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O placet de Coriolano

publicado: 19/10/2026 09h33, última modificação: 19/10/2026 09h33

por Gonzaga Rodrigues*

Não sei se melhor seria envelhecer por igual física e mentalmente — o descenso em harmonia com o corpo e a mente — ou ter o juízo a andar sem obediência ao fôlego e à disposição das pernas e dos pés

Com a decadência por igual, cabeça e pernas no mesmo tropeço, talvez mergulhássemos menos fundo em nossas depressões. Conformados, propositalmente resignados

Vem ao caso, na minha lembrança, meu primeiro e único instante com o mestre Coriolano de Medeiros. Mestre desde os primeiros passos do professor do ensino comercial, patrono da Escola de Artífice e da Academia Epitácio Pessoa, abarcando em sua visão as características históricas do seu povo e do seu estado e, exemplo maior: manter-se independente dos favores da política e do governo durante toda a vida. Na hora em que teria de recorrer aos favores oficiais, na condição de presidente-fundador da Academia Paraibana de Letras, abriu mão do cargo sem queixa nem soberba.

Jovem aqui chegado, eu já trazia de meu interior a reverência do professor Clodomiro Leal e das conversas na biblioteca de Alagoa Nova sobre o autor do Dicionário da Paraíba, o Dicionário Corográfico, hoje a esgotar tantas vezes seja reeditado.

Cedo da manhã, ao cruzar a Avenida General Osório em direção ao jornal, avisto -o debruçado num dos janelões de sua casa, o rosto cheio avultado ainda mais pelas lentes negras dos seus óculos. Do outro lado da calçada, surpreso, inseguro, retive os passos e a vontade incoercível de parar em sua janela e cumprimentá-lo. “Quem sou eu? Que direi, me dará ouvidos?” De tão gastos, seus olhos já haviam perdido a luz.

Arrisquei: “Bom dia, professor.” Ouvi dele, voz forte, um bom-dia receptivo. Avançou os ombros mais para fora, eu me aproximei e ouvi a pergunta “com quem estou falando?”

Ia dizendo “com ninguém não, professor”, mas freei rápido e me apresentei, inseguro: “Sou do jornal O Norte, de José Leal, seu amigo, e me chamam ‘negro Gonzaga’”.

E veio de graça, espontânea, de quem nunca me vira nem jogara sinuca comigo, que era o que eu fazia com alguma perícia: “Gonzaga Rodrigues de O Norte?”. Virou-se para dentro de casa e pediu que me abrissem a porta. Veio uma senhora de pano à cabeça e conduziu-me ao sofá em que o grande mestre, tateando, se sentara. Tomou minhas mãos, posou-as em seu joelho e quis saber como estava Clodomiro, com quem se correspondera na pesquisa do Dicionário, salvando Alagoa Nova das queixas que fez, no prefácio, aos municípios que deram calado por resposta aos seus questionários. Senti um calor estranho, que não vinha do ar, diante de um notável que sabia de minha existência.

Não me lembro bem o ano, O Norte já não era de José Leal, incorporado aos Associados. Só lembro muito bem e para toda a vida que o revisor de 1951 que fui, sem emprego fixo, vulnerável a qualquer arrepio das chefias de seção, começava a existir para o mais consagrado dos mestres. Via seu nome completado por quem jamais pudesse supor. Foi o que me lembrou ao baixar a cabeça para a generosidade da UFPB quando recebi o Honoris Causa, mais de meio século depois.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de outubro de 2026.