No fim de semana passado, a cidade de Conceição, no Vale do Piancó, assistiu à primeira eliminatória da 9ª edição do Festival de Música da Paraíba. Das 30 músicas apresentadas no palco do Centro Cultural Elba Ramalho, 14 foram classificadas para a final, que acontece sábado que vem (30), no Teatro de Arena do Espaço Cultural, em João Pessoa.
Encontrei a própria Elba Ramalho, que dá nome ao centro cultural de Conceição, na quarta-feira passada (20), na sede da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), no Rio de Janeiro. Na saída da gravação de um programa especial junino do Sem Censura, com Cissa Guimarães, a cantora paraibana topou conversar rapidamente com dois jornalistas de João Pessoa: eu e Marcos Thomaz, da Parahyba FM e da Tabajara FM, respectivamente.
O assunto? O primo dela, Luiz Ramalho (1931-1981), homenageado desta edição do Festival de Música. “Nós somos o mesmo Ramalho, a mesma gema, vamos dizer assim. E tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, gravei músicas dele lindas, né?”, respondeu Elba, quando perguntei se eram primos consanguíneos ou parentes mais distantes.
Elba conheceu Luiz no fim dos anos 1970, quando gravou a primeira das três composições do paraibano nascido no povoado de Santa Fé (atual Bonito de Santa Fé), próximo a Conceição, onde a prima Elba nasceu. A convivência não foi longa: Luiz Ramalho morreu em 1981, em decorrência de uma leucemia. Tinha 50 anos.
A primeira canção dele que Elba gravou foi “Veio d’água”. A música veio ao mundo na voz de Marília Serra, durante a primeira edição da Cantoria da Música Nordestina, realizada em abril de 1978, no Recife (que rendeu ainda um LP, no qual a versão de Marília está registrada), e integra o repertório do primeiro e soberbo disco de Elba Ramalho, Ave de Prata, lançado em 1979.
É importante registrar o dreamteam que ajudou Elba a dar forma a esse disco. Só na gravação de “Veio d’água”, tocaram Geraldo Azevedo no violão (ele também assina a direção musical do LP), Zé Ramalho (viola de 10 cordas) e Sivuca (sanfona e piano), entre outros. O arranjo de base é creditado a Zé Ramalho e ao autor Luiz Ramalho. O LP ainda conta com Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Pedro Osmar, Danilo Caymmi, Paulo Jobim, Wagner Tiso, Robertinho do Recife, Chico Batera e Amelinha (que, no ano seguinte, iria imortalizar o maior sucesso de Luiz Ramalho, “Foi Deus que fez você”), e por aí vai.
“(‘Veio d’água’) é uma música que precisa ser resgatada, porque ela é tão bem construída, tão bonita como poema, como tradução, assim, emocional, espiritual. Ela fala tantas coisas bonitas, singelas e lúdicas, então eu tenho vontade de regravá-la, de resgatá-la”, comentou Elba comigo e com Marcos Thomaz.
A boa nova veio ao final da curta entrevista, quando provoquei Elba a respeito dessa “vontade de regravá-la”: “Eu estou em estúdio gravando um novo disco. Vai sair no segundo semestre (de 2026). Foi uma boa lembrança (a de ‘Veio d’água’). Quem sabe eu não a regravo agora?!”, respondeu ela, sem revelar o título do novo projeto.
As outras duas músicas de Luiz Ramalho que Elba gravou foram “Roendo Unha”, parceria dele com Luiz Gonzaga (e uma pérola do repertório gonzagueano), e “Facilita”. A primeira é um dos carros-chefes de Coração Brasileiro (1983), uma versão manhosa do famoso baião, com arranjos do lendário sanfoneiro de Sapé (PB), Severo, e participação do guitarrista pernambucano Paulo Rafael (que já tocou com a nata da MPB) e do percussionista pessoense Firmino.
A derradeira música do “primo” — até o momento — a ganhar a voz de Elba foi o xote “Facilita”, que Luiz Gonzaga lançou em 1973, no hoje raríssimo LP Luiz Gonzaga, e que Elba regravou em 2002, em um álbum totalmente dedicado ao Mestre Lua, produzido pela paraibana em parceria com Dominguinhos. Em Elba Canta Luiz, a canção de Luiz Ramalho integra um pout-pourri, espremida entre “Aquilo Bom (Garotas do Leblon)” e a clássica “O Cheiro da Carolina”.
Aos 74 anos e com um legado de mais de 50 anos de carreira, Elba segue sendo a grande rainha do Nordeste. Em junho, ela volta a Campina Grande (onde passou a adolescência) para coroar o Maior São João do Mundo com seu repertório de forró-pra-dançar-brasileiro.
E, quando o São João terminar, ela voltará a se concentrar no disco, que, daqui, torço para que seja mais um discaço como seu último disco de estúdio, Ouro no Pó da Estrada (2017), que, para mim, ombreia com o citado Ave de Prata e o seguinte, Capim do Vale, em termos de “sustância” artística e ousadia estética.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de maio de 2026.