No dia 1º de abril de 1964, o Brasil sofreu o golpe militar que depôs o então presidente João Goulart e mudou os rumos do país. Passados 62 anos, as marcas deixadas pela ditadura não só continuam presentes na vida de muitos brasileiros, como também insistem em ser lembradas em espaços e vias públicas, que são batizados com nomenclaturas de personagens desse período.
Com o objetivo de renomear ruas e bairros que homenageiam pessoas ligadas ao regime, uma ação civil pública ingressada pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) e pela Defensoria Pública do Estado (DPE-PB) pede à Prefeitura de João Pessoa a alteração desses nomes. Atos coletivos também costumam ser realizados pela sociedade organizada para lembrar que regimes ditatoriais jamais devem retornar ao cenário nacional.
A professora Lúcia Guerra, doutora em História, comentou as ações que objetivam mudar denominações de logradouros públicos que homenageiam pessoas que foram coniventes com a violação de direitos humanos. Ela também falou a respeito da 3a Caminhada do Silêncio, a qual estava marcada para ontem, mas foi adiada em razão das chuvas. Segundo a professora — que é integrante do Comitê Paraibano Memória, Verdade e Justiça e do Memorial da Democracia da Paraíba —, a nova data não foi definida, porém a expectativa é que o evento ocorra ainda neste mês de abril.
A marcha cívica vai percorrer algumas localidades do centro da capital, chamadas de “pontos de memória” — lugares onde a juventude estudantil, opositora do regime, enfrentou os militares. A iniciativa tem o intuito de despertar a atenção de todos e fazer uma homenagem aos mortos e desaparecidos durante a ditadura.
Vias públicas
Em entrevista à Rádio Tabajara, Lúcia Guerra contou que todas as Comissões da Verdade, sejam as nacionais ou as estaduais, colocaram em suas recomendações que não se podia manter homenagem a quem foi torturador, a quem compactuou com as violações aos direitos humanos. “Isto está posto nacionalmente. Só que há resistência por parte de pessoas que dizem que já se acostumaram com aquele nome e que não aceitam mudá-lo”, criticou a especialista.
A historiadora acrescentou que essa discussão deve ser feita em conjunto com a população. “Aqui, já existe legislação que autoriza essa mudança. Entretanto, como lei nenhuma se aplica automaticamente, é preciso que haja discussões e mobilizações para que as leis sejam implementadas, mesmo porque existe uma resistência muito grande por parte de alguns setores da nossa sociedade”, apontou Lúcia Guerra.
Episódios notáveis
Relembrando episódios que antecederam o Golpe de 1964, a professora falou sobre as diversas mobilizações que ocorreram no Brasil, tais como demandas por direitos trabalhistas e reformas sociais — reformas essas que não eram do interesse das famílias ricas do país e provocaram revoltas por parte da elite agrária, a partir do momento em que o governo demonstrou interesse em realizar algumas delas. Ao comentar os impactos do golpe na Paraíba, Lúcia Guerra citou a perseguição aos estudantes e aos sindicalistas. “Segmentos como esses, e outros, foram bastante perseguidos”, frisou a professora.
A historiadora também mencionou a atuação das Ligas Camponesas, mobilização contra o latifúndio que marcou a história do estado e de toda a Região Nordeste, de 1955 a 1964. “O marco no contexto paraibano foi a repressão aos camponeses, com assassinatos e desaparecimento de corpos. Mesmo antes da ditadura, esse processo de coerção a essas pessoas já estava instalado”, lembrou.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de abril de 2026.