Não parece ser a primeira vez da francesa Sixtine Dano. A “régua” de qualidade foi lá para cima já na sua estreia como quadrinista, tanto em questão de narrativa visual quanto no caso de elaboração do roteiro/história.
A maneira como ela domina e manipula a luz e a sombra — uma mistura de nanquim com carvão — é tão elegante quanto edificar cada quadrinho com “vida”, seja na pulsação de seus personagens, seja nas veias urbanas noturnas parisienses. Virtude herdada pela autora ser uma mestra em cinema de animação.
Sobre o levantamento tridimensional da sua protagonista, que leva o nome da sua primeira obra — Sibylline: Crônicas de uma acompanhante (Comix Zone, 256 páginas) — Dano foi atrás das fontes para fincar os pés da sua ficção na realidade: por cerca de dois anos, a quadrinista ouviu diversas estudantes que atuavam como acompanhantes de luxo na capital francesa, além de homens que contratavam esse tipo de serviço. 
Essa documentação do mundo da prostituição serviu para criar Raphaelle, uma jovem de 19 anos de idade que se muda para a “Cidade Luz” para cursar Arquitetura. Os pais ajudam a garota na mudança para uma modesta quitinete. Seu pai desembolsa poucas centenas de euros julgando ser o suficiente para ela se manter entre uma aula e outra, ainda sem o auxílio de uma bolsa ou um estágio na área.
Nos cálculos hipotéticos é um resultado, mas para os complexos números da realidade, a corda no pescoço vira uma instável corda bamba. São caríssimos livros indicados pelos professores (sendo eles próprios os autores egocêntricos), que não abrem margem para estudar arquitetas mulheres, busca pelo material mais em conta para as maquetes do final de período e outros afazeres acadêmicos, que obrigam Raphaelle a servir chope à noite para tentar chegar em números melhores na ponta do lápis quando o mês acaba.
Nas longas conversas sobre a vida com a sua melhor amiga de faculdade, surge o assunto de ser acompanhante e o quanto isso rende monetariamente — bem mais do que uma mesada ou ficar a noite toda servindo chope —, o que faz Raphaelle trocar e cadastrar o seu nome por Sibylline num aplicativo para tal finalidade.
Consciente, Sixtine Dano não glamouriza e muito menos vitimiza ou julga as jovens que buscam essa alternativa financeira diante da encruzilhada existencialista dessa transição para a vida adulta. A obra também aborda a exploração da feminilidade e as relações de poder numa sociedade estruturada pelo patriarcado e pelo capitalismo. Há, inclusive, um monólogo que vira um “devaneio” à la Broadway sobre a experiência de ser acompanhante.
Sibylline examina também a mercantilização do corpo feminino e as questões de autonomia. Para as circunstâncias, a protagonista utiliza os seus próprios termos, gerenciando a dinâmica de poder em seus encontros do mesmo jeito que lida com o peso emocional das suas escolhas.
Uma deslumbrante HQ, tanto na forma quanto no conteúdo. Como bônus, o público do Brasil é apresentado à cantora franco-armênia Solann, que assina o prefácio da edição e “canta”, em tom pop melancólico, a bela “Narcisse”.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 10 de junho de 2026.