Meus sentimentos neste Oscar 2026 são ambíguos. Por um lado, fiquei triste por Pecadores ter perdido a categoria Melhor Canção para aquela genérica “Golden”, de Guerreiras do K-Pop, ou por Hamnet ter saído vitorioso apenas em uma categoria (Melhor Atriz, prêmio justíssimo para Jessie Buckley), mas não ter levado Melhor Filme e Melhor Direção.
Por outro, compreendo a enxurrada de prêmios que Uma Batalha Após a Outra levou: seis no total, incluindo Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Edição. O filme de Paul Thomas Anderson é um grande filme, mas nem é meu favorito (ele deveria ter levado por Sangue Negro), porém a carga política e social dele é tão grande que o torna necessário nestes tempos sombrios da Era Trump.
Eu torci muito por O Agente Secreto. Vesti a camisa e assisti à cerimônia ao lado do elenco paraibano do filme de Kleber Mendonça Filho, em uma festa muito bonita organizada pelo Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura, no Cine Bangüê. A convite do secretário Pedro Santos, até fiz uma rápida apresentação dos atores e atrizes que lá estavam: Joálisson Cunha, Buda Lira, Fafá Dantas, Márcio de Paula, Flávio Melo, Cely Farias e Beto Quirino (Suzy Lopes encontra-se no Rio de Janeiro, por isso não compareceu).
Mas não fiquei triste por ele ter saído de mãos vazias. Aliás, já era esperado, apesar das toneladas de engajamento espalhadas pelas redes sociais, de matérias em publicações especializadas dos EUA dando conta da vitória do filme brasileiro e até da torcida explícita de gente como Guillermo del Toro.
Para mim, a trajetória de O Agente Secreto é extremamente vitoriosa: foi visto por mais de 2,5 milhões de espectadores ao redor do mundo e amealhou cerca de 70 prêmios. Com esse currículo, quem precisa de uma estatueta voltada à indústria cinematográfica norte-americana que, ao contrário do que pensávamos, segue olhando para o próprio umbigo em detrimento de um cinema mais abrangente?
Faço minhas as palavras enfáticas de Renato Félix, editor deste caderno, durante o evento de domingo (ele me acompanhou na saudação ao elenco, assim como Carlos Câmara, do perfil @cinematographico7): “O Agente Secreto é, de acordo com a Academia de Artes Cinematográficas de Hollywood, um dos dez melhores filmes do mundo”, disse ele ao se referir à indicação da produção brasileira entre os dez indicados a Melhor Filme.
Então, ter um filme tão nosso, tão nordestino, com rostos tão conhecidos do nosso teatro e do nosso audiovisual, isso também é uma vitória da Paraíba, independente do Oscar. E fico feliz como a Parahyba 103.9 FM, uma emissora da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), da qual faço parte como gerente executivo e com um espaço bastante generoso ao audiovisual em sua grade, vislumbrou esse feito desde o início.
Ainda em novembro, no dia 3, quando O Agente Secreto chegou aos cinemas, promovemos, com a Vitrine Filmes, Centerplex, Vivass e Casa Amarela, um “Papo Na Tela”, projeto que une exibição do filme a uma roda de conversa. Ali, numa sala lotada, vi o potencial do longa, embora não tenha gostado tanto quanto de filmes anteriores de Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto é um filme que me pega aos poucos).
Ponto alto dessa jornada foi ter contado com Joálisson Cunha e Fafá Dantas ao vivo, no estúdio da 103.9, reagindo às indicações do Oscar em tempo real no dia 22 de janeiro deste ano, um feito inédito e histórico na radiofonia paraibana, e talvez no Brasil (desconheço outra emissora a ter feito isso com a presença de atores do filme).
Quinta-feira passada, dia 12 de março, outro feito para a história da novíssima emissora do Estado: recebeu, no estúdio, o tradutor do filme para a língua inglesa. Pouca gente sabe, mas esse profissional, Evaldo Medeiros, é paraibano de João Pessoa, formado em Letras com habilitação em inglês pela UFPB e que, há 30 anos, mora em Paris. Por acaso, estava de férias na cidade.
Além de O Agente Secreto, Evaldo tem no currículo obras como Central do Brasil e Que Horas Ela Volta? e contou à equipe da Parahyba FM os desafios de traduzir para o público de língua inglesa expressões tão regionais como “pirraça”, “raparigou” e “danada”, ditas no filme.
À noite, naquela mesma quinta-feira, a rádio, em parceria com a Livraria A União e com o apoio da Funesc e da Academia Paraibana de Cinema, promoveu uma roda de conversa com o elenco paraibano, que foi bastante memorável, com interação com o público e detalhes sobre o processo de atuação e condução de Kleber Mendonça no set.
Penso em registrar esse papo e a entrevista com Evaldo Medeiros nas páginas do Correio das Artes, dando à memória cultural da Paraíba opções em áudio e texto de uma passagem tão importante para o audiovisual do estado.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de março de 2026.