Sempre atento aos movimentos da Música Popular Brasileira, o jornalista carioca Célio Albuquerque enxergou que, assim como em 1973 e 1979, o ano de 1985 foi discograficamente importante para a história da nossa música. E, talqual1973 – O Ano Que Reinventou a MPB e 1979 – O Ano que Ressignificou a MPB, ele recrutou um timaço para destrinchar, disco a disco, os álbuns que marcaram um ano tão significativo não só para a música, mas para a história do Brasil. Assim nasceu 1985 – O Ano Que Repaginou a Música Brasileira, calhamaço de 500 páginas editado pela Garota FM Books (a mesma de 1979…).
O ano de 1985 começou com dois grandes marcos: a eleição indireta de Tancredo Neves para a presidência da República, pondo fim a 21 anos de um brutal regime militar, e a primeira edição do Rock in Rio, uma aventura que perdura até hoje, atualmente como um dos maiores e mais prestigiados festivais de música do mundo.
Mas 1985 também foi o ano da ascensão da música baiana (dali a pouco, batizada de axé music), da consolidação do rock brasileiro (ou BRock, como foi chamado), da novela Roque Santeiro, do sucesso arrebatador do grupo Roupa Nova, do fenômeno Xou da Xuxa (cujo disco de estreia, lançado naquele ano, vendeu mais de 2,7 milhões de cópias), de um país inteiro cantando “Coração de Estudante”, de Wagner Tiso e Milton Nascimento, e do projeto “Nordeste Já”, de onde saiu o compacto duplo “Chega de Mágoa”/“Seca d’Água”, nosso “We Are the World”.
“Nordeste Já”, até por ser um compacto, e não um álbum, não entrou na curadoria dos 85 discos propostos pela obra. Cada álbum tem um texto assinado por um jornalista, pesquisador ou, até mesmo, pelo próprio artista que gravou o álbum. Exemplo? Amelinha falando sobre Caminho do Sol, seu sétimo disco, ou Anastácia destrinchando Trinta Anos de Forró, LP que conta com Gilberto Gil e Belchior. Ainda tem Guilherme Arantes contando como a CBS estendeu o tapete vermelho para sua chegada, viabilizando a gravação de Despertar, ponto alto de sua carreira. A mesma gravadora que quis sabotar o LPSessão da Tarde, como narra o próprio Léo Jaime, autor do disco.
Se ter o artista de renome falando da própria obra traz prestígio para o livro, maior valor eu encontrei nos pesquisadores e jornalistas que esmiúçam títulos como Erasmo Carlos (por Leonardo Lichote), O Adeus de Fellini (Lorena Calábria), Bem Bom, de Gal Costa (Mauro Ferreira), e Sanfoneiro Macho, de Luiz Gonzaga (José Teles), disco que conta com a participação dos paraibanos Elba Ramalho (“Qui Nem Jiló”) e Sivuca e Glória Gadelha (“A Mulher do Sanfoneiro”).
Três discos de paraibanos aparecem no livro: Fogo na Mistura, da citada Elba, cujo texto eu tive a honra de escrever, esmiuçando as ideias e os conceitos orquestrados pelo produtor Mazzola para fazer um disco que tem “De Volta pro Aconchego” tão plural e festivo. Outro éDe Gosto, de Água e de Amigos, disco de Zé Ramalho que foi atravessado pelo sucesso de “Mistérios da Meia-Noite”, com texto assinado pela biógrafa do cantor, a carioca Chris Fuscaldo, que, em nota de rodapé, avisa que tem trabalhado no livro desde 2010, ainda sem data para lançá-lo.
E temFeliz Demais, terceiro LP de Cátia de França, lançado pela JP (Jairo Pires Produções Artísticas), com distribuição da Continental, e que, ela própria já me confessou, não gosta do resultado. O disco é mencionado na seção “Outros Discos”, que lista outros 54 títulos (para além dos 85) lançados em 1985 acompanhados de um pequeno texto.
A curadoria não exclui gêneros: vai do protoaxé do LP Magia, de Luiz Caldas, ao punk rock do LP Mais Podres que Nunca, dos Garotos Podres (cujo texto foi escrito pelo ex-VJ da MTV Luiz Thunderbird), passando por Projeto Almirante, de Radamés Gnattali, Trem Caipira, de Egberto Gismonti, Dia Dorim, Noite Neon, de Gilberto Gil e Bestial Devastation, do Sepultura (rumo ao estrelato internacional), além da turmaBRock, como RPM (Revoluções por Minuto), Legião Urbana (com seu disco de estreia, Legião Urbana), Kid Abelha e os Abóboras Selvagens (Educação Sentimental) e Ultraje a Rigor (Nós Vamos Invadir Sua Praia), além de Charles Gavin discorrendo sobre Televisão, de sua ex-banda, Titãs, e Leoni falando sobre a estreia solo de Cazuza (o homônimo Cazuza).
O samba e também o pagode marcam presença maciça, com discos de Beth Carvalho, Alcione, Almir Guineto, Leci Brandão, Bezerra da Silva e Fundo de Quintal, entre outros. Destaque para o LP Criações e Recriações, de Martinho da Vila, que traz duas composições do paraibano Zé Catimba, ambas com Martinho: a faixa-título, um samba romântico com carga erótica, como anota a jornalista Kamille Viola em seu texto, e “Ê! Mana”.
O livro foi lançado, no Rio de Janeiro, no fim de 2025, mas Célio Albuquerque tem vontade de lança-lo nas praças onde mora algum articulista. Isso coloca João Pessoa, comigo, André Cananéa, na rota, assim como Recife, com José Teles, e Maceió, comGustavo Alonso, responsável por escrever sobreIsso Aqui Tá Bom Demais, de Dominguinhos.Aguardemos boas notícias!
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de março de 2026.