Bemposto, de olhar fixado na câmera, o copo de água já esvaziando, o governador João Azevedo anuncia em sessão remota da Assembleia estar deixando o cargo até 4 de abril para concorrer ao Senado. Previa-se. Mesmo assim tive um toque de surpresa, como não foi diferente quando ele surgiuescolhido, sete anos atrás, para o governo.
Como Burity, Azevedo não era das hostes. Me lembro bem dos dois, um bem antes na chefia de gabinete do capitão-reitor Guilhardo Martins, o filho do professor emérito Gonzaga Burityjá chegado da França ou Suíça de uma pós-graduação, enquanto o engenheiro João, já no governo de Burity, alimentava de projetos irretocáveis o programa habitacional do antigo IPEP. O governador com quem estive aolado de Rubens Nóbrega, há alguns meses, em seu amplo gabinete (um teclado de frente e um grande painel ao fim da mesa de reuniões) não me lembrou outro senão aquele rapaz do IPEP.
Ele já secretário de estado no governo de Ricardo, passei a suspeitar do que viria depoispor conta da resposta breve a uma pergunta que lhe fiz ao ouvido no silencio do velóriode um ente querido que muito nos pertencia.
- O que vocês estão fazendo para não faltar dinheiro com tantos programas e projetos, inclusive o de manter em dia o funcionalismo? – foi a pergunta. Funcionário assumido, governo bom pra mim era sempre o que conseguisse pagar em dia.
- Não gastar mais do que dispõe, não ir além do haver – foi mais ou menos esta sua resposta, a mesma que ouvi, noutra época, de um administrador sensato e comum chamado Damásio Franca.
É que não me ocorre à lembrança programa ou projeto concebido ou proposto à administração estadual, nesses últimos dez anos, que tenha se tornado inviável por falta de recursos. Ao chegar ao governo, o professor de uma escola técnica fundada por um presidente de cor para a formação do artífice,trazia, arraigada, sem discurso, a consciência política das dívidas do poder público com as bases sociais. Essa a visão dirigida prioritariamente às ações na Educação, com incremento à formação tecnológica, na Saúde com a interiorização de hospitais e mais médicos,nos Transportes eno horizonte cultural priorizando o museu na inseminação e difusão da imagem histórica da cidade e no orgulho do seu povo, sendo simbólico que o centenário Palácio da Redenção seja erigido legitimamente em Museu do Estado. Abrem-se outros museus tornando mais vivo e palpável o acervo histórico da Filipeia, a partir do Museu da Cidade, cogitado desde o primeiro governo de Maranhão e só agora montado com temática diversa daque esperávamos, que seria a de museu de 1930, ano em que a Paraíba deflagrou uma revolução para o Brasil, temática que se reservou ao Palácio e não à casa onde morou o presidente heroico.
Some-se a esse período em destaque na nossa história administrativa, seja pela oferta de novos serviços públicos e particulares, e, de forma inédita, mais emprego, mais renda, mais crédito, o empenho de Sua Excelência com a restauração da riqueza monumental da cidade. Nestes meus 75 anos de vida pessoense, vi duas vezes a prancheta do planejamento riscar e executar um programa continuado de restauração. No governo de Burity, que converteu uma secretaria de Estado, com equipe formada e destinada a seu plano de restauração, a partir da Igreja de São Francisco, e neste período que termina sem cansaço do governante e, a tirar por mim, também dos governados.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de fevereiro de 2026.