Notícias

Artigo

Competente, série retrata burnout do Raimundos

publicado: 31/03/2026 09h40, última modificação: 31/03/2026 09h40
Andar na Pedra.jpg

Documentário conta a turbulenta trajetória do Raimundos | Imagem: Divulgação/Globoplay

por André Cananéa*

Andar na Pedra – A História do Raimundos é excelente! Disponível no Globoplay, a série documental de Daniel Ferro, dividida em cinco partes de 1h de duração, detalha a trajetória de uma banda de rock que fez muito sucesso no Brasil na segunda metade dos anos 1990. A narrativa é contada pelos próprios integrantes e por quem conviveu de perto com eles de forma franca, sincera e, muitas vezes, dura. Então há glórias, mas também há muito dedo na ferida, uma lavagem de roupa suja como nunca vi no audiovisual.

Formada em 1987, em Brasília, pelos garotos Rodolfo Abrantes e Digão, à época com 15 e 17 anos de idade, respectivamente, e pelo paulista radicado no DF Canisso, de 22 anos, o Raimundos surgiu em meio à onda de rock que atravessou a capital federal nos anos 1980 — engana-se quem acha que por lá só havia Legião Urbana, Plebe Rude e Capital Inicial: havia também toda uma cena punk rock efervescente, com bandas que, embora não tenham saído dos porões locais, fizeram história.

Rodolfo é filho de um casal de médicos paraibanos que migraram, nos anos 1960, para a recém-criada capital federal, e o vocalista acabou levando suas vivências nordestinas para a sonoridade do seu grupo de hardcore, incorporando letras de duplo sentido que reinaram em discos de Genival Lacerda, Clemilda e do sanfoneiro pernambucano Zenilton, espécie de guru do projeto, cujas músicas acabaram ganhando releituras aceleradas da garotada de Brasília.

As letras que Rodolfo imprimiu no repertório são bastante elogiadas. As crônicas pessoais do vocalista — que incluem a perda da virgindade em uma certa “casa de tolerância” aqui de João Pessoa e as lembranças de um São João em Itaporanga, entre outras desventuras eróticas e maconheiras — quebraram barreiras e levaram o rock brasileiro a outro patamar, como atestam os jornalistas Carlos Marcelo, paraibano, e Ricardo Alexandre no documentário.

Com o baterista carioca Fred Castro devidamente incorporado ao grupo, o quarteto viveu uma ascensão meteórica a bordo de discos como o homônimo Raimundos (1994), Lavô Tá Novo (1995), Lapadas do Povo (1997) e Só no Forevis (1999), que produziram sucessos radiofônicos como a balada “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”, “Mulher de Fases” e “A Mais Pedida”.

Os efeitos nefastos da pressão exercida pelos louros do sucesso — da crescente legião de fãs ao faturamento cada vez mais alto com shows, direitos autorais e merchandising, capaz de fazer brotar o Tio Patinhas do mais franciscano ser humano — são narrados com uma sinceridade surpreendentes pelos entrevistados, inclusive pelos quatro integrantes - pelo que vi, a ideia foi falar tudo que estava preso no coração, tudo mesmo.

É curioso como o documentário mergulha fundo na personalidade de Rodolfo e Digão, personagens de proa da banda, cujas rusgas e temperamentos fizeram com que deixassem de se falar por mais de 20 anos. Questões íntimas, familiares, vêm à tona e, no caso de Rodolfo, constituem uma narrativa própria dentro do documentário.

Moleque de autoestima baixa, tímido, desenvolveu um vício em maconha tão grande que precisava da erva até para ter fome, além de ela ser o combustível para encarar os shows e os companheiros, o que, nas palavras dele, era algo desgastante — não são poucas as vezes em que se fala em brigas e discussões entre o quarteto.

Como revela o documentário, esse burnout levou Rodolfo a se converter ao protestantismo e a romper com o Raimundos no auge do sucesso. O momento em que ele decide virar crente e as consequências de sua saída são contados com riqueza de detalhes.

Canisso veio a falecer, vítima de um ataque cardíaco fulminante, em março de 2023, aos 57 anos de idade. Deixou todo o seu pensamento em relação ao Raimundos registrado em áudio, recuperado neste documentário. São outros tijolos que ajudaram a fechar a parede que sepultou a glória do Raimundos de forma lenta e, internamente, dolorosa. A banda segue apenas com Digão e lançou um disco de inéditas em 2025, que teve pouca ou nenhuma repercussão.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de março de 2026.