Akira Kurosawa, que morreu em 1998 aos 88 anos de idade, era chamado por muita gente que trabalhava com ele de “sensei” (“mestre”, em japonês). Através de 33 filmes realizados ao longo de 50 anos de carreira, dá para perceber que o cineasta não era chamado assim à toa: reflexões sobre o mundo ganhavam cenários e interpretações caprichadas nas mãos de um artista perfeccionista e exigente com sua própria obra audiovisual.
Facilmente um dos cinco principais filmes dessa trajetória, Ran (1985) não é só uma das grandes obras-primas do sensei Kurosawa, mas também seu filme mais ambicioso, que levou cerca de 30 anos para se concretizar, ou seja, três décadas para que ele desenvolvesse as artes conceituais de sua obra (ele as desenhava de próprio punho), mas, sobretudo, para que encontrasse alguém disposto a financiar a empreitada.
Por sorte, havia um francês no caminho do japonês. Serge Silberman não apenas tinha o know-how para lidar com um projeto grandioso como o de Kurosawa, como tinha energia para levantar a pequena fortuna de 12 milhões de dólares para realizar a produção. E quando eu falo “pequena”, é pequena para os padrões de Hollywood, mas para o Japão certamente que não.
Traduzida como “caos”, ou mesmo “revolta”, a palavra “Ran” exprime o sentimento que move tanto a releitura de O Rei Lear (de Shakespeare), combinada com a história das Guerras Civis do Japão do século 16 e lendas nipônicas, como a produção em si, com inúmeras locações, centenas de cavalos, milhares de figurantes e até um castelo meticulosamente trabalhado em grande escala, construído a um custo de 1,6 milhão de dólares - e queimado - na base do Monte Fuji, sem falar em um tufão (real) que ajudou o diretor a conceber uma sequência importante da trama.
Há 40 anos, Ran vem sendo festejado. Em 2015, foi restaurado em 4K e, neste ano de 2026, voltou ao circuitão de salas comerciais: até então, estava restrito a festivais ao redor do mundo, sobretudo os dedicados às adaptações da obra de Shakespeare, onde era um título obrigatório. Nessa nova leva de exibições, o filme chegou ao Cine Bangüê, onde fica em cartaz ao longo deste mês de outubro.
Lá, na sala de cinema do Espaço Cultural José Lins do Rego, a experiência de ver o longa de Kurosawa na tela grande faz valer o ingresso (que custa módicos R$ 10, a inteira; R$ 5, a meia-entrada): o projetor Barco 4K adquirido pelo Governo do Estado em 2025 valoriza a restauração feita quadro a quadro há 11 anos, tanto na força do colorido das imagens quanto no processo de melhoria do som do filme — o farfalhar do luxuoso quimono da manipuladora Lady Kaede (Mieko Harada), por exemplo, é ouvido com nitidez que impressiona quem só viu o filme em VHS ou DVD em uma TV convencional.
A história é ambientada em um Japão medieval, onde um senhor feudal, já se sentindo velho e cansado, decide abdicar de suas terras e seus castelos em favor dos seus três filhos. O mais velho, segundo o patriarca, passa a liderar o clã e fica com o melhor castelo, para desgosto do filho caçula. Em contrapartida, deve abrigar o pai até o fim dos seus dias.
Mas o pai e o primogênito se desentendem, e Hidetora Ichimonji (Tatsuya Nakadai, esplêndido) parte com seus seguranças e seu inseparável Kyōami, um bobo divertido e sem papas na língua - vivido pelo festejado artista travesti “Peter”, um sucesso na TV japonesa que Kurosawa acertadamente escalou para o projeto -, em busca de guarida junto ao segundo filho mais velho. Também não dá certo. Então só restou o caçula, o que discordou de tudo, rompeu com o pai e largou o clã. E, nessa jornada, Lord Ichimonji vai enlouquecendo.
O longa de 2h40min de duração é o último grande épico de Akira Kurosawa, que estava com 75 anos de idade quando o filme foi lançado, e valeu ao cineasta sua única indicação ao Oscar de Melhor Diretor (o filme foi indicado em quatro categorias, mas acabou vencendo apenas em Melhor Figurino).
Revendo o filme no Bangüê, me ocorreu que o cinema de hoje raramente investe em um épico da mesma escala de Ran. Embora os relatos encontrados na imprensa japonesa da época tenham inflado os números de produção - chegando a afirmar que a obra reuniu cerca de 15 mil cavalos e mais de 120 mil figurantes -, os números reais não são modestos.
Foram utilizados 250 cavalos em cena, dos quais 50 foram levados dos EUA para o Japão a fim de servir como montaria dos personagens principais Figurantes foram “apenas” 1.400, cada um com seu próprio figurino - os mais caprichados foram feitos à mão por artesãos do teatro Nô e Kyogen e levavam cerca de três meses para tecê-los, tingi-los e bordá-los, todos à mão!
Hoje, tudo isso é feito com computação gráfica combinada com inteligência artificial. Porém, são os “erros” humanos vistos na luta do castelo em chamas ou na batalha final entre os clãs que dão um toque de arte que o cinema moderno parece ter deixado de lado em prol de uma exuberância visual completamente artificial e sem graça. Akira Kurosawa, saudades de você, meu sensei!
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de outubro de 2026.