O mundo está um caos. Social, política e religiosamente colapsado. Assassinatos, intolerância, guerra. “Dias de cinza”, como sintetiza o U2 em seu novo trabalho, o EP Days of Ash, é “uma resposta imediata aos eventos atuais e inspirada pelas muitas pessoas extraordinárias e corajosas que lutam nas linhas de frente da liberdade”, conforme conceituou a banda em texto publicado no site oficial do grupo.
Lançado, sem qualquer aviso prévio, na terça-feira (17), em todo o mundo (via plataformas de streaming), o título Days of Ash espelha o tom do repertório, que contém cinco canções inéditas, as primeiras apresentadas pelo grupo em quase 10 anos (ou desde Songs of Experience, de 2017). “Essas canções estavam impacientes para ganhar o mundo. São músicas de desafio e desânimo”, admitiu o vocalista Bono, por meio de comunicado divulgado no dia do lançamento.
O disco é um tapa na cara de quem reclamou do silêncio de uma banda que fez fama pregando justiça social, atuando em favor dos direitos humanos e combatendo as mazelas políticas do mundo. Afinal, o U2 mostra que não fugiu à luta. Temas como o famigerado ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) da era Trump, o protesto contra o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e o genocídio de palestinos na Faixa de Gaza (que provocou polêmica no Festival de Cinema de Berlim deste ano) entram na pauta “cinzenta” do novo trabalho do grupo irlandês.
Musicalmente pobre para quem espera um novo The Joshua Tree ou até algo inovador como Achtung Baby, Days of Ash evoca a sonoridade dos primeiros discos (sobretudo October, de 1981), mas patina com guitarras preguiçosas e cai nos chavões criados pelo próprio U2, que ecoam em grupos como Coldplay. Mas, se o meio deixou de ser a mensagem, a mensagem não desapareceu: está lá, entoada nas letras claras e diretas.
O EP abre com guitarras em fúria para prestar tributo a Renee Good, assassinada a tiros por um agente do ICE em 7 de janeiro deste ano. A letra de “American Obituary” (ou “Obtiario americano”) vai da dor (“Renee Good, nascida para morrer livre / Mãe americana de três (...) Uma bala para cada filho”) à súplica (“Eu não estou bravo contigo, Senhor (...) Poderias impedir um coração de se despedaçar de novo (...) Poderias parar uma bala no ar?”).
A interessante “The Tears of Things” parte da arte renascentista para fazer um comentário político contemporâneo através da escultura de Davi, feita por Michelangelo no início do século 16, aqui utilizada como metáfora para discutir, sobretudo, a condição humana moldada pela dor e pela manipulação religiosa, apresentando críticas ao fascismo e ao Holocausto ao incluir Mussolini e citar “seis milhões de vozes silenciadas”.
De refrão grudento, “Song of the Future” é inspirada nos protestos no Irã, ao mesmo tempo em que celebra a memória de Sarina Esmailzadeh, jovem de 16 anos morta a pauladas pelas forças de segurança do regime iraniano comandado por Khamenei em 2022. “Todos os profetas de sala de aula se esconderam / Uma colegial diz que todo mundo sabe / Que o amor é um verbo, não um substantivo”, canta Bono antes de entoar o refrão em que cita Sarina como “a canção do futuro”.
Antes das duas últimas canções do disco, o U2 apresenta um breve interlúdio, no qual a cantora e ativista Adeola Soyemi recita, em inglês, um poema do israelense Yehuda Amichai (1924–2000), apontado como um dos mais importantes nomes da poesia hebraica contemporânea. O poema apresenta uma reflexão crítica sobre a guerra e o esgotamento coletivo produzido por conflitos prolongados, argumentando que não há heróis, apenas fadiga.
“One Life at a Time” e “Yours Eternally” encerram o curto repertório. Pela revista Propaganda, do fã-clube oficial do U2, descobri que a primeira canção é dedicada ao ativista palestino Awdah Hathalee, consultor do documentário No Other Land, vencedor do Oscar no ano passado. Hathalee foi morto a tiros por um colono israelense em 28 de julho de 2025, e a letra foi motivada pelas palavras de dor de Basel Adra, codiretor do filme.
Para fechar, “Yours Eternally” traz uma mensagem de esperança. Escudada pelos cantores Ed Sheeran e Taras Topolia, a canção tem aqueles refrões em coro (dos quais ainda participam Nadya Tolokonnikova, do Pussy Riot, e Bob Geldof) para serem cantados pelo público nos shows, e li em algum lugar que a vontade do U2 era que a música se tornasse um hino de resistência da Ucrânia — Topolia integra o exército ucraniano e chegou a lutar na linha de frente contra a Rússia.
Mais que um disco de pop-rock, o U2 lançou um manifesto político, difícil de ser ignorado quando se falar da trajetória da banda daqui para frente. Agora, é aguardar o lançamento do álbum completo, prometido por Bono e cia. ainda para 2026.
Através deste link, ouça as músicas do EP Days of Ash
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de fevereiro de 2026.