Uma das minhas primeiras lembranças da narrativa única e atrativa do mangá — inclusive, em uma época que estava começando a usar esse termo para os quadrinhos japoneses — foi no ano de 1992, quando a Abril Jovem lançava Mai — A Garota Sensitiva, apresentando as suas principais características: arte em preto e branco, muita ação e pouco texto (hoje em dia, já é conhecido que há obras que nem sempre são “enxutas” assim com as palavras).
A minissérie em oito partes tinha roteiro de Kazuya Kudo e arte de Ryoichi Ikegami, este último um veterano do ofício, que também empresta seu traço peculiar em Sanctuary, cujo primeiro volume está saindo pela editora JBC.
Também foi no começo dos anos 1990 — quando as páginas ainda eram espelhadas (originalmente, a leitura do mangá é “de trás para frente”) e as onomatopeias, traduzidas — o lançamento do Sanctuary no Japão (1990–1995), o que pode explicar (e muito) o contexto apresentado na sua trama escrita por Sho Fumimura, mesmo autor de Hokuto no Ken, série inspirada nos filmes pós-apocalípticos da franquia Mad Max e também publicado pela JBC (detalhe: ele assina como Buronson). 
Passado mais de três décadas, o público tem que ler o thriller policial e político com foco da época (não é à toa que a sinopse da quarta capa trata a obra com “toques de cinema noir”). Um exemplo é a misoginia e o sexismo apresentado nesses primeiros capítulos. Apesar orbitar ao redor da “máfia japonesa”, ainda podemos ver uma personagem feminina como autoridade da polícia metropolitana de Tóquio com certo protagonismo (“O orgulho de uma mulher é muito maior que o dos homens!”, ela chega a dizer, em determinado momento). Mas para por aí. O resto, é testosterona abaixo.
O grande tema de Sanctuary é a ascensão. Dois amigos, duas escaladas diferentes em mundos completamente iguais. Chiaki Asami é secretário de um político corrupto e Akira Hojo, chefe de uma gangue da Yakuza. Quando Asami, após ameaçar um membro do parlamento com um escândalo, entra para a política declarando a sua candidatura para derrubar a nunca renovada bancada desonesta de velhos e institucionalizados gestores, Hojo lhe mostra o caminho para o poder. A motivação é transformar um país, no qual eles “acordem” as pessoas acomodadas e pouco preocupadas com o futuro. Assim, o Japão poderá ser um “santuário particular”.
Mesmo sendo um excelente desenhista, com domínio nas cenas de ação, diagramação arrojada e ângulos idem, Ryoichi Ikegami peca pelas fisionomias muito parecidas dos personagens. Não é uma exclusividade aqui, vide séries como a já citada Mai e Crying Freeman. Se não estiver atento ao corte de cabelo ou determinado adereço do personagem, é impossível não voltar as páginas para ter certeza de quem está em cena.
Outro detalhe interessante na arte é como os “heróis” e os “vilões” são retratados: os primeiros mais esbeltos e bonitos; os outros mais “sujos” e feios. Apesar de certo grau de violência e erotismo “velado” (a classificação indicativa é de 18 anos), inicialmente o protagonista da Yakuza não atira para matar, deixando evidente o seu papel de “bom moço” até o gancho final da edição. O que promete para os próximos volumes.
Por falar em “continuação”, não é a primeira vez que Sanctuary é publicada no Brasil. A editora Conrad tinha lançado seis volumes (de 12), entre 2007 e 2008, mas a série foi descontinuada. Agora, a JBC retoma a coleção, sob o selo Perfect Edition, com volumes mais “robustos” (o primeiro tem 368 páginas), em apenas sete edições.
Desta vez, a obra encontrou o seu verdadeiro santuário...
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de janeiro de 2026.