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Michael é filme, não música

publicado: 28/04/2026 09h52, última modificação: 28/04/2026 09h52
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Sobrinho de Michael, Jafaar Jackson interpreta o tio na cinebiografia | Foto: Divulgação/Universal

por André Cananéa*

Michael Jackson não vive sem uma polêmica. Nem morto! Até sua cinebiografia Michael, em cartaz desde a semana passada, tem dividido opiniões justamente pela falta de… polêmicas! Um dos maiores artistas da música pop no mundo quebrou barreiras, tornou-se o cantor com o disco mais vendido da história e inovou não apenas na música, mas também na dança, no figurino e no audiovisual. Por outro lado, colecionou um histórico de controvérsias, incluindo acusações de abusos sexuais contra crianças.

Ao delimitar a carreira de Michael Jackson entre a ascensão do Jackson 5 e o lançamento de Bad, em 1987, Michael foge das polêmicas, que começaram a emergir depois disso. Tem-se ventilado por aí que ao menos a controvérsia envolvendo casos de abuso contra crianças seria abordada no filme; porém, a produção foi alertada de que havia uma cláusula contratual que impedia que fossem mencionados casos assim, e o longa teve de ser repensado e até refeito, causando não só um atraso (era para ter estreado em 2024), mas também um prejuízo de US$ 15 milhões.

Nessa reformulação, produtores — entre eles seis integrantes da família Jackson, como o filho mais velho de Michael, Prince — e o diretor Antoine Fuqua (de Dia de Treinamento) resolveram criar a história a partir de um recorte na vida e na carreira do astro: a relação tóxica de um filho subserviente, incapaz de deixar o ninho familiar, com um pai abusivo. Pronto, o enredo é esse aí e, nesse corte, Michael tem méritos e deméritos, mas no saldo final, é um bom filme!

Vivido com maestria por Colman Domingo, Joseph Jackson, o patriarca da família Jackson, é papel para Oscar. Arrogante, controlador, treina os filhos como um domador severo treina o leão para ser exibido no circo: a chicotadas. Isso, inclusive, pode explicar a ênfase do enredo nos “pets” de Michael Jackson e sua estreita ligação com eles, da girafa à lhama, passando pelo famoso chimpanzé Bubbles.

O medo do pai era tamanho que, já um destaque no Jackson 5, Michael Jackson impõe uma condição para fechar um contrato com a CBS: que os executivos da gravadora contassem a Joseph que fora ideia deles que o cantor saísse em carreira solo. “Ele pode fazer o que quiser no horário livre dele, desde que esteja trabalhando comigo das 9h às 17h”, responde friamente o pai, demitido mais tarde por fax, dada a falta de coragem do filho, já um superastro, de se impor diante dele.

Esse arco narrativo tem um desfecho vigoroso durante uma mega turnê do Jackson 5 em 1984. Do alto do estrelato, Michael Jackson, enfim, impõe-se diante de Joseph, fechando a linha que começa com o pequeno Michael (o ótimo Juliano Valdi), ávido pelo afeto paterno — exemplos são dados por meio do criador da Motown, Berry Gordy (Larenz Tate), e do segurança Bill (KeiLynDurrel Jones) — e incapaz de olhar para o próprio pai, a quem chama a todo instante de Joseph.

Então, Michael é isso: o drama de uma família disfuncional entrecortado por caprichados números musicais tanto do Jackson 5 quanto da carreira solo do cantor, que reproduzem fielmente gravações em estúdio (“I’ll Be There”, “Don't Stop 'Til YouGetEnough”), videoclipes famosos (“Beat It”, “Thriller”) e apresentações históricas, como a gravação do comercial da Pepsi em que o cabelo do cantor pega fogo e a festa pelos 25 anos da Motown, na qual o artista aparece com sua famosa luva prateada. Em todos eles, Jaafar Jackson, sobrinho do astro escalado para viver o tio em sua estreia no cinema, dá um show de performance.

Contudo, ao focar no drama, o enredo deixa de lado a carreira artística de Michael propriamente dita. As sequências que envolvem as gravações de seus três famosos LPs — Off the Wall, Thriller e Bad— são mal desenvolvidas e parecem estar ali só porque falar de Michael e não mencionar seus trabalhos é um pecado imperdoável.

Quincy Jones (KendrickSampson), por exemplo, parceiro criativo do astro nesses álbuns, tem bem menos tempo de tela que John Branca (Miles Teller), que, nos créditos, aparece como um dos produtores. Ego? Provável que sim. Janet Jackson, a irmã famosa, sequer é mencionada na história (dizem que ela pediu para não ser sequer citada), e a filha do astro, Paris Jackson, não poupou críticas à produção.

Some-se a isso, diálogos pobres e sequências puramente apelativas, que sequer se encaixam na trama e que mais parecem estar lá para manipular emocionalmente o público, como as reiteradas visitas de Michael a crianças hospitalizadas, que não encontram nexo na trama e mais parecem querer mudar a imagem negativa provocada pelas denúncias de abusos.

Mesmo com seus problemas narrativos, Michael segue rendendo uma fortuna: fechou o fim de semana com uma arrecadação mundial de US$ 217 milhões (ou R$ 1 bilhão), fora outros US$ 97 milhões só nos EUA - nada mal para um filme que custou US$ 200 milhões. Resta saber: haverá uma segunda parte para concluir a trajetória do astro, que morreu em 25 de junho de 2009? Com ou sem polêmicas?

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de abril de 2026.