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“Da bagaceira ao mel”

publicado: 16/03/2026 08h49, última modificação: 16/03/2026 08h55

por Gonzaga Rodrigues*

Tento compensar a surdez com a leitura. Mas não é fácil a quem viveu e aprendeu mais de ouvir e conversar que mesmo de ler. O que mais aprendi veio pronto do saber do outro, dos que a eles me acostei desde o Pio XI, com as peremptas lições do livro e do homem vindas do meu professor de Admissão,e pelos mestres que o dom da amizade vêm me facultando até hoje.Aqui e ali, desde que escrevo, eles voltam ao enfado provinciano destas curtas linhas.

O desabafo vem por conta dos eventos da minha devoção a que tenho faltado. Às falas da Academia, sejam no bate-papo ou nas próprias do auditório. Nas reuniões da Casa de José Américo ou em eventos como esse da última quarta-feira com o lançamento de livros resultantes do seminário promovido por aquela Fundação em 2024, a que já não pude comparecer, para não ficar, como surdo, vendo peixe no aquárionaquele abrir e fechar de bocas.

Como um dos organizadores, a professora Janete Lins Rodriguez, diretora do Museu, antecipa ao leitor o essencial da obra coletiva  Da Bagaceira ao Mel

“Seria um guia para empresários, para a gestão governamental, para professores, pesquisadores, enfim para todas as pessoas quese interessam e querem ver a Paraíba mais próspera. Reunimos textos nas áreas de educação, arte, justiça, infraestrutura, ciência e tecnologia, paleontologia, turismo. É uma obra que pode servir também de inspiração e referência para outros estados brasileiros”.

Vejamos bem: estamos no terceiro decênio do século XXI a extrair ouro de uma mina lavrada no início do terceiro decênio do século XX. Não somente extrair mas a indicar como o ouro se extrai. Tive a sorte, a brejeirice ou os pendores para a amizade, deouvir muito disso ou quase tudo ao vivo, somente os dois ou em companhia de Aurélio Albuquerque, Adalberto Barreto, Nathanael Alves ou umJuarezBatista, que nos faz reviver esse convívio em Retratos e Perfis.

Está aí o centenário de um livro elaborado e escrito (para não dizer redigido) por encomenda do antigo DNOCS e logo visto pela inteligência do país de 1923 como “o primeiro estudo sólido, de conjunto, sobre a estrutura física e cultural “ do Nordeste (Josué de Castro). Relatório, sim, mas com a advertência de um autor considerado imodesto que, tratando das obras de Epitácio Pessoa na região, dirige-se a ele, ao final do prefácio, nos termos seguintes: “O título A Paraíba e seus Problemas é, exageradamente, compreensivo. Mas, reportei-me apenas às soluções fundamentais como ponto de partida de todo o nosso progresso.” E logo em seguida: “Mas o sr. Epitácio Pessoa gostará de ver que me impressionei mais com a sua obra do que com o seu nome e menos com a sua obra do que com a sua terra”. Já era a autoridade do intelectual de vida retirada nos livros, visto com cerimônia e respeito sem ter alcançado ainda o cume da vida política e da consagração literária. Aos 73 anos, ele próprio reconhece: “A Paraíba e seus problemas é o quetenho de melhor, embora um pouco enfático”.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de março de 2026.