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A janela de Ivonaldo

publicado: 30/03/2026 08h47, última modificação: 30/03/2026 08h47

por Gonzaga Rodrigues*

Com o passar do tempo a gente vai se recolhendo, sumindo dos lugares onde foram sedimentadas as melhores afeições, sem distinção das pessoas ou do lugar em si. Também a vida desses lugares dependia da nossa. Onde está o Cabo Branco dos meus antigos intervalos de redação, a dois passos do antigo jornal da Duque de Caxias? Dos meus dedos de prosa com Dr. Celso Mariz, com Rubin Falcão, com Mário Santa Cruz, com Luciano Wanderley, com Rivadávia Pereira? O meu Cabo Branco, que era a sede central, sustentava-se desse espírito de convivência?

Já no fim desses tempos, a maioria das almas já livres das fadigas do corpo, Wellington Aguiar ainda entre nós tentava despertar meu interesse em voltar a esquentar aquelas cadeiras. “Por que não aparece?- estou lá todo fim de tarde”. Levou tempo a se convencer de que só contava com a própria companhia. Os que o rodeavam, como a própria sala em que se sentava, nada mais conservavam do ambiente e a prosa que remanesciam no seu espírito. E terminou ausentando-se, entregando-se ao convívio sempiterno dos seus livros de memória da cidade.  

Onde ainda me soprava um bafejo dessas fontes de identidade e até de ternura, era da janela com formato de crônica social de Ivonaldo Correia, aberta a todas as manhãs.  E de onde, vez em quando, aparecia um riso, um olhar, um retrato representativo da simpatia bem-comportada da cidade em que fui aceito e a que aderi sem inveja nem cobiça de outras ofertas mais ricas de encantos metropolitanos. Não foi pensado ou falso o meu desabafo ao pisar na escada de um avião para uma ausência de poucos dias: “Nunca subi a escada de um avião que já não fosse pensando na volta”.  Está em meu livro Notas do meu lugar. Não é uma bela frase, mas é  verdadeira, consequente de meu apego ao destino que a vida me legou. E daí para mais dentro, Campina Grande, meu Brejo de coronéis e de meninos cambados.

Otinaldo Lourenço mangava de um bom homem, um grande amigo nosso, Arquimedes Cavalcanti, jornalista, historiador versado na Revolução de 1817, que levado a Paris pelo presidente Clóvis Bezerra, da Assembleia, não saiu do quarto de hotel. Alegou enxaqueca e da janela mesmo, numa rua suja, se bastou por dois ou três dias inteiros.

Comigo não foi diferente: levado por um filho e esposa aleguei cansaço e os liberei para a Paris da sua escolha; e o que vi, além do Sena em toda parte, foi o que ficava no caminho do Louvre. Vendo por cima e não foi pouco. É que ainda não havia chegado a Minha Paris do sociólogo e filósofo Edgard Morin, a Paris das prostitutas e fanfarrões e, sobretudo, “de suas tribulações pelos diferentes bairros da capital francesa a nos convidar a fazer parte da sua história.”

Um roteiro, um grande guia, mas agora até o Ponto de Cem Réis fica longe.

A Emerson Barros de Aguiar: Demorei esses dias todos tentando agradecer a felicidade do seu artigo sobre meu modo de escrever. Martinho Moreira Franco, Luiz Crispim, Agnaldo Almeida e o Ivonaldo dos velhos tempos foram e continuam testemunhas do meu emperro em busca da expressão mais apropriada ou dessa graça raramente alcançada. Sua leitura, no seu estilo, veio me dizer que vale a pena o sacrifício.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de março de 2026.