Há algo de muito importante acontecendo na música paraibana. O termômetro? O Lollapalooza Brasil, um festival de música pop norte-americano que chegou ao Brasil em 2012 e hoje é um dos três principais palcos de música a repercutir em todo o país e levar milhares de pessoas à São Paulo, conquistados por atrações de fama internacional. Nomes que passaram pelo festival vão de veteranos do rock, como Metallica e Pearl Jam, a novas estrelas da música pop, como Billie Eilish, Sabrina Carpenter e Chappell Roan, todos capazes de lotar estádios mundo a fora.
É no “Lolla” que três artistas paraibanos irão tocar em março de 2027. Seu Pereira e Coletivo 401, Luana Flores e Zepelim e o Sopro do Cão foram anunciados na última quinta-feira (8), junto com a cantora Charli XCX, o cantor Travis Scott, o super DJ David Guetta e o grupo de rock Queens Of The Stone Age, além de velhos conhecidos da cena nacional, como Nação Zumbi (que em novembro toca em João Pessoa, na FliParaíba), Rodrigo Amarante (ex-Los Hermanos) e o rapper Criolo, com seu projeto que inclui o pianista Amaro e o cantor português Dino.
O anúncio desse “bonde” paraibano, criado em João Pessoa (Seu Pereira e Coletivo 401 e Luana Flores) e Campina Grande (Zepelim e o Sopro do Cão), não deve ser visto apenas como “ó, eles estão num mega festival de música!”. Vai além disso. Indica que nossa Paraíba está sendo observada pelos grandes centros.
Seu Pereira e Coletivo 401, por exemplo, tem um balaio repleto de sucessos radiofônicos distribuído em quatro discos - Seu Pereira e Coletivo 401 (2012); Musa Caliente - Canções de Verão (2015); Eu Não Sou Boa Influência Pra Você (2017) e Obsoleto (2025) - e fãs em todo estado. O grupo raramente fica parado: está sempre na estrada. Como lembrou o vocalista Jonathas Falcão - que adotou o nome artístico Seu Pereira quando criou a banda, por volta de 2008 - em entrevista à Parahyba FM, na quinta-feira, a própria cidade de São Paulo responde bem aos shows do Coletivo 401.
Luana Flores foi destaque na edição de 7 de agosto deste ano da Folha de São Paulo. Em uma matéria vistosa sobre seu mais recente álbum, Cria do Sol Quente, a reportagem do jornal paulistano sublinhou que a “paraibana integra a reinvenção da música eletrônica na região”. Também em entrevista à Parahyba FM, sobre a escalação para o Lollapalooza, ela declarou: “Eu tô super feliz de ser uma mulher paraibana, lésbica, a ocupar esse palco, e posso dizer também que sou a primeira mulher nascida na Paraíba a tocar no Lollapalooza, então isso é muito significativo para a minha trajetória, para a história da música paraibana também”.
Os roqueiros do Zepelim e o Sopro do Cão, que se (re)encontrou em 2019, começaram a chamar atenção com seu disco de estreia, Caranguejo de Açude (2024). O disco seguinte - Arquibancada Sol (2025) - já ganhou a distribuição nacional do selo carioca DeckDisc (que lançou, entre outros, os artistas Pitty, Matanza e Black Pantera) e, há pouco mais de 15 dias, estava lotando o lendário Circo Voador (RJ) junto com os conterrâneos Papangu e os pernambucanos Ave Sangria em noite que muita gente adjetivo de “histórica”.
Seu Pereira, Luana e Zepelim não são os primeiros paraibanos no Lollapalooza Brasil. Ano passado, a Papangu integrou a grade do evento, aproveitando a passagem por SP para gravar entrevistas em veículos especializados e fazer contatos. O resultado é que de março do ano passado para cá, a banda quase não para em casa, viajando o Brasil e até o exterior.
Também no ano passado, o festival recebeu outra paraibana. Embora tenha nascido em Feira de Santana (BA), Agnes Nunes veio morar em Campina Grande com apenas nove meses de vida. Ficou na cidade até os 17 anos, quando sua carreira começou a deslanchar e ela se mudou para o Rio de Janeiro.
Com exceção de Agnes, os demais seguem morando na Paraíba. Os tempos são outros. Nos anos 1970, Elba e Zé Ramalho também foram ao Rio, afinal era importante está perto das gravadoras e dos grandes canais de rádio e TV. Isso foi antes da internet, que reconfigurou o modelo de fazer música (popular).
Graças a isso, Papangu, Seu Pereira e Coletivo 401, Luana Flores e Zepelim e o Sopro do Cão continuam por aqui, fortalecendo uma cena local autoral fortíssima e diversa, de muitos estilos e linguagens, consolidando um público regional fiel antes de alçar voos estáveis pelo mundo.
E que o Lollapalooza Brasil e outros festivais continuem valorizando essa cena.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de outubro de 2026.