O ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi detido ontem (13), nos Estados Unidos, pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE, na sigla em inglês), de acordo com informações recebidas pela Polícia Federal (PF) brasileira. Em nota, a PF informou que a prisão de Ramagem, ocorrida na cidade de Orlando, na Flórida, decorreu “de cooperação internacional entre a Polícia Federal e autoridades policiais dos EUA no combate ao crime organizado”.
Em setembro do ano passado, o ex-parlamentar fugiu do Brasil após ser condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 16 anos, um mês e 15 dias de prisão por participação na tentativa de golpe de Estado em 2024. Proibido de deixar o país, Ramagem conseguiu sair pela fronteira com a Guiana, embarcando para os Estados Unidos com seu passaporte diplomático — que não estava apreendido.
No fim de janeiro, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública (MJSP) informou ao STF que o pedido de extradição do ex-deputado tinha sido entregue ao governo dos Estados Unidos em 30 de dezembro do ano passado.
O político teve o mandato cassado em 18 de dezembro de 2025, no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados declarou a perda do mandato de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
À época, pelas redes sociais, Ramagem afirmou que a decisão foi resultado de uma “canetada” e acusou o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), de atuar como “subordinado de um ministro ditador”, em referência a Alexandre de Moraes, do STF.
Carreira política
Alexandre Ramagem Rodrigues é ex-delegado da PF e considerado aliado histórico de Jair Bolsonaro. A relação entre os dois consolidou-se durante a campanha eleitoral de 2018, quando Ramagem foi designado para chefiar a segurança pessoal de Bolsonaro, após o ex-presidente ter sido esfaqueado em Juiz de Fora (MG).
No início de 2019, já no Governo Bolsonaro, Ramagem foi nomeado superintendente da PF no Ceará, mas deixou o cargo para ingressar na política. Passou um período como assessor no Palácio do Planalto e, em junho daquele ano, foi escolhido para chefiar a Abin.
Eleito deputado federal em 2022, com 59.170 votos, Ramagem foi alvo, em outubro do ano seguinte, de uma operação da PF em seu gabinete e no apartamento funcional. A corporação investigou o uso ilegal da Abin para monitorar ministros do STF, políticos, jornalistas e advogados. Segundo a PF, a Abin teria realizado 33 mil rastreamentos ilegais, incluindo o monitoramento de Alexandre de Moraes.
A Operação Vigilância Aproximada, desdobramento da Operação Primeira Milha, cumpriu 21 mandados de busca e levou à prisão de dois servidores da Abin. Nas redes, Ramagem atribuiu a investigação a uma suposta “austeridade” implementada na gestão de Bolsonaro.
Sentença do STF
Ramagem foi condenado pelo STF por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. O Supremo ainda suspendeu a análise de crimes relacionados ao 8 de janeiro, como dano qualificado ao patrimônio da União, porque teriam ocorrido após a diplomação de Ramagem como deputado.
A defesa do ex-parlamentar tentou reduzir a pena, alegando participação de “menor importância” na trama golpista, e pediu a suspensão da condenação por organização criminosa, argumentando que o crime teria natureza permanente e continuado a ocorrer após Ramagem receber o diploma de deputado. Os advogados do ex-diretor da Abin também afirmaram que o STF foi omisso ao aplicar automaticamente a perda do cargo de delegado da Polícia Federal.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de abril de 2026.