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De opúsculo a livro

publicado: 23/03/2026 08h41, última modificação: 23/03/2026 08h41

por Gonzaga Rodrigues*

José Maria dos Santos, paraibano nascido em João Pessoa,precisamente em casa e cartório na antiga Rua da Baixa, núcleo que, como parada do bonde, virou o Ponto de Cem Réis, foi jornalista e escritor de repercussão no país que a Paraíba cultural desconhecia.

O pai, negro liberto e premiado com cartório por sua participação na guerra do Paraguai, cedo encaminhou-o à Escola Militar, daí sua participação na campanha final de Canudos e, de 1902 a 1903,no conflito do Acre. Num conto antológico reunido em coletânea organizada porGraciliano Ramos, a visão ou sensibilidade do aluno da Escola Militar vem se revelar no escritor de expressão opulenta, versátil, solicitada pelo narrador do ensaio histórico ou do conto antológico: “O pavor que nos infundia a desolação espalhada pelas ruínas de Canudos, onde tínhamos visto tanta gente morrer na ferocidade dos combates. Pareceu-nos cada vez mais triste aquela região devastada, que, naquele instante, sob a luz forte do meio-dia, estendia-se à nossa frente num extenso entulhamento de escombros calcinados.”

Mas é no jornalismo, iniciado em Manaus, que a pesquisa de Flávio Ramalho de Brito vem encontrá-lo, cento e vinte anos depois, daí se consagrando no Rio e São Paulo, seja nas redações ou como o escritor empenhado em demonstrar como o presidencialismo copiado da Constituição norte-americana conflita com a tradição democrática do povo brasileiro disseminada nos cinquenta anos do segundo reinado. Seu livro sobre a participação das elites republicanas paulistas nas lutas abolicionistas, sejam nas ruas ou na proteção aos escravos salvos da caça sangrenta dos capitães de mato pela grande empresa libertadora dos caifazes lideradas pelo fazendeiro Antônio Bento, aliado ao Luiz Gama. E a quem veio juntar-se a cúpula do Partido Republicano Paulista com lances que nos parecem inéditos.

Há vinte e cinco anos, motivado por uma série de opúsculo que A União Editora dedicou aos paraibanos do século XX, e tocado pela leitura do conto selecionado por Graciliano Ramos, empenhei-me em trazer à luz esse paraibano ausente dos quadros e galerias do Instituto Histórico e da Academia Paraibana de Letras. Valendo-me das informações e dados a mim confiados pelo poeta e biógrafo Eduardo Martins, cheguei não mais que a um perfil carente de pesquisas, como bem viu o confrade José Octávio, embora enriquecido na abertura pela primeira análise e interpretação de Tarcísio Butity, um estudioso da História e da Política fortemente surpreendido pela leitura de “A Política Geral do Brasil”, o primeiro grande livro de JMS.

Por tudo isto e com pequenos acréscimos que fui colhendo nestes vinte e cinco  anos, animei-me a converter aplaquette em livro tendo em vista uma nova geração de leitores. Se, com a publicação do livro, conseguirmos ao menos fazer com que José Maria dos Santos volte a caminhar entre nós — discreto, mas vivo — já terá valido a pena o gesto de chamá-lo de volta.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de março de 2026.