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Wagner Moura já fez filme na PB, mas pouca gente lembra

publicado: 10/03/2026 09h13, última modificação: 10/03/2026 09h13
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Wagner Moura (de camisa quadriculada) em Cabaceiras, nas filmagens de Romance | Foto: André Cananéa/Arquivo pessoal

por André Cananéa*

Wagner Moura — que, no domingo que vem, disputa o Oscar de Melhor Ator pelo filme pernambucano (nordestino?) Agente Secreto — já fez um filme na Paraíba. Mas isso, quase ninguém lembra. Corria 2007 quando o ator baiano foi escalado pelo diretor Guel Arraes para ser Pedro, o protagonista de Romance, que viria a ser o quarto longa-metragem do cineasta pernambucano.

Depois de três comédias — O Auto da Compadecida (2000), Caramuru – A Invenção do Brasil (2001) e Lisbela e o Prisioneiro (2003) —, Guel se arriscava em um drama metalinguístico sobre uma trupe de teatro que resolve levar Tristão e Isolda aos palcos e, destes, às telas de TV através de um especial em que o conto medieval é transportado para o Sertão da Paraíba (sim, citado explicitamente no enredo), com filmagens realizadas em Cabaceiras, nossa Roliúde, onde Guel havia rodado O Auto da Compadecida quase 10 anos antes.

Em resumo, a trama de Tristão e Isolda tem início quando Tristão vai à Irlanda procurar uma esposa para o seu tio, Marcos, rei de uma província francesa. Ele encontra Isolda e salva-a de um dragão. Ela se encanta pelo jovem guerreiro, e ele pede sua mão em casamento, só que para o tio dele. Decidida a fazer com que Tristão se apaixone por ela, Isolda resolve enfeitiçá-lo com uma porção do amor. Mesmo assim, Isolda casa-se com o rei Marcos, mas mantém o romance com Tristão, amando e sofrendo até morrerem juntos, de forma trágica.

Pedro, personagem de Wagner Moura em Romance, é o ator alçado à condição de diretor. No palco, assim como na vida, faz par romântico com a colega Ana (Letícia Sabatella). Ao aceitar realizar o especial para TV, ele viaja ao Nordeste junto com Ana, mais a produtora Fernanda (Andrea Beltrão) e o namorado dela, Orlando (Vladimir Brichta). Os quatro acabam emaranhados em um semi-quarteto amoroso.

Em fevereiro de 2007, Guel Arraes e sua equipe ficaram instalados pouco mais de 10 dias em Cabaceiras, conforme registrado aqui mesmo, no Jornal A União da época. Em um desses dias, fui fazer uma visita ao set de filmagens, no Lajedo de Pai Mateus, e pude acompanhar um dia inteiro de gravações, que incluía uma cena cômica em que o ator Rodolfo (Marco Nanini, uma participação especialíssima) reclamava de seu figurino à produtora Fernanda e ao diretor Pedro nas gravações da versão sertaneja de Tristão e Isolda.

Wagner Moura já tinha despontado no cinema — havia feito Carandiru (2003) e Cidade Baixa (2005) —, e 2007 seria importantíssimo para a carreira dele: naquele ano ele estrelaria Tropa de Elite no papel do irascível Capitão Nascimento e a comédia Saneamento Básico, o Filme, ao lado de Fernanda Torres.Além do cinema, ele ganharia o Brasil no papel de Olavo, par romântico de Bebel (Camila Pitanga), e é lembrado até hoje, nas redes sociais, por bordões como“Você é a cachorra mais burra aqui deste calçadão... Porque só você ainda não viu que eu amo você também”. Portanto, ao estrear, em novembro de 2008, Romance contava com mais um nome estelar recém-saído do forno.

O filme de Guel Arraes teve uma pré-estreia concorrida em João Pessoa, no dia 11 daquele mês (chegaria aos cinemas de todo o país dali a três dias), lotando duas salas no Box Cinemas (atualmente, Cinépolis), com a presença do diretor, de Letícia Sabatella e da produtora Paula Lavigne, que já havia feito Lisbela e o Prisioneiro com o diretor pernambucano.

A participação de Paula também garantiu uma belíssima versão de Caetano Veloso para “Nosso Estranho Amor” no filme de Guel Arraes. A canção de Caetano foi lançada no LP *Olhos Felizes* (1980), na voz de Marina Lima em dueto com o autor, que, para o filme, fazia sua própria gravação.

Em meio aos encontros e desencontros amorosos dos personagens, o roteiro de Guel (em parceria com seu fiel escudeiro, Jorge Furtado) traça diversos paralelos entre atores e atrizes, personagens e produtores e a narrativa do texto surgido no século XII. Com ótimas tiradas escritas pela dupla de roteiristas, o enredo do filme aproveita para criticar a superficialidade das produções para TV, ramo que tanto Guel (que chegou a dirigir o saudoso TV Pirata para a Globo) quanto Jorge conhecem bem.

Subestimado, o ótimoRomance mostra que não resistiu ao tempo. Quase 20 anos depois, segue esquecido na memória do cinema brasileiro. Ele chegou a ser lançado em DVD pela Buena Vista (do grupo Disney), mas hoje é difícil de encontrar até em plataformas de usados e oficialmente não chegou ao streaming, muito embora, até a publicação deste texto, pudesse ser visto no YouTube em canal não autorizado.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de março de 2026.