Notícias

Resenha

Quando os olhos tristes do menino se cerram

publicado: 18/03/2026 08h58, última modificação: 18/03/2026 09h13
paulo melo e sávio.jpg

Sávio (ao lado do assistente de direção Paulo Melo) nos bastidores de Menino de engenho | Fotos: Arquivo pessoal

por Audaci Junior*

Uma das últimas vezes que me encontrei com Sávio Rolim, ele me desposou: tirou um anel que tinha num dos seus anelares e fez questão de colocar no meu dedo. Guardo essa “aliança” até hoje.

Antes de conhecer Sávio pessoalmente, eu já tinha visto seus “olhos tristes” quando encarnou o personagem zeliniano Carlinhos, na adaptação de Menino de engenho (1965), um filme de Walter Lima Jr. rodado inteiramente na Paraíba.

Meu primeiro contato com Sávio fora das telas foi por conta de fazer boa parte da câmera e corroteirizar o documentário O menino e a bagaceira (2004), de Lúcio Vilar. Cerca de um ano antes de finalizarmos o curta-metragem, fomos onde ele estava morando, no porão de uma pensão no Centro de João Pessoa. A informação é que Sávio tinha sido atropelado recentemente, por conta da sua bebedeira. Vilar foi na frente para ver se ele estava bem. Pediu para descer com a câmera ligada, mas que tomasse cuidado, por não saber da reação de Sávio — que tinha as chagas da dependência química, dos problemas de saúde e do abandono. 

Sávio, em Cajazeiras, protagonizando o curta documental O menino e a bagaceira

Do percurso que a câmera faz até a imundice daquele porão, a lente não enquadra o seu olhar no protagonista. Esse “receio” meu de não focar de imediato naquele homem, que mais parecia ser o bicho dos versos de Manuel Bandeira, deu o norte nas quase 10 horas de material bruto que tínhamos gravado: primeiro ato, vamos destrinchar o Menino de engenho sem mostrar o Sávio naqueles “dias atuais” de mais de 20 anos atrás; no segundo ato, vamos revelar os caminhos tortuosos que ele passou; e, por fim, no derradeiro ato, vamos desbravar as trilhas do passado e da memória nas locações do filme (em João Pessoa e Pilar), além de visitar a sua terra natal, Cajazeiras, no Sertão paraibano.

Apesar das suas excentricidades, Sávio era uma pessoa muito aprazível e meiga. Bebendo o que só poderia julgar ser um destilado caseiro no nosso primeiro contato, Lúcio Vilar pediu para ele ficar sóbrio, pois em poucos meses nós iríamos para Pilar e Cajazeiras para gravar as cenas e os depoimentos. No dia da viagem, lá estava ele, totalmente sóbrio, no batente da hospedaria, reclamando que estava ali desde as 5h. O mais impressionante é que ele me reconheceu de imediato, mesmo sem a minha habitual barba.

O documentário rodou por diversos festivais do Brasil, carregando consigo 38 prêmios. Na época, um dos feitos do curta foi aproximar pai e filha.

Há muitas histórias de bastidores que poderia contar aqui, mas o espaço exige o seu vácuo. Sávio Rolim nos deixou na última quinta-feira (12). Assim como Carlinhos, pegou o trem para a eternidade, deixando “viúvos” os desposados com a sua amizade.

Através deste link, assista ao documentário O menino e a bagaceira no Youtube

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de março de 2026.