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As rosas de Malherbe

publicado: 27/04/2026 08h46, última modificação: 27/04/2026 08h46

por Gonzaga Rodrigues*

Alô, tudo bem, tio?

Tio... Que voz é essa, quem será? E contive a pergunta para evitar as suspeitas de leseira tão comuns em interlocutores de minha idade. Ouvi, então, o que jamais poderia suspeitar na vertigem destes dias em que só as mangas de Livramento, burgo insulado ali à beira do Gargaú, insistem em manter seu tempo e a delícia original dos seus sabores mesmo em fim de safra.

Livramento, suas mangas e sua igrejinha, tão simples, tão despojada de ornatos monumentais que, por isso mesmo, mais se acentua a sua beleza natural.

“Tio...Que rosas de Malherbe são essas?”, foi bem o que escutei. E não me achei em tempo de indagar por que essas rosas agora, a ânsia tão em cima e as rosas tão distantes, há mais de três séculos fenecidas!

Fala-me a “sobrinha”, filha de uma amiga, da aflição penada há um mês pelos de sua casa —  mãe, pai, e por ela, principalmente — com a morte da irmã a ela encostada, descida ao seio da terra em seus  dezesseis anos! E dentre as mensagens de consolo — confessa — vem à tona a que fala das tais rosas de Malherbe...  “Que rosas são essas, preciso saber.”

No tempo em que essas rosas me apareceram ainda não existia internet. Eu também ainda não tivera, graças a Deus, motivação súbita e direta de saber de onde vêm essas rosas. Mas não fiquei infenso quando, pela primeira vez, as vi invocadas numa crônica de pesar dedicada por Juarez Batista a um amigo em circunstâncias iguais às dos versos desse Malherbe.

Juarez, como o primo Virginius, herdaram do ancestral erudito, dr. Antônio da Gama e Melo, não só a biblioteca que ornava as quatro paredes do sobrado desse grande exemplar de homem público e de correção moral, de uma mesma estatura fosse simples cidadão, professor do Liceu, intelectual ou governador do Estado. Sobrinhos e tios da mesma rua e certamente da mesma biblioteca.

Talvez seja eu um dos últimos entre os velhotes desta cidade que ainda acredita e espera —  igual à fachada sem coberta que ainda se mantém em pé — venha o sobrado de tantos significados a ser restaurado.

Como não tive uma Dona Maury, privilégio dos liceanos Carlos Pereira de Carvalho e Martinho Moreira Franco na paixão pelo francês da professora, foi preciso esperar pela antologia salvadora de R. Magalhães Junior para sentir, de forma indelével, como uns versos sem rima encomendados para uma dor do ano de 1600 estenda seu sortilégio às dores e desconsolos de todos os tempos. 

A tradução de Modesto de Abreu foi a preferida pelo antologista. Tudo tão sutil na breve manhã! 

E não ouso tentar, infortunado amigo

aliviar-te a pena (...)

Mas... pertencia ao mundo, onde as mais belas cousas 

Têm vida curta e vã;

Suponhamos, porém que, ouvidos teus lamentos,

Lograsse ela alcançar

Longa vida e adiar seus últimos momentos

Que iria ela lucrar?

E, rosa, ela viveu o que vivem as rosas:

uma breve manhã.”

São dezesseis estâncias, quatorze das quais servem de jarro para o eterno viço das “rosas de Malherbe”.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de abril de 2026.