Mesmo sem qualquer registro no calendário do dia a dia, extinto o feriado no alvoroçode 1930, as celebrações do 13 de maio de 1888 continuam sendo as mais celebradas de toda a história cívica dos brasileiros.“Durante um mês inteiro, os comícios patrióticos, as passeatas, as marchas, as sessões magnas, os espetáculos de gala, os bailes e os concertos se multiplicando pelas cidades sob o contínuo repicar de sinos e o crepitar de girândolas intermináveis”. É assim que um negrinho de 11 anos, nascido antes do Ponto de Cem Réis, cinquenta anos depois consegue descrever os dias apoteóticos de toda a nação, tanto de libertos como de libertários, que se seguiram dia após dia ao 13 de maio, hoje data fora dos calendários ou de qualquer registro na era das comunicações. Eis José Maria dos Santos.
Sabe-se que o contingente negro na guerra do Paraguai foi o de maior peso. E foi a eles, aos negros, pouco antes de começar a travessia do rio Paraná, queo general Osório, ao passar em revista o seu exército, repetiu os termos de uma breve ordemdodia que assim se resumia: “ Soldados!É difícil a missão de comandar homens livres: basta mostrar-lhes o caminho do dever: o nosso caminho está ali em frente”.
Aquela bem acolhida e feliz expressão “homens livres” teve sobre a tropa o efeito deuma eletrização inesperada e irresistível. “Os homens, sem distinção de cor e de raças, abraçavam-se a rir e a chorar como crianças, prorrompendo logo em estrondosas aclamações ao seu grande chefe” – são suas palavras ainda impressas num livro de papel encardido pelo tempo,Os Republicanos Paulistas e a Abolição,livro que José Maria escreve sob o ângulo da luta abolicionista em São Paulo fervorosamente iluminada e fermentada pela poesia social de Luiz Gonzaga da Gama, nascido escravo, a que aderem as lideranças não só intelectuais como políticasde então, destacando-seo fazendeiro Antônio Bento a garantir abrigo e trabalho remunerado aos escravos que conseguiam escapar fugidos com o apoio da campanha dos seus caifazes.
Foi lendo uma antologia brasileira de contos de 1957,organizada sob o critério regional por Graciliano Ramos, que nos surpreendemos com o nome de José Maria dos Santos a representar a Paraíba. Nem José Américo, nem José Lins do Rego, José Vieira ou Allyrio e sem qualquer nota biográfica comum às seletas. Até que surgiu, em 1960, seu último livro, Bernardino de Campos e o Partido Republicano Paulista com uma nota de orelha que, além de sua origem, já fazia denotar a importância e o tipo de espírito do autor. Tratei de ver quem era.
Com a pesquisa inicial há tempo levantada por Eduardo Martins, consegui compor um perfil que fizesse parte da série reunida por A União editora — Os Paraibanos do Século — sob o formato de plaqueta. Decorridos vinte e cinco anos, formada uma nova geração de leitores, julguei que o interesse pela obra desse grande paraibano não esteja esgotado. A Política Geral do Brasil, considerada obra de referência, vem sendoreeditada e reimpressa em Belo Horizonte. Já O Partido Republicano Paulista e a Abolição, da antiga Livraria Martins Editora, S. P, 1942, é que estará a exigir interesse dos nossos órgãos culturais em trazê-lo de volta, por amor aos nossos valores, sobretudo numa fase em que, da brochurazinha maltratada de 1928 passamos a um centro editorial em condições de competir com qualquer mercado.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de maio de 2026.