Olga Costa gravou um disco, que acaba de ser disponibilizado, postumamente. Jornalista, radialista, fotógrafa, advogada, produtora e compositora, a paraibana Olga nos deixou no dia 21 de janeiro, após uma batalha contra um câncer de mama. Ela tinha 63 anos e escreveu seu nome na história cultural paraibana pelo engajamento com a música, especialmente com o rock. Esse engajamento passa por Olga ter apresentado, junto com o ator e colecionador de discos Everaldo Pontes, o lendário programa Jardim Elétrico, idealizado pelo professor Carmélio Reynaldo no início dos anos 1980, na Rádio Universitária.
Conheci Olga quando ainda estava no colégio, ali no início dos anos 1990. A conheci junto com Everaldo e Ulisses Freitas, este estudante de Comunicação em vias de se formar na UFPB e que trabalhava como balconista na locadora Ribalta Vídeo, em Tambaú.
Conheci esse super trio numa tacada só, e ele foi responsável por abrir meus horizontes para a música pop, em especial o rock indie que se fazia por aquela época (Oasis, R.E.M. antes de “Losingmyreligion” etc.). Olga fez parte da minha vida desde então, inclusive quando entrei no jornalismo e ela se tornou uma espécie de ombudsman da minha carreira, tornando-me um profissional digno e também uma pessoa melhor.
Há pouco mais de uma semana, Ana Rogéria, colega minha, jornalista que conheço desde os tempos de UFPB, revelou que Olga tinha gravado um disco quando da passagem dela por São Paulo, em 2005. E mais: ela tinha integrado uma banda de rock chamada Chandler.
“Mais de 20 anos depois, nos apresentou ‘Lady Boy’, numa ocasião despojada. Curiosa, perguntei se havia mais músicas dessa leva, e ela disse que tinha, mas que nunca chegaram a ser lançadas, apenas gravadas sem pretensão, num estúdio”, escreveu Rogéria em um texto divulgado junto com o álbum, na semana passada. “Não era justo que este material ficasse engavetado”, acrescentou.
Desde 2024, Rogéria, com a ajuda da própria Olga, de Ana Isaura (responsável pelo “encarteZine” do projeto) e, sobretudo, do músico, compositor e arranjador Robson Feoli, trabalharam para dar forma ao álbum Chandler, de nove faixas, disponível gratuitamente pela plataforma Bandcamp (acesse o link por meio do QR Code nesta página). “Lembro de como Olga ficava animada com cada música que ia tomando forma”, registrou Ana Rogéria.
A paixão de Olga pela música, portanto, era plena. Sabia que ela compunha despretensiosamente, que subia ao palco vez ou outra para soltar seu vozeirão em participações especialíssimas em shows alheios, mas não sabia que tinha entrado em estúdio. No E Com Vocês, Olga Costa, da Parahyba FM, ela falou de uma gravação que fez para uma pós-graduação em Rock que uma universidade de São Paulo ofereceu remotamente durante a pandemia de Covid-19.
Na entrevista, ela cita um professor que propôs aos alunos que trabalhassem ideias uns dos outros, e ela, timidamente, colocou a voz em uma música do colega. “Mostrei ao professor, aí o professor disse: ‘— Você vai mostrar para ele?’. Eu disse: ‘— Vou não!’. Aí ele disse: ‘— Então você não está fazendo o serviço que é, né?’”.
Apesar do riso frouxo e da afabilidade, Olga era tímida e bastante restritiva ao expor seu lado intérprete, sobretudo de si mesma. A entrevista com o apresentador Alex Carvalho me deu a impressão de que ela conseguiu “destravar” um pouco essa restrição durante essa pós — da disciplina também saiu o projeto “Motosserra”, duo formado por Olga e a mineira Maria Caram, que chegaram a lançar uma faixa-protesto na internet, “AmaZona”.
Chandler é um testamento de quem foi Olga: seu riso está lá, seu amor pelo rock, seu vozeirão e sua poesia, bela e contundente, que deveria ter sido mais explorada pela própria autora. Mistura de The Replacements e The Go-Go’s, “Lady boy” é um hit em potencial, desses que, quanto mais você escuta, mais você gosta.
Com todas as letras (em inglês) assinadas por Olga e arranjos dela e do guitarrista Anderson Nascimento, o disco segue com “Bloodandmilk” e “The manwhowasn’tthere”, somente com voz e guitarra, alternando entre a melancolia de “Said song” e a manhã de sol com céu nublado que é “Twoboxers”.
O repertório ainda contempla uma versão para “Landscape”, do grupo potiguar TheeAutomatics, entre outras faixas que tornam Chandler um ótimo disco paraibano, gravado em São Paulo e que deveria ter sido lançado nas collegeradios norte-americanas do início dos anos 1990, fazendo o grupo Chandler ser capa do NME, MelodyMaker, Rolling Stone e todas as revistas de música que formaram a persona artística e jornalista da inesquecível Olga Costa.
Através desse link, acesse para ouvir o álbum Chandler
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de fevereiro de 2026.