Notícias

Resenha

Um escape da vida ou um enfrentamento da realidade?

publicado: 14/10/2026 09h13, última modificação: 14/10/2026 09h13
Giuseppe Bergman - capa - PN.jpg

Imagens: Divulgação/PN

por Audaci Junior*

“Com as aventuras de Giuseppe Bergman, busquei analisar a relação que todos nós temos hoje em dia com nossas ambições e nossos sonhos, que a vida muitas vezes nos obriga a ignorar”, explica Milo Manara na apresentação do compilado de uma das suas obras mais famosas.

Deixando (só um pouquinho) de lado a sua alcunha de “mestre do erotismo”, o veterano italiano oferece a “prova dos nove” de que as grandes aventuras residem na autodeterminação do ser humano.

Adornado de detalhes, exemplos de estilos do Milo Manara em pena e nanquim de A odisseia, de Giuseppe Bergman

São cinco álbuns reunidos em Giuseppe Bergman: aventuras completas 1980–2004 (Editora Pipoca & Nanquim, 580 páginas). Caso Manara tenha se mostrado um roteirista mediano e “engraçadinho” nas suas confusões eróticas, aqui ele comprova que sabe lidar com temas mais sérios e sabe conduzir uma trama metalinguística. Não é à toa que sempre cita seus amigos e conterrâneos, o cineasta Federico Fellini (1920–1993) e o quadrinista Hugo Pratt (1927–1995). Inclusive, o mestre do Bergman — chamado de HP — é a cara do “pai” do aventureiro Corto Maltese. 

Não pense que foi abandonado o bom-humor (afinal, Fellini, Pratt e companhia usavam esse recurso muito bem). Mesmo passados mais de três décadas, a primeira história — que tem como cenário Veneza e “dá um pulinho” na América Latina (especificamente na Amazônia colombiana) — apresenta o Giuseppe Bergman frustrado e que vai começar a se livrar dos grilhões do sistema, para se aventurar mundo afora, por bem ou por mal. Interessante ver como Manara deixa o erotismo em segundo plano para seguir livre na crítica social e no realismo mágico.

Uma grata surpresa vem em Os dias da ira (1983), que se passa na África, como também pelo roteiro da HQ, literalmente. Nos “bastidores”, a atriz chega atrasada e diz que não vai interpretar a personagem principal, sobrando para a figurinista cair de paraquedas na empreitada metalinguística e surreal. Autoconsciente, uma das personagens que acompanha o roteiro à risca é taxativa: a presença da protagonista é apenas para ser um componente erótico para a história.

Já Sonhar talvez (1989) coloca Bergman numa jornada pela Índia, continuando com a autodescoberta do personagem norteando seu espírito de aventura, trazendo também reflexões filosóficas e o tom surreal da série.

Saindo do estilo pena e nanquim, o autor vai dar mais profundidade aos seus desenhos com o uso dos tons de cinza da aguada em Rever as estrelas (1998), definitivamente a sua melhor obra solo. 

Aguada de Rever as estrelas

Verdadeira ode às artes, Bergman encontra uma misteriosa garota que “encarna” literalmente as personagens presentes nos quadros e desenhos de um livro de História. Se ela observa Ofélia, de John Everett Millais (1829–1896), ela mimetizará a mesma cena de afogamento da personagem shakespeariana. Do mesmo jeito, diversos ícones das artes de várias épocas — como Édouard Manet (1832–1883) e Gustave Doré (1832–1883) — são reverenciados.

Por fim, uma reverência à obra de Homero com o título autoexplicativo: A odisseia de Giuseppe Bergman (2004).

Duas dessas obras compiladas pela Pipoca & Nanquim saíram pela Martins Fontes (o primeiro, HP e Giuseppe Bergman e Sonhar talvez, respectivamente em 1988 e 1989), além do Rever as estrelas ter saído em uma edição da Heavy Metal brasileira (número 22, no mesmo ano que foi publicado originalmente, 1998). A edição tem formato 21 x 28 cm, impresso em offset, com cadernos coloridos de extras e capa dura com verniz localizado.

Mais do que um alter ego de Milo Manara, Giuseppe Bergman é — acima de tudo — um sonhador que sabe a resposta para a derradeira questão: Afinal, aventura é escapismo ou cultura?

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de outubro de 2026.