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Resenha

A ironia da liberdade dentro de uma detenção

publicado: 15/04/2026 08h54, última modificação: 15/04/2026 08h54
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Na alegoria “2.0” de A revolução dos bichos, porcos, cavalos e ovelhas são substituídos por gatos, cães e coelhos | Imagens: Divulgação/Taverna do Rei

por Audaci Junior*

Fábula satírica publicada no pós-Guerra, o inglês George Orwell (1903–1950) mostra as entranhas do poder absoluto que corrompe, fazendo uma alusão com animais de uma fazenda que rebelam-se contra o explorador dono humano, buscando igualdade e liberdade. Quando os bichos assumem o controle, pautam uma espécie de “constituição” com os princípios pintados numa parede do celeiro. Inicialmente, é uma sociedade ideal, que começa a ruir conforme o regime degenera-se para uma tirania pior do que a original. 

Inspirada em Orwell, obra troca o ar rural da fazenda pela claustrofobia urbana da detenção de animais

Com um enorme salto — colocando uma distância de 80 anos — aterrissamos num outro recorte tirânico, promovido pelos Estados Unidos da “era Trump”, na qual o ICE (Immigration and Customs Enforcement) — a agência federal de polícia de imigração norte-americana — age com mão de ferro a promessa do atual presidente, detendo e deportando imigrantes indocumentados dentro do país, levando muitos casos com truculência e injustiça para as grades dos centros de detenção desumanos, que não acomodariam nem os animais de fazenda.

Por que traçar esses dois paralelos, envolvendo a ficção A revolução dos bichos e a realidade trompista, podemos chegar ao denominador comum que é O abrigo dos animais (Editora Taverna do Rei, 176 páginas), uma distopia autoritária trazida pelo roteirista Tom King e pelo desenhista Peter Gross, com as cores da Tamra Bonvillain. 

Ex-agente do departamento contraterrorismo da CIA (Central Intelligence Agency) — o principal serviço de inteligência estrangeira dos EUA —, King (do ótimo O xerife da Babilônia) não esconde a sua base orwelliana contextualizada já na sua introdução. “No entanto, já não é um alerta urgentemente relevante que foi um dia”, aponta o escritor. “A ameaça atual do fascismo não vem mais da perversão dos ideais da esquerda olhando para o futuro, mas sim de vigaristas que distorcem os ideais da direita olhando para o passado”. 

A trama troca o ar bucólico (e opressivo) rural para o ar poluído (e opressivo) urbano, focando em gatos, cachorros e coelhos que foram enjaulados pelo controle de animais. Detidos em gaiolas claustrofóbicas para “virar sabão”, no mais clichê dos jargões.

Porém, há um cão orgulhoso e sábio chamado Bento, que, por um buraco entre as salas de detenção, vai inspirar e encorajar uma gata — a Madame Fifi — para promover uma revolução contra os que andam em duas patas. Expulsando os humanos do recinto, aparecem novas dificuldades e desafios: a fome, a “rixa” entre as espécies e o estabelecimento de bases para essa nova “democracia” animal.

Resumindo para “deixar as portas abertas”, King com a arte funcional de Gross (de O inescrito) faz bons paralelismos, brincando com as palavras e colocando situações que devem ser encaradas como alegorias, pois não irá funcionar a leitura caso transpô-la para o pé (ou pata) no chão da realidade.

Com boas reflexões, diálogos inteligentes e uma ironia fina (ter liberdade dentro de uma detenção), O abrigo dos animais tantoladra, como também morde.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de abril de 2026.