmo com a atual fama de João Pessoa de “queridinha do Nordeste”, devido ao crescimento das atividades ligadas ao turismo, a cidade ainda passa por contradições que comprometem um desenvolvimento mais democrático.
O fundador do Instituto Voz Popular, Daniel Pereira, aponta que as melhorias na cidade raramente chegam com a mesma velocidade aos territórios periféricos. Para ele, é fundamental mostrar que a periferia não é apenas lugar de carência, mas, sim, de potencialidades.
“É fundamental que, da mesma forma que essas ações de melhoria chegam aos bairros de classe alta, elas cheguem também às comunidades”, reivindicou.
Segundo a geógrafa e pesquisadora Andrea Porto, a realidade atual da capital aponta para uma negação desse direito à cidade, penalizando, principalmente, a classe trabalhadora de baixa renda. Para ela, os bairros mais populosos carecem de equipamentos de lazer adequados, enquanto áreas naturais, como praias e rios, sofrem com a falta de preservação. A situação é ainda mais crítica em comunidades situadas em áreas de risco, como São José, Padre Hildon Bandeira e Penha, que ocupam encostas e margens de rios.
“A gente pode ir para um debate sobre a relação de como a cidade tem sido produzida e foi planejada no último Plano Diretor, [...] mas esse tipo de planejamento priva grande parte da população do seu direito de trabalhar com dignidade, de ter acesso à educação, à saúde, mas também priva desse lado mais lúdico da nossa vida, do direito à festa, ao encontro, a ter um equipamento coletivo”, acrescentou.
Para Filipe Luna, esse dispositivo precisa trabalhar com metas concretas e avaliações contínuas, em vez de apenas apresentar diretrizes gerais revisadas ao fim de sua vigência. Ele citou, como exemplo, a área de mobilidade.
“Se você vai estabelecer ciclovia, isso tem que ser feito com um planejamento: vão ser implementados quantos quilômetros? E até que ano? [É preciso] fazer uma avaliação contínua do que é implementado, do que deixa de ser implementado e o por quê. Então, essa virada de chave ainda precisa acontecer”, aponta o urbanista.
Assim, o desafio para os próximos anos em João Pessoa, conforme indicam os especialistas, será equilibrar tais contradições com a urgência de garantir o direito à cidade para todos os seus habitantes.
Através deste link, acesse o texto da LDO 2027 na íntegra
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de junho de 2026.
